Formação de leitores surdos e a educação inclusiva — Sandra Eli Sartoreto de Oliveira Martins


Uma investigação acadêmica sobre como práticas pedagógicas e concepções de linguagem influenciam a formação de leitores surdos no contexto da educação inclusiva.

MARTINS, Sandra Eli Sartoreto de Oliveira. Formação de leitores surdos e a educação inclusiva. São Paulo: Editora UNESP, 2011. Inclui bibliografia. ISBN 978-85-393-0205-5. CDD: 371.912. CDU: 376-056.263.

A obra “Formação de leitores surdos e a educação inclusiva”, de Sandra Eli Sartoreto de Oliveira Martins, constitui uma contribuição significativa para o campo da educação especial e das pesquisas sobre letramento. Publicado pela Editora UNESP, o livro apresenta um estudo aprofundado sobre os processos de formação de leitores surdos dentro do contexto da educação inclusiva brasileira, articulando fundamentos teóricos da linguística, da psicologia histórico-cultural e das teorias da linguagem. A autora investiga, com rigor metodológico, como crianças surdas podem apropriar-se da leitura mesmo em condições linguísticas adversas e em sistemas educacionais que historicamente privilegiaram modelos pedagógicos pouco adequados à sua realidade.

Desde o início da obra, Martins estabelece uma premissa fundamental: a leitura não deve ser tratada como um fenômeno secundário ou derivado da escrita. Na tradição pedagógica voltada à alfabetização de surdos, muitas práticas educacionais partiam da suposição de que a leitura seria uma consequência natural da aprendizagem da escrita. Essa visão é criticada ao longo do livro, pois, segundo a autora, tal abordagem obscurece a especificidade do ato de ler enquanto prática cultural e cognitiva. O prefácio da obra sintetiza essa crítica ao afirmar que muitas investigações educacionais “não estabelecem distinções entre ensinar a ler e a escrever, nem entre aprender a ler e a escrever”, tratando ambas como processos sequenciais e dependentes entre si (Martins, 2011, p.14). 

Nesse sentido, a autora propõe uma ruptura teórica relevante ao considerar a leitura como um objeto de ensino autônomo, especialmente no caso das crianças surdas. Ao deslocar o foco do ensino da escrita para o ensino da leitura, Martins busca compreender como os estudantes podem construir sentido a partir da linguagem escrita mesmo sem dominar plenamente os sistemas linguísticos tradicionalmente exigidos pelo ensino escolar.

Um dos méritos centrais da obra é o modo como ela contextualiza historicamente a educação dos surdos. Martins apresenta uma análise detalhada das diferentes abordagens pedagógicas que marcaram esse campo ao longo do século XX, como o oralismo, a comunicação total e o bilinguismo. O oralismo, dominante por décadas, baseava-se na ideia de que a integração social do surdo dependia da aprendizagem da língua oral. Tal perspectiva via a surdez sobretudo como uma deficiência a ser corrigida, o que resultou em práticas pedagógicas voltadas à reabilitação auditiva e à assimilação cultural ao modelo ouvinte. Como aponta a autora, essa abordagem raramente produziu resultados satisfatórios em termos de letramento e desenvolvimento linguístico.

A partir dos anos 1980, novos paradigmas começaram a surgir, impulsionados por estudos linguísticos que reconheceram a complexidade das línguas de sinais. Nesse contexto, o bilinguismo passou a defender a língua de sinais como primeira língua do sujeito surdo e a língua oficial do país como segunda língua. Martins analisa essas transformações teóricas e institucionais, observando que a valorização da língua de sinais trouxe avanços importantes para a compreensão da surdez como fenômeno cultural e linguístico, e não apenas clínico ou patológico.

Entretanto, a autora também ressalta que o debate educacional não pode limitar-se à escolha entre modelos pedagógicos. O problema central, segundo ela, reside nas concepções de linguagem que orientam as práticas de ensino. Muitas abordagens reduzem a leitura a um processo de decodificação de palavras ou à assimilação de regras gramaticais, ignorando sua dimensão social e discursiva. Martins critica esse reducionismo ao afirmar que práticas pedagógicas baseadas apenas na decomposição da linguagem em “palavras, sílabas e sons isolados” podem transformar a aprendizagem da leitura em uma atividade desprovida de sentido para os alunos (Martins, 2011, p.21). 

Para superar essa limitação, a autora mobiliza um conjunto robusto de referências teóricas. Entre os principais interlocutores de sua análise estão Lev Vigotsky, Mikhail Bakhtin e pesquisadores da teoria da leitura como prática social. A partir dessas perspectivas, Martins sustenta que a linguagem não é apenas um instrumento de comunicação, mas um processo de constituição do sujeito. A leitura, nesse contexto, deve ser compreendida como atividade discursiva que emerge da interação entre indivíduos, textos e contextos culturais.

Essa concepção tem implicações pedagógicas profundas. Se a linguagem é construída socialmente, o ensino da leitura precisa considerar as experiências culturais dos alunos e as formas pelas quais eles participam de práticas discursivas. A autora destaca que os estudantes surdos, assim como qualquer outro grupo social, mobilizam diferentes recursos semióticos para construir significado — incluindo gestos, expressões corporais, imagens e outros sistemas simbólicos.

O livro ganha especial relevância quando apresenta os resultados de uma pesquisa empírica realizada com crianças surdas matriculadas no sistema público de ensino. A investigação foi conduzida por meio de uma metodologia de pesquisa-ação, na qual a autora acompanhou o processo de aprendizagem de leitura de um grupo de estudantes e analisou simultaneamente as práticas pedagógicas adotadas por seus professores.

