Geografia e Movimentos Sociais – Nelson Rodrigo Pedon: a construção socioterritorial das lutas sociais na geografia crítica

 Uma análise jornalístico-científica sobre como a geografia brasileira incorporou os movimentos sociais como categoria teórica e territorial de interpretação da realidade.

PEDON, Nelson Rodrigo.
Geografia e movimentos sociais: dos primeiros estudos à abordagem socioterritorial.
São Paulo: Editora UNESP, 2013.
Recurso digital (ePDF).
ISBN: 978-85-393-0418-9.

A obra Geografia e movimentos sociais: dos primeiros estudos à abordagem socioterritorial, de Nelson Rodrigo Pedon, constitui uma contribuição significativa ao debate contemporâneo da geografia crítica brasileira. Publicado pela Editora UNESP em 2013, o livro busca compreender a maneira pela qual a ciência geográfica passou a incorporar os movimentos sociais como objeto legítimo de investigação teórica e empírica. Mais do que um levantamento historiográfico, o autor propõe uma formulação conceitual capaz de integrar a dimensão territorial à análise das mobilizações sociais.

Desde as primeiras páginas, Pedon apresenta o ponto de partida de sua investigação: a relação entre espaço, poder e organização social. O autor indica que sua reflexão nasceu da observação empírica de formas de organização popular em bairros periféricos, nas quais a luta por condições de vida dignas se materializava em reivindicações territoriais. Segundo o próprio autor, a geografia possui papel decisivo para compreender esse processo, pois “a ação política de grande parte da classe trabalhadora envolve, incontestavelmente, a conquista do espaço” (Pedon, 2013, p.10). 

Esse ponto de partida revela uma característica central da obra: a tentativa de articular a dimensão concreta do território com os processos políticos de mobilização social. Para Pedon, os movimentos sociais não devem ser analisados apenas como fenômenos políticos ou sociológicos, mas também como processos espaciais. Assim, o território deixa de ser apenas um cenário das lutas sociais e passa a ser compreendido como elemento constitutivo delas.

O autor situa sua investigação no contexto de transformação epistemológica da geografia brasileira ocorrida entre as décadas de 1970 e 1980. Esse período foi marcado pelo surgimento da chamada geografia crítica, corrente que rompeu com perspectivas tradicionais que tratavam o espaço como simples suporte das relações sociais. Conforme observa Pedon, antes desse movimento renovador o espaço era frequentemente concebido “como um substrato sobre o qual a sociedade edificava seus recursos técnicos e estruturais”, sendo metaforicamente descrito como um “palco” da ação social (Pedon, 2013, p.15). 

A geografia crítica, influenciada pelo materialismo histórico e pelo pensamento marxista, propôs uma mudança radical nessa concepção. O espaço passou a ser entendido como produto histórico das relações sociais, sendo simultaneamente resultado e condição dessas relações. Essa transformação teórica permitiu à geografia aproximar-se de temas políticos e sociais antes negligenciados, entre eles os movimentos sociais.

Pedon destaca que a emergência dessa nova abordagem ocorreu paralelamente ao crescimento das mobilizações populares no Brasil. A redemocratização do país, o fortalecimento do movimento sindical e a expansão das organizações comunitárias criaram um ambiente propício para a incorporação do tema na agenda acadêmica. No entanto, segundo o autor, a geografia demorou mais que outras disciplinas a desenvolver um corpo teórico consistente sobre o assunto. Ele observa que, ao contrário da sociologia e da história, “buscar compreender os fatores que colaboram para a organização e efetivação das lutas sociais tardou a merecer atenção” entre os geógrafos (Pedon, 2013, p.21). 

Essa constatação constitui um dos eixos críticos da obra. Pedon demonstra que os primeiros estudos geográficos sobre movimentos sociais surgiram apenas na década de 1980, e muitas vezes se basearam em referenciais teóricos provenientes de outras áreas das ciências sociais. Autores como Manuel Castells e Jean Lojkine foram amplamente utilizados como base interpretativa, sobretudo nos estudos urbanos. Contudo, essa dependência teórica evidenciava a ausência de um aparato conceitual próprio da geografia para compreender os movimentos sociais.

Diante desse cenário, o livro propõe uma reconstrução histórica das formas pelas quais a geografia se aproximou da temática. O autor organiza essa trajetória em três momentos principais: os estudos iniciais sobre movimentos sociais na geografia, as pesquisas pioneiras que consolidaram a temática e, finalmente, os trabalhos propositivos que buscaram desenvolver novas categorias conceituais.

No primeiro momento, Pedon analisa a influência da renovação epistemológica da geografia e sua relação com o contexto político brasileiro. Ele destaca a importância de eventos acadêmicos, como os Encontros Nacionais de Geógrafos, que se tornaram espaços de debate crítico durante o período de abertura política. Essas discussões contribuíram para a introdução de novas perspectivas teóricas e metodológicas na disciplina.

