Escritora e artista visual nipo-brasileira Tieko Irii lança “As Ruas Sem Nome” em vasta agenda literária em São Paulo com coletivo e rodas de conversa

A escritora e artista visual nipo-brasileira Tieko Irii apresenta ao público seu mais recente livro, As Ruas Sem Nome (Editora Patuá, 2025), em uma série de eventos literários e culturais programados para os próximos meses em São Paulo. A obra, de caráter autobiográfico e reflexivo, integra uma agenda que inclui lançamentos, rodas de conversa e participações em festivais dedicados à literatura contemporânea e à cultura nipo-brasileira.

No livro, Irii revisita memórias familiares e pessoais para construir uma narrativa que atravessa três gerações de imigrantes japoneses. A partir desse percurso íntimo, a autora discute temas como deslocamento, pertencimento, racismo estrutural, gênero e identidade, compondo um retrato sensível das experiências de descendentes de japoneses no Brasil nas décadas de 1980 e 1990. O ponto de partida da obra foi a descoberta de uma autobiografia escrita por seu pai, Hisashi Irii, documento mantido em segredo por muitos anos.

“Quando meu pai finalmente compartilhou sua história, compreendi por que ela havia permanecido guardada por tanto tempo. Era uma narrativa marcada por tragédias, transgressões e também por coragem”, relembra a autora. O relato paterno acompanha a trajetória de um jovem que, no Japão devastado do pós-guerra, fugiu de casa e percorreu diferentes regiões do país antes de emigrar para o Brasil. A partir desse material, Tieko iniciou uma investigação sobre suas próprias origens e sobre os silêncios que atravessam a memória familiar.

Ao ouvir relatos de tios e outros parentes, a autora percebeu que a história da família era repleta de lacunas. “Muitos sabiam pouco sobre meus avós e, assim como eu, evitavam tocar em certas feridas. Quando inserimos nossas histórias no contexto mais amplo da história do mundo, percebemos que fazemos parte de uma narrativa coletiva. Somos fruto dela, mas também sujeitos da nossa própria história”, afirma.

Agenda literária e debates sobre vozes nipo-brasileiras

Tieko Irii participará de uma série de encontros literários ao longo dos próximos meses. Nos dias 30 e 31 de agosto, estará presente no Bunka Matsuri, tradicional Festa da Cultura Japonesa realizada pela Associação Bunkyo (Rua São Joaquim, 381 – Liberdade), no estande do coletivo Escritoras Asiáticas Brasileiras. No domingo, 31 de agosto, às 12h, a autora integra o painel “HQs e Literatura: Vozes nipo-brasileiras contemporâneas”, ao lado de Beatriz Misaki, Massanori Takaki e Ricardo Tayra, com mediação de Ana Shitara.

No dia 6 de setembro, participa do Nippon Fusion Fest, no Pavilhão Japonês do Parque Ibirapuera, em uma roda de conversa intitulada “Literatura amarela e ancestralidade”. O debate reunirá as escritoras Marina Yukawa, Ana Shitara, Beatriz Misaki, Adriana K. Lerner e Flavia Sakai, abordando temas como identidade, memória e representatividade na literatura produzida por autoras e autores asiático-brasileiros.

A agenda continua com a participação do coletivo Escritoras Asiáticas Brasileiras no Orgulho Nerd SP 2025, evento gratuito que ocorre nos dias 13 e 14 de setembro, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, também no Parque Ibirapuera. No dia 14, às 16h30, Tieko integra ainda uma mesa de conversa sobre ancestralidade, identidade e escrita na Casa Abe (Rua Augusta, 339 – Consolação), dentro da programação da Feirinha Abe Literária. Já no dia 21 de setembro, a autora participa como expositora do coletivo no Aurora Fest, realizado no Largo da Batata.

Um retrato sensível da experiência nipo-brasileira

Em As Ruas Sem Nome, Tieko Irii articula sua história pessoal com reflexões sobre a herança cultural japonesa e brasileira, abordando conceitos como o mito do “perigo amarelo”, a ideia da “minoria modelo” e o soft power japonês, analisando como esses imaginários moldaram a experiência de descendentes asiáticos no Brasil.

