Resenha: O outro lado, de Conde Eric Stenbock


Publicada originalmente em 1893 por Eric Stenbock, O Outro Lado: uma lenda bretã constrói uma narrativa inquietante que funde simbolismo religioso, imagética decadente e terror sobrenatural. A obra acompanha Gabriel, um menino sensível e deslocado em sua aldeia, cuja fascinação pelo lado proibido de um riacho o conduz a uma jornada de sedução, perda e transfiguração. Nesta edição da Sociedade das Relíquias Literárias, o conto ressurge com força perturbadora, reafirmando sua potência estética e espiritual.

A narrativa se inicia em uma atmosfera quase folclórica, com velhinhas reunidas ao redor da lareira, compartilhando histórias macabras. Logo nas primeiras páginas, a sugestão do mal se instala como uma presença concreta, quase ritualística:

“— Ah, sim, aí, quando eles chegam ao topo da colina, há um altar com seis velas bem pretas...” (p. 8)

O cenário do “outro lado” é delineado como uma contraposição simbólica à aldeia: enquanto uma margem é fértil e luminosa, a outra permanece sombria, estéril e ameaçadora. O riacho torna-se fronteira moral e espiritual. A imagem dos lobos — e mais ainda, dos lobisomens — reforça o caráter liminar da narrativa:

“...os lobisomens e os lobos-homens e os homens-lobos...” (p. 9)

Gabriel, descrito como diferente das outras crianças, carrega uma sensibilidade que o aproxima do invisível. Seu isolamento é cruelmente exposto:

“Entre os companheiros, ele era como um raro e belo pássaro que escapa da gaiola...” (p. 10)

A partir desse ponto, o conto mergulha na experiência subjetiva do protagonista. A lua cheia, a flor azul de perfume inebriante e o canto do rouxinol instauram um clima de encantamento fatal. A travessia do riacho é o gesto inaugural da queda — não apenas física, mas espiritual. A sedução se materializa na figura da jovem de cabelos dourados e olhos azuis profundos, cuja beleza carrega ambiguidade inquietante:

“...seus olhos eram da mesma cor que as estranhas flores azuis.” (p. 11)

Lilith, como é revelado mais tarde, encarna o fascínio e a ruína. A flor azul — símbolo recorrente — funciona como objeto de tentação e vínculo entre os mundos. Cada vez que é retirada do peito de Gabriel, ela se carboniza; quando retorna ao contato com seu coração, revive. Esse movimento cíclico traduz o conflito entre fé e desejo.

O confronto entre o sagrado e o profano atinge um de seus momentos mais intensos durante a Missa. Ao responder incorretamente ao latim litúrgico, Gabriel sinaliza a ruptura interior:

“Intriobo ad altare Dei” (p. 12)
“Qui nequiquam laetificavit juventutem meam” (p. 12)

A inversão do rito indica que algo foi deslocado no âmago do menino. A linguagem religiosa, antes fonte de estabilidade, torna-se distorcida, ecoando a influência do “outro lado”. A narrativa então assume contornos quase oníricos, em que realidade e sonho se confundem. O quarto de Gabriel perde seus símbolos sagrados, e ele experimenta o esquecimento das orações — momento de angústia existencial profundo.

O ápice simbólico ocorre na transformação. Ao tentar escapar, pressionando a flor azul na testa de Lilith, Gabriel precipita sua própria metamorfose. Diante do riacho de águas imóveis, ele contempla sua nova forma:

“...a cabeça e o rosto, sim; mas o corpo fora transformado no de um lobo.” (p. 20)

A imagem é brutal e definitiva. A perda da forma humana é a consumação do pacto não verbalizado. Ainda assim, Stenbock não abandona a possibilidade de redenção. Quando o Santíssimo Viático surge à beira do riacho, o confronto entre os domínios se intensifica:

“— Eles não podem nos fazer mal.” (p. 23)

O momento em que Gabriel é restaurado à forma humana, ao se prostrar diante do Sacramento, estabelece o triunfo momentâneo da graça sobre a perversão. No entanto, o conto não oferece uma vitória plena e confortável. A lembrança permanece, e a loucura anual que acomete Gabriel sugere que a fronteira nunca é totalmente apagada.

A linguagem de Stenbock é marcada por contrastes: delicadeza e violência, lirismo e grotesco, devoção e heresia. O guardião dos lobos, montado em um carneiro negro, ecoa imagens de missa negra e paródia sacramental. O próprio texto articula um espelhamento entre liturgia cristã e rituais infernais, ampliando o impacto simbólico.

Outro aspecto fascinante é o tratamento do olhar. Olhos azuis, olhos vermelhos, olhos fixos — o olhar é instrumento de sedução e de condenação. Gabriel é visto, observa e é transformado por aquilo que contempla. O “outro lado” não é apenas um espaço geográfico; é uma dimensão interior, um estado da alma.

A conclusão do conto, com a floresta incendiada e reduzida a cinzas, deixa um rastro de ambiguidade. O mal é contido, mas não extinto. A última informação — de que Gabriel, uma vez por ano, por nove dias, é dominado por estranha loucura — sela a permanência da marca:

“Agora, ‘o outro lado’ é inofensivo... Mas ninguém se atreve a atravessá-lo, a não ser Gabriel...” (p. 24)

Essa cicatriz narrativa sugere que o contato com o proibido jamais é totalmente reversível.

Como obra decadentista, O Outro Lado explora a atração pelo interdito, o erotismo velado, a tensão entre pureza e corrupção. O simbolismo da flor azul dialoga com tradições românticas, mas aqui assume tonalidade sombria, quase sacrificial. A figura de Lilith, evocando mitos ancestrais, sintetiza o feminino como mistério e abismo.

A ressurreição editorial da obra pela Sociedade das Relíquias Literárias revela não apenas um conto raro, mas um exercício sofisticado de imaginação teológica e estética. Ler O Outro Lado é experimentar um atravessamento: do conforto da aldeia à vertigem da floresta, da oração ao uivo, da infância à perda.

A força da narrativa reside justamente nessa ambiguidade permanente. O riacho continua ali — prateado, aparentemente inofensivo — mas carregando a memória de tudo que foi atravessado. E talvez essa seja a grande lição do conto: alguns limites, uma vez cruzados, deixam marcas que nem mesmo a fé apaga por completo.

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