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| Imagem: Divulgação / Acervo pessoal |
A escritora manauara Myriam Scotti lança em Sol abrasador prepara solo fértil (Editora Orlando) uma coletânea de contos que mergulha nas experiências de mulheres amazônicas atravessadas por transformações históricas, desigualdades sociais e pelas sucessivas ondas de exploração econômica que marcaram a região. A obra constrói um panorama sensível e crítico da vida feminina em Manaus e em outras cidades do Amazonas, acompanhando personagens que crescem, trabalham, migram ou retornam à capital carregando expectativas, perdas e afetos acumulados ao longo do tempo.
As narrativas apresentam mulheres que começaram a trabalhar ainda jovens, sustentam famílias inteiras e enfrentam decisões impostas por contextos sociais muitas vezes adversos. A partir dessas trajetórias, Scotti desenvolve contos que percorrem diferentes períodos históricos da Amazônia — do auge do ciclo da borracha até o presente — evidenciando como os projetos de desenvolvimento e os processos de exploração econômica moldam de forma direta as oportunidades, os deslocamentos e as escolhas dessas personagens.
Com uma prosa que transita entre o lirismo e a dureza da realidade social, a autora ambienta suas histórias tanto em comunidades do interior quanto nos espaços urbanos de Manaus. Em vez de tratar as personagens como símbolos ou alegorias, Scotti as apresenta como sujeitos complexos, atravessados por experiências concretas de trabalho, maternidade, solidão e pela busca constante por dignidade em um território marcado por profundas desigualdades.
O livro conta com apresentação da escritora e jornalista Bianca Santana, colunista da Folha de S.Paulo, e texto de orelha assinado pela escritora e crítica literária Thaís Campolina. Ambas destacam a força narrativa da obra e o compromisso da autora em retratar mulheres amazônicas para além de estereótipos recorrentes.
Embora represente sua estreia no gênero conto, Sol abrasador prepara solo fértil integra uma trajetória literária já consolidada. Myriam Scotti foi vencedora do Prêmio Manaus de Literatura em 2020, teve obras selecionadas pelo Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) e foi finalista do Prêmio Pena de Ouro 2021 na categoria conto. Em 2023, também conquistou o segundo lugar na categoria conto do Prêmio Off Flip, realizado durante a tradicional Festa Literária Internacional de Paraty.
Em sua escrita, Scotti dialoga com tradições da literatura brasileira associadas a autores como João Ubaldo Ribeiro e Milton Hatoum, mas constrói uma perspectiva própria, profundamente enraizada na experiência amazônica. Para a autora, Manaus não é apenas cenário, mas um elemento estruturante das histórias. “A cidade molda desejos, frustrações e trajetórias de vida”, afirma.
Nos contos, Scotti evita tanto a romantização da floresta quanto a representação simplificada das mulheres amazônicas como vítimas passivas. Ao contrário, suas personagens revelam força, contradições e capacidade de resistência diante de contextos históricos muitas vezes marcados pela exploração econômica e pela precariedade social. Histórias como “Terra Prometida” e “O Soldado da Borracha” abordam conflitos sociais e ambientais sem perder de vista a dimensão íntima e singular de cada personagem.
Escrito ao longo de sete anos, o livro também reflete o diálogo entre a formação jurídica e literária da autora. “O Direito me ensinou a enxergar estruturas de poder; a Literatura me deu as ferramentas para humanizá-las”, observa Scotti, sintetizando o processo de construção da obra.
No texto de orelha, Thaís Campolina destaca que as personagens da coletânea “não são necessariamente migrantes, mas todas vivem os dilemas de permanecer, partir ou retornar a Manaus”. Segundo a crítica, a cidade assume diferentes significados ao longo das histórias, variando de acordo com o tempo histórico, a classe social, o gênero e a origem de cada personagem — ora representando promessa e esperança, ora evocando saudade, tensão e pertencimento.
Já na apresentação do livro, Bianca Santana ressalta o compromisso da autora em retratar mulheres amazônicas em toda a sua complexidade. Para a jornalista, as personagens de Scotti não se encaixam em arquétipos simplificados: “não são heroínas no sentido convencional, tampouco vítimas passivas dos ciclos de exploração que atravessam suas histórias”. São mulheres apresentadas em sua inteireza, marcadas por trabalho, migração, amor, saudade e desigualdade, mas também por sua capacidade de sentir, resistir e reinventar a própria vida.
Sobre a autora
Myriam Scotti nasceu em 1981, em Manaus (AM). É escritora, crítica literária e mestre em Literatura pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Seu romance Terra Úmida venceu o Prêmio Literário Cidade de Manaus 2020. Em 2021, publicou o romance juvenil Quem chamarei de lar? (Editora Pantograf), obra aprovada no PNLD Literário e selecionada pelo edital Biblioteca de São Paulo.
Em 2023, lançou o livro de poemas Receita para explodir bolos (Editora Patuá). Embora escreva desde a infância, transformou a literatura em atividade profissional a partir de 2014. Atualmente, desenvolve dois novos projetos de romance — um de ambientação contemporânea e outro de temática histórica.
Sol abrasador prepara solo fértil está disponível no site da Editora Orlando:
https://editoraorlando.com.br/produto/sol-abrasador-prepara-solo-ferti

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