Segundo a autora, a própria formação social brasileira contribuiu para criar um lugar ambíguo para os corpos asiáticos. “O projeto de branqueamento no Brasil, aliado ao mito da democracia racial — estruturado na tríade entre brancos, negros e indígenas — produziu um cenário paradoxal. Os descendentes asiáticos muitas vezes não são plenamente aceitos, mas também não são vistos como estrangeiros”, observa.

A obra surge em um contexto de crescente debate sobre representatividade asiática no país, impulsionado por pesquisadores, artistas e coletivos que discutem identidade, racismo e pertencimento. Ao revisitar sua infância e juventude nos anos 1980, Tieko também aborda experiências de bullying, exotificação e invisibilidade social enfrentadas por pessoas descendentes de japoneses naquele período.

Apesar da densidade dos temas abordados, a autora ressalta que o livro também fala de desejo, sonho e liberdade. “É uma história sobre tentar encontrar um lugar ao sol”, afirma.

Escrita como confronto e reconstrução

Tieko define o processo de escrita do livro como profundamente transformador, ainda que distante de uma experiência de cura convencional. “Não foi exatamente um processo de cura, mas de confronto. Precisei revisitar memórias que preferia esquecer: o racismo velado, a vergonha, a culpa e a sensação constante de não pertencimento”, relata.

A estrutura da obra é dividida em quatro partes e alterna trechos da autobiografia do pai com relatos pessoais da autora. O livro acompanha sua infância em São Paulo e sua temporada no Japão, entre 1989 e 1991, quando buscou compreender sua própria identidade em meio a duas culturas.

“Foi um resgate étnico-identitário que serviu como ponto de partida, mas não como destino final. Percebi que somos formados por múltiplas identidades. Não somos apenas brasileiros ou japoneses. Habitamos um ‘não lugar’ que, paradoxalmente, também é um lugar”, reflete.

Além do texto, a autora incorporou ao projeto um trabalho visual baseado em colagens de arquivos familiares, reunindo fotografias, documentos e fragmentos de memória. O recurso amplia a dimensão sensorial da obra e reforça a proposta de reconstrução de histórias apagadas.

“Foi minha forma de costurar afetos, ausências e silêncios. Uma maneira de tocar, por meio da imagem e da palavra, a experiência de ser nipo-brasileira”, explica.

Para Tieko, publicar As Ruas Sem Nome também representa um gesto político. Durante a escrita, ela chegou a considerar sua própria história banal ou pouco relevante. Com o tempo, percebeu que essa sensação estava ligada a estruturas históricas de silenciamento.

“Durante muito tempo, contar a própria história parecia algo menor — especialmente para uma mulher nikkei fora dos padrões esperados. Quando compreendi que essa dificuldade estava relacionada ao patriarcado, ao machismo e ao racismo estrutural que silenciaram nossas vozes por séculos, tudo mudou. Entendi que nossas histórias também são universais e que compartilhá-las pode ser profundamente transformador”, afirma.

Sobre a autora

Tieko Irii é artista visual, diretora de arte e escritora nascida em São Paulo. Formada em cinema pela FAAP, em 1988, construiu uma carreira de mais de duas décadas no audiovisual e na publicidade. Ao longo de sua trajetória, trabalhou em produções como Os Matadores (1987), O Menino Maluquinho 2 (1998), Castelo Rá-Tim-Bum (1999) e na série televisiva Retrato Falado, exibida pela Rede Globo.

Antes de As Ruas Sem Nome, publicou três livros infantis. A experiência de viver no Japão entre 1989 e 1991 influenciou decisivamente sua pesquisa artística e literária, voltada para temas como memória, diáspora, gênero e raça. Seu novo livro marca sua primeira incursão em uma narrativa autobiográfica de fôlego, consolidando sua produção literária como um espaço de investigação identitária e de reflexão social.

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