A obra Como alcançar o sol, de Jennifer Hartmann, é um romance que começa no ponto mais brutal possível: o instante em que a inocência é destruída e o amor é atravessado pela violência. A narrativa alterna pontos de vista, organiza-se em “passos” simbólicos — como “Corra atrás do horizonte” e “Enfrente o eclipse” — e constrói uma jornada emocional que atravessa culpa, trauma, julgamento social e a difícil possibilidade de amar novamente.

Logo no prólogo, Hartmann escolhe o vermelho como imagem inaugural, estabelecendo o tom da tragédia que moldará Ella para sempre:

“Vermelho.
Tudo o que vejo é vermelho.”
(p. 13)

A repetição cria um efeito sufocante. Não há espaço para nuance, apenas a cor da violência que envolve Jonah, o irmão de Ella, e a transforma em sobrevivente de um evento que marcará sua identidade. O prólogo é intenso, dramático, quase cinematográfico, culminando em uma frase que ecoa como sentença:

“Mas não existe sol no meu céu.
Nenhuma luz.
Nenhum calor.”
(p. 15)

Essa ausência de sol é o eixo simbólico do romance. O título não é metafórico por acaso: alcançar o sol é reencontrar luz depois de um eclipse pessoal.

Nos primeiros capítulos, a autora alterna entre passado e presente para construir a complexidade emocional de Ella. Aos sete anos, no Capítulo 1, vemos uma infância ensolarada, marcada por picolés de laranja, promessas de casamento infantil e a pureza do primeiro laço com Max:

“— E o sol é brilhante que nem você.” (p. 21)

Essa fala simples carrega um peso devastador quando contrastada com a Ella de dez anos depois — julgada, isolada, chamada de “irmã de um assassino”. A autora domina a técnica do contraste: o calor do verão infantil versus o frio do corredor escolar; o laranja vibrante da infância versus o vermelho traumático do prólogo.

No Capítulo 2, a narrativa salta para a adolescência de Ella, e a crueldade social aparece sem filtros. A escola se torna tribunal, e a professora, símbolo do julgamento moral:

“O livro que estamos lendo no momento tem alguns paralelos bem marcantes com a sua história.” (p. 31)

Esse momento expõe a violência institucional e cotidiana que Ella sofre. Não é apenas o crime do irmão que a assombra, mas o espetáculo público da dor. A obra trabalha com a ideia de herança emocional: até que ponto carregamos o pecado do outro? Até que ponto somos definidos pelo sangue?

A protagonista é construída com camadas interessantes: irônica, amarga, resistente. Ela sabe que é vista como monstro e internaliza essa imagem. A leitura do livro Monstro, mencionada na sala de aula, não é coincidência; funciona como espelho narrativo. Ella não é a criminosa, mas é tratada como tal.

Ao mesmo tempo, a relação com Max é construída com tensão silenciosa. Ele é o garoto do passado, mas também parte da comunidade que a rejeita. Quando ele a ajuda com a máquina de refrigerante, sem dizer palavra alguma, o gesto ecoa mais do que um discurso inteiro:

“Ele não diz uma palavra.
Não sorri, pisca os olhos, nem mesmo respira.”
(p. 33)

É nessa economia de palavras que a autora trabalha a reconstrução do vínculo. O silêncio de Max é tão significativo quanto o trauma de Ella.

Um dos trechos mais poderosos do livro surge no Capítulo 3, quando a protagonista reflete sobre o amor, subvertendo a ideia romântica tradicional:

“O amor supera.
Devora.
Mata.”
(p. 41)

Esse fragmento é crucial para entender o posicionamento emocional de Ella. O romance não é apenas sobre amar alguém; é sobre sobreviver ao amor que falhou, que traiu, que matou simbolicamente. O irmão dizia:

“O amor supera qualquer coisa.” (p. 41)

Mas, para Ella, o amor foi o que destruiu sua estabilidade. A autora tensiona o clichê para transformá-lo em conflito.

Narrativamente, Hartmann constrói a história em “passos” — primeiro passo, segundo passo, terceiro passo — como se o processo de cura fosse um manual imperfeito. Essa estrutura dá ritmo e reforça o simbolismo solar: horizonte, hora de ouro, eclipse, amanhecer. O leitor é convidado a atravessar o escuro para talvez merecer a luz.

O grande mérito da obra está na maneira como ela trabalha culpa e ambivalência. Ella ama Jonah e o odeia. A mãe acredita na inocência do filho; Ella duvida. Essa fratura interna é mais dolorosa do que o julgamento externo. O livro se sustenta nessa tensão: amor versus verdade, memória versus realidade.

Há também uma crítica implícita à cultura do cancelamento social em pequenas comunidades. A cidade de Juniper Falls não esquece, não perdoa, não diferencia. A protagonista carrega um sobrenome como sentença. O passado é uma marca indelével.

Estilisticamente, Hartmann aposta em frases curtas em momentos de impacto, intercaladas com descrições mais sensoriais — calor, suor, cores, texturas. A cor laranja reaparece como memória da infância e como símbolo de esperança. O vermelho permanece como trauma. A escrita é direta, emocional, com diálogos que alternam leveza e dor.

A relação entre Ella e Max cresce na tensão dos olhares, na convivência forçada como vizinhos, na lembrança de uma promessa infantil. O romance não nasce do encantamento instantâneo, mas da reconstrução. É lento, marcado por resistência. Ella se recusa a amar novamente:

“Nunca vou me apaixonar.” (p. 42)

Essa negativa é, paradoxalmente, o que move a narrativa. O leitor sabe que, para alcançar o sol, ela precisará atravessar o medo do amor.

Como alcançar o sol é um romance que fala sobre segundas chances, mas não de forma ingênua. Ele reconhece que a dor não desaparece, que o passado não pode ser apagado, que algumas cicatrizes permanecem visíveis. Ainda assim, insiste na possibilidade de luz.

O livro emociona porque trabalha com o que há de mais humano: a culpa que não nos pertence totalmente, o desejo de ser visto além do erro do outro, a necessidade de ser amado apesar da sombra.

Ao final, fica a sensação de que o sol não é algo que simplesmente aparece. Ele precisa ser buscado, encarado, quase conquistado. E talvez seja isso que torna a obra tão impactante: ela não promete cura fácil. Promete travessia.

Jennifer Hartmann entrega uma história intensa, dolorosa e sensível, que transforma um trauma em jornada de redenção. É um romance que sangra, mas também brilha — ainda que a luz venha depois de um longo eclipse.

Comentários

CONTINUE LENDO