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Resenha: Sobrados e Mucambos, de Gilberto Freyre

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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A obra Sobrados e Mucambos, de Gilberto Freyre, constitui o segundo tomo da trilogia fundamental sobre a formação da sociedade patriarcal brasileira, sucedendo o texto de tese Casa-Grande & Senzala. Se no primeiro volume Freyre estabelece a plataforma culturalista para romper com o racismo biológico e descreve a integração simbiótica entre senhores e escravos na unidade de produção rural, em Sobrados e Mucambos o foco desloca-se para a dinâmica das transformações e o declínio desse sistema tutelar. 

A desintegração do patriarcado rural brasileiro e o impacto de 1808 marcam o ponto de inflexão na paisagem social do país. A chegada da Família Real ao Rio de Janeiro em 1808 promoveu uma "radical e carnavalizadora troca de lugar", fazendo com que um Brasil marginal passasse a ser o centro do poder monárquico. A presença física do monarca e da corte alterou a fisionomia da sociedade colonial, centralizando o poder que antes emanava de forma autocrática das casas-grandes de engenho. A majestade dos senhores de engenho, outrora soberanos em seus domínios feudais — onde exerciam funções de escola, igreja, banco e justiça —, começou a sofrer um processo de "quebra do roço", termo que Freyre utiliza para descrever a perda da presunção e do orgulho aristocrático rural diante da nova burocracia estatal e das instituições urbanas.

Neste cenário, o sobrado surge não apenas como uma tipologia arquitetônica, mas como o símbolo de uma nova fase do sistema patriarcal, agora semi-urbanizado. Enquanto a casa-grande era desenhada para a sociabilidade aberta e o domínio visual da terra, o sobrado citadino assumiu uma fisionomia severa e defensiva, com janelas estreitas e paredes grossas que simbolizavam a tentativa de segregação da família contra o anonimato e os perigos da rua. Este processo de urbanização não significou a abolição da hierarquia, mas sua reconfiguração dialética: a antiga oposição "casa-grande vs. senzala" prolongou-se no binômio "sobrado vs. mucambo". O mucambo, habitação de influência predominantemente africana e rústica, tornou-se o contraste proletário do sobrado aristocrático, mantendo a estrutura de dominação onde escravos eram transformados em dependentes urbanos e os senhores em patrões.

Um dos elementos técnicos mais complexos da análise freyriana é a identificação de novos atores sociais que aceleraram a desintegração rural: o bacharel e o doutor. Estes novos "doutores europeizados", muitas vezes filhos de senhores de engenho educados em Coimbra ou nas novas academias de Olinda e São Paulo, tornaram-se desertores da aristocracia rural ao preferirem o brilho da Corte e das profissões liberais. O bacharel surgiu como o aliado do Governo e da lei impessoal contra o poder autocrático do pai, marcando a transição do "bom senso dos velhos" para o "senso jurídico dos moços". Essa ascensão do bacharel e do mulato valorizado pela cultura técnica agiu como um elemento plástico que amoleceu os duros antagonismos de classe e raça, embora criasse novas distâncias sociais baseadas na educação e no título acadêmico.

A dialética freyriana nesta obra expande-se para além da moradia, alcançando o conflito espacial entre a casa e a rua. A "casa" (englobando sobrado e mucambo) passou a lutar contra a "rua", que historicamente era vista como um escoadouro de águas servidas e espaço de anonimato detestável. A partir do século XIX, a rua começou a ganhar dignidade e importância social através da iluminação pública e das posturas municipais que limitavam os abusos dos proprietários de sobrados, proibindo, por exemplo, o despejo de detritos diretamente nas calçadas. Esse "prestígio da rua" marcou o início de uma sociabilidade moderna, governada por leis universais que constrangiam o indivíduo a vestir a capa da impessoalidade, em oposição ao personalismo absoluto do ambiente doméstico.

Teoricamente, Freyre utiliza o sobrado como um "fato social total", nos moldes de Marcel Mauss, para compreender a sociedade em sua inteireza econômica, religiosa e política. A transição para o sobrado representou o ajuste da hierarquia patriarcal diante de demandas mais individualizantes e igualitárias determinadas pelo meio urbano. Se na casa-grande o sistema funcionava por uma geometria social de inclusão e interdependência sádica, no sobrado as distâncias tornaram-se mais frias e as relações de subordinação mais burocráticas. O declínio do patriarcado rural não foi, portanto, uma ruptura súbita, mas um prolongamento menos severo do sistema tutelar que se aculturou à modernidade europeizante trazida pela corte lusa.

A obra também destaca o papel mediador do mulato e do bacharel de cor na quebra do exclusivismo das famílias privilegiadas. Com o desenvolvimento das cidades e das indústrias, a ascensão social do mulato valorizado pelo saber intelectual tornou-se uma força capaz de infiltrar-se nas fendas do sistema patriarcal. Muitos mulatos e negros forros encontraram no meio urbano — a "rua" — um espaço de liberdade e desenvolvimento de inteligência tática, exercendo funções de mecânicos, artífices e operários que se recusavam a ser confundidos com animais de carga. Essa mobilidade vertical, embora restrita e frequentemente marcada pelo preconceito, permitiu que indivíduos de cor atingissem posições na magistratura e na política, desafiando a hegemonia absoluta da branquidade aristocrática.

Freyre analisa rigorosamente como a arquitetura urbana refletia essa nova hierarquia: o "sobrado de esquina" ou "com a porta para a rua" simbolizava o máximo de aproximação entre o patriarcalismo em declínio e a rua triunfal. O fim das urupemas (treliças de madeira que escondiam as mulheres) e sua substituição por vidraças permitiu o namoro de janela, aproximando a intimidade da casa do espaço público da rua. Contudo, essa modernização era superficialmente europeizada: por trás das fachadas de azulejo, mantinham-se os costumes de "cabeção e chinelo", o domínio dos padres e a dependência do braço escravo, revelando a persistência do privatismo patriarcal mesmo sob novas roupagens urbanas.

 Sobrados e Mucambos é o estudo da "quebra do roço" da elite rural e da emergência de uma classe média urbana incipiente. A transição do engenho para a praça não apenas alterou a economia, deslocando o eixo de poder para o comércio e os bancos, mas transformou a própria psicologia do brasileiro, agora dividido entre a lealdade familial e as obrigações da cidadania urbana. A casa continuou a acompanhar o brasileiro como uma sombra ecológica, mas o advento da rua e da lei impessoal deu início ao processo de "atomização" da sociedade, onde o indivíduo passava a existir para além do nome da família.

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O AUTOR

Gilberto Freyre (1900-1987) foi um sociólogo, historiador e ensaísta brasileiro. Autor de "Casa Grande & Senzala", que é considerada, uma das obras mais representativas sobre a formação da sociedade brasileira. Recebeu o Prêmio Internacional La Madonnina, o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, o Grã-cruz de Santiago de Compostela, entre outros.


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O Post Literal é um portal de cultura e entretenimento focado na interseção entre literatura, cinema e cultura pop. Fundado e editado pelo escritor Vítor Zindacta, o site se propõe a investigar as artes não apenas como lazer, mas como reflexos do tempo atual. A plataforma oferece críticas, resenhas, análises aprofundadas e entrevistas, cobrindo desde clássicos literários e lançamentos do mercado editorial nacional até fenômenos do universo geek e cinematográfico.

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