Entre os pensadores que influenciaram essa transformação, o autor destaca nomes fundamentais da geografia crítica, como Milton Santos. Para Pedon, o pensamento de Santos foi decisivo para consolidar a concepção do espaço como categoria central da análise social. Ao defender que o espaço deve ser entendido como produto da história e da sociedade, Santos forneceu bases teóricas para que a geografia pudesse interpretar as contradições sociais presentes no território.

Outro autor relevante mencionado por Pedon é o geógrafo francês Yves Lacoste. Sua obra A geografia: isso serve, antes de mais nada, para fazer a guerra contribuiu para questionar a suposta neutralidade da ciência geográfica. Lacoste demonstrou que o conhecimento geográfico sempre esteve ligado a estratégias de poder, especialmente no âmbito do Estado moderno. Essa perspectiva permitiu compreender o território como espaço de disputa política e estratégica.

Além dessas influências, o pensamento do filósofo Henri Lefebvre também desempenha papel importante na análise de Pedon. Lefebvre elaborou a teoria da produção do espaço, segundo a qual o espaço social é resultado de processos históricos e econômicos que envolvem relações de poder. Essa abordagem reforçou a ideia de que o território não é apenas uma dimensão física, mas também um produto social e político.

A partir dessas referências, Pedon desenvolve o conceito central de sua obra: a abordagem socioterritorial dos movimentos sociais. Essa perspectiva procura integrar a dimensão territorial às análises da ação coletiva. Para o autor, os movimentos sociais devem ser compreendidos como processos que produzem territorialidades específicas, nas quais se articulam práticas políticas, identidades coletivas e relações de poder.

Nesse sentido, a obra argumenta que a luta social frequentemente envolve a disputa pelo controle do espaço. Movimentos de trabalhadores rurais, associações de moradores e organizações comunitárias não apenas reivindicam direitos, mas também buscam redefinir o uso e o significado do território. O espaço torna-se, assim, um campo de conflito e negociação.

Um aspecto particularmente interessante do livro é a forma como o autor relaciona teoria e empiria. Pedon não se limita a discutir conceitos abstratos, mas procura demonstrar como as categorias socioterritoriais se manifestam em experiências concretas de mobilização popular. O território aparece como espaço vivido, onde se materializam as contradições sociais e as estratégias de resistência.

Essa abordagem dialoga com a tradição marxista da análise social, mas também incorpora críticas e revisões desse pensamento. Pedon reconhece que muitos estudos sobre movimentos sociais foram influenciados por releituras do marxismo realizadas nas décadas de 1970 e 1980. Essas revisões ampliaram o conceito de ação coletiva para além do movimento operário clássico, incluindo novas formas de mobilização social.

Outro mérito da obra é sua contribuição para a afirmação da identidade teórica da geografia no campo das ciências humanas. Ao desenvolver conceitos próprios para analisar os movimentos sociais, Pedon busca superar a dependência de referenciais externos. O autor defende que a geografia possui ferramentas analíticas específicas — como espaço, território e territorialidade — que permitem compreender aspectos da ação coletiva frequentemente ignorados por outras disciplinas.

A conclusão do livro reforça essa perspectiva. Pedon argumenta que a abordagem socioterritorial oferece um caminho promissor para integrar a geografia ao debate sobre transformação social. Ao reconhecer o papel do território nas lutas políticas, a disciplina pode contribuir para uma compreensão mais ampla das dinâmicas sociais contemporâneas.

Do ponto de vista metodológico, a obra apresenta uma estrutura clara e consistente. O autor combina revisão bibliográfica, análise histórica e reflexão teórica, construindo uma narrativa que dialoga tanto com a tradição acadêmica quanto com os desafios atuais da geografia crítica. O texto mantém rigor científico, mas é escrito em linguagem acessível, característica que reforça seu caráter jornalístico-analítico.

Em síntese, Geografia e movimentos sociais representa uma contribuição relevante para os estudos geográficos e para o debate interdisciplinar sobre ação coletiva. Ao propor a abordagem socioterritorial, Nelson Rodrigo Pedon amplia as possibilidades interpretativas da geografia e reafirma a importância do território como categoria central na compreensão das lutas sociais.


Biografia do autor

Nelson Rodrigo Pedon é geógrafo e pesquisador brasileiro especializado em geografia política e geografia agrária. Sua produção acadêmica concentra-se no estudo das relações entre território, poder e movimentos sociais, com ênfase nas lutas populares e nos processos de organização coletiva no espaço. Pedon desenvolveu sua trajetória acadêmica vinculada à Universidade Estadual Paulista (UNESP), instituição na qual também se consolidaram importantes centros de pesquisa sobre reforma agrária e territorialidade no Brasil. Suas pesquisas dialogam com a tradição da geografia crítica brasileira, influenciada por autores como Milton Santos e Bernardo Mançano Fernandes. Ao longo de sua carreira, o autor tem se dedicado a investigar as formas pelas quais os movimentos sociais produzem territorialidades e redefinem as relações entre espaço e política, contribuindo para o avanço teórico da geografia contemporânea. 

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