Durante o estudo, Martins observou que muitos docentes demonstravam dificuldade em explicar como ensinavam a leitura a alunos surdos. Em alguns casos, os professores acreditavam que a aprendizagem da leitura ocorreria espontaneamente, sem planejamento pedagógico específico. A autora relata que, ao serem questionados sobre suas estratégias didáticas, alguns educadores “ficavam perplexos com a pergunta, pois pareciam conceber que a aprendizagem da leitura ocorreria num passe de mágica” (Martins, 2011, p.17). 

Essa constatação revela uma lacuna importante na formação docente. Para Martins, o ensino da leitura exige planejamento sistemático, compreensão teórica do processo de linguagem e sensibilidade às particularidades linguísticas dos estudantes surdos. Sem essas condições, a inclusão escolar corre o risco de tornar-se apenas formal, sem garantir efetivamente o acesso ao conhecimento.

Outro aspecto relevante da pesquisa é a análise das estratégias utilizadas pelas próprias crianças durante o processo de leitura. A autora demonstra que os alunos mobilizam uma série de recursos cognitivos e culturais para interpretar textos escritos. Mesmo sem domínio pleno da língua portuguesa, eles são capazes de formular hipóteses, buscar pistas visuais e relacionar informações com experiências anteriores.

Essas observações reforçam a ideia de que o fracasso escolar frequentemente atribuído aos estudantes surdos não resulta de limitações cognitivas, mas de práticas pedagógicas inadequadas. Martins afirma que os surdos “não são indiferentes aos contextos de produção da leitura: assim como toda e qualquer criança, pensam, refletem quando se debruçam sobre a língua escrita” (Martins, 2011, p.16). 

Essa afirmação tem implicações importantes para a educação inclusiva. Ao reconhecer o potencial intelectual das crianças surdas, a autora contesta discursos pessimistas que historicamente limitaram as expectativas pedagógicas em relação a esse grupo. A escola, nesse sentido, deve assumir o papel de mediadora cultural, oferecendo condições para que os estudantes participem plenamente do universo da escrita.

A obra também discute o papel das políticas públicas na promoção da educação inclusiva. Martins destaca que, embora haja avanços legais no reconhecimento da Libras e na formulação de diretrizes para a educação especial, muitas instituições escolares ainda não estão preparadas para atender às necessidades linguísticas dos alunos surdos. Entre os desafios identificados estão a formação insuficiente dos professores, a falta de intérpretes e a escassez de materiais didáticos adequados.

Ao longo da análise, a autora enfatiza que a inclusão educacional não se limita à presença física do aluno na sala de aula. É necessário transformar o projeto pedagógico das escolas, incorporando práticas que valorizem a diversidade linguística e cultural. Nesse sentido, o ensino da leitura deve ser concebido como processo dialógico que envolve múltiplos mediadores semióticos e interações sociais significativas.

Do ponto de vista metodológico, o livro apresenta um trabalho cuidadoso de análise qualitativa. Martins descreve detalhadamente os procedimentos utilizados na pesquisa, incluindo entrevistas com professores, observação de práticas pedagógicas e sessões de intervenção com os estudantes. Essa abordagem permite compreender de forma mais profunda as dinâmicas que caracterizam o processo de formação de leitores surdos.

A narrativa da autora também se destaca pela franqueza com que relata os desafios enfrentados durante a investigação. Em vários momentos, ela reflete criticamente sobre suas próprias práticas como pesquisadora e educadora, questionando decisões metodológicas e avaliando os resultados obtidos. Essa postura reflexiva confere grande vitalidade ao texto e reforça seu caráter científico.

Em síntese, “Formação de leitores surdos e a educação inclusiva” é uma obra que dialoga com diferentes campos do conhecimento — educação, linguística, psicologia e estudos culturais — para repensar os processos de letramento na educação especial. Ao articular teoria e pesquisa empírica, Martins demonstra que a formação de leitores surdos depende de práticas pedagógicas que reconheçam a linguagem como fenômeno social e cultural.

Mais do que oferecer respostas definitivas, o livro convida o leitor a refletir sobre os desafios da inclusão escolar e sobre o papel da escola na construção de uma sociedade mais democrática. Ao afirmar que não devemos criar “mundos separados para aqueles que ouvem e aqueles que não ouvem”, a autora reafirma o princípio de que o acesso à cultura escrita é um direito fundamental de todos os indivíduos.

Assim, a obra consolida-se como referência importante para pesquisadores, professores e gestores educacionais interessados em compreender as complexidades do letramento de pessoas surdas e em desenvolver práticas pedagógicas verdadeiramente inclusivas.


Biografia da autora

Sandra Eli Sartoreto de Oliveira Martins é pesquisadora brasileira na área de educação especial e linguagem. Graduou-se em Pedagogia pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) em 1990, concluiu mestrado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) em 1998 e doutorado em Educação pela própria UNESP em 2005. Atua como professora do Departamento de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Filosofia e Ciências da UNESP, campus de Marília. Seus estudos concentram-se principalmente nos temas de educação inclusiva, formação de professores, linguagem e surdez. Ao longo de sua carreira acadêmica, tem contribuído para o desenvolvimento de pesquisas voltadas à compreensão dos processos de ensino e aprendizagem de estudantes surdos e para a formulação de práticas pedagógicas que valorizem a diversidade linguística e cultural nas escolas brasileiras.

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