MARQUETTI, Flávia Regina. Da sedução e outros perigos: o mito da Deusa Mãe. São Paulo: Editora UNESP, 2013. Ilustrações. ISBN: 978-85-393-0473-8.

A obra “Da sedução e outros perigos: o mito da Deusa Mãe”, de Flávia Regina Marquetti, apresenta-se como um estudo interdisciplinar de grande densidade teórica, situado na intersecção entre a semiótica estrutural, a antropologia simbólica e a história das religiões. Publicado pela Editora UNESP em 2013, o livro propõe uma investigação extensa sobre a persistência e a transformação do imaginário da Grande Deusa ou Deusa Mãe ao longo da história cultural do Ocidente, partindo das representações paleolíticas femininas até chegar às manifestações simbólicas presentes na cultura cristã, nos contos maravilhosos europeus e na literatura romântica popular.

O trabalho de Marquetti se destaca não apenas pela amplitude cronológica do corpus analisado, mas sobretudo pela tentativa metodológica de compreender a continuidade simbólica do feminino sagrado por meio de instrumentos analíticos da semiótica, especialmente aqueles derivados da tradição greimasiana. Tal perspectiva permite à autora tratar o mito não como mera narrativa arcaica, mas como uma estrutura simbólica persistente, cuja matriz figurativa continua a produzir significados culturais ao longo dos séculos.

Logo nas páginas iniciais, a obra apresenta seu projeto central: investigar as representações da Deusa Mãe a partir de uma estrutura figurativa profunda que atravessa diferentes sistemas simbólicos. A autora afirma que “estabelecer a protofiguratividade para as representações da Deusa Mãe é tarefa sedutora, mas que guarda em seu caminho vários perigos” (p.15)

Da sedução e outros perigos, reconhecendo a complexidade teórica de um objeto que foi amplamente estudado por antropólogos, historiadores das religiões e mitólogos. A advertência inicial revela o cuidado metodológico da pesquisa: diante de um tema cercado por interpretações muitas vezes especulativas, Marquetti busca ancorar sua análise em fundamentos rigorosos da semiótica e da antropologia estrutural.

A estrutura do livro organiza-se em duas grandes partes analíticas. Na primeira, a autora dedica-se à investigação das origens simbólicas da Deusa Mãe na arte pré-histórica e na cultura grega arcaica. A análise começa com as chamadas “vênus paleolíticas”, esculturas femininas do período paleolítico superior que apresentam características corporais exageradas relacionadas à fertilidade. Segundo Marquetti, essas representações constituem uma das primeiras manifestações do imaginário simbólico do feminino, sendo interpretadas como vestígios de uma matriz cultural associada à fecundidade, à terra e à regeneração da vida.

Ao examinar essas imagens arqueológicas, a autora busca identificar aquilo que denomina matriz figurativa, ou seja, um conjunto de traços simbólicos que atravessa diferentes formas culturais. A análise passa então para o período neolítico e para as civilizações egeias, especialmente as culturas cretense e micênica, nas quais surgem novas representações da divindade feminina. Nesse percurso histórico, Marquetti argumenta que as representações da Deusa Mãe não desaparecem, mas sofrem transformações simbólicas, adaptando-se às estruturas sociais e religiosas de cada período.

O ponto culminante dessa primeira parte é a análise dos hinos homéricos dedicados a Afrodite, Ártemis e Deméter, figuras que a autora interpreta como versões helenizadas da antiga Grande Mãe. Segundo o texto, os hinos homéricos constituem documentos culturais fundamentais da religiosidade grega arcaica, pois registram uma tradição religiosa que remonta aos séculos VII e VI a.C.

Marquetti examina detalhadamente o Hino a Afrodite, explorando a construção simbólica da sedução como elemento central da divindade. A análise semiótica demonstra que a sedução não aparece apenas como um atributo superficial da deusa, mas como um mecanismo simbólico estruturante do mito. O episódio da união entre Afrodite e o mortal Anquises revela, segundo a autora, uma narrativa em que o desejo e a atração constituem forças fundamentais da ordem simbólica.

Ao comentar a reação de Anquises diante da deusa, o texto afirma que ele observa “sua aparência, seu talhe e suas vestes brilhantes”, sendo capturado por uma experiência estética que ultrapassa a simples percepção visual (p.35)

Essa descrição revela, para Marquetti, uma figuratividade profunda associada à sedução, na qual a beleza e o brilho funcionam como signos de poder mítico.

A originalidade da interpretação reside na leitura semiótica desses elementos simbólicos. A autora argumenta que a sedução afrodisíaca não se reduz a um fenômeno erótico, mas expressa um sistema simbólico mais amplo, ligado à fertilidade, à criação e à regeneração da vida. Dessa forma, Afrodite aparece como uma manifestação tardia da antiga Deusa Mãe, cuja potência geradora foi reinterpretada pela cultura grega sob a forma do amor e da sexualidade.

Na segunda parte do livro, Marquetti desloca a análise para o mundo medieval e moderno, investigando a permanência simbólica da Deusa Mãe em diferentes manifestações culturais. O primeiro campo examinado é o imaginário cristão, especialmente as representações da Virgem Maria. A autora sustenta que a iconografia mariana preserva diversos elementos simbólicos associados à Grande Mãe, embora reinterpretados pela moral cristã.

Nesse contexto, a maternidade divina de Maria substitui a fertilidade pagã da antiga deusa, enquanto a pureza e a virgindade redefinem a dimensão erótica anteriormente associada à figura feminina sagrada. O resultado desse processo é uma transformação simbólica que não elimina a matriz original, mas a reorganiza dentro de um novo sistema religioso.

Outro campo de investigação é o dos contos maravilhosos europeus, especialmente aqueles registrados pelos irmãos Grimm e por Charles Perrault. Marquetti demonstra que muitas narrativas aparentemente infantis conservam estruturas míticas associadas à Deusa Mãe. Em histórias como Branca de Neve, Rapunzel ou Chapeuzinho Vermelho, a oposição entre a jovem heroína e a figura da bruxa ou da madrasta representa, segundo a autora, uma divisão simbólica do antigo arquétipo feminino.

Nesse processo, a Deusa Mãe fragmenta-se em duas figuras opostas: a jovem bela e a velha ameaçadora. Ambas, porém, pertencem ao mesmo sistema simbólico, representando diferentes fases da vida feminina e diferentes funções sociais.

A análise se estende ainda aos chamados romances para moças do início do século XX, nos quais Marquetti identifica a fusão entre dois modelos simbólicos: o da Deusa Mãe e o da Virgem Maria. Segundo a autora, esses romances transformam a força geradora do mito feminino em um ideal romântico marcado pela submissão, pela pureza e pelo amor abnegado. Assim, a figura feminina torna-se objeto de desejo dentro de uma sociedade patriarcal, perdendo parte de sua autonomia simbólica.

Do ponto de vista teórico, a obra destaca-se pela utilização da semiótica greimasiana como ferramenta interpretativa. Marquetti utiliza conceitos como figuratividade, sema, motivo e percurso gerativo de sentido para analisar as transformações do mito. Essa abordagem permite compreender o mito como uma estrutura simbólica dinâmica, capaz de se adaptar a diferentes contextos históricos.

Ao discutir o conceito de mito, a autora dialoga com diversos pensadores, incluindo Claude Lévi-Strauss, Ernst Cassirer e Marcel Detienne. Para Lévi-Strauss, o mito constitui uma forma de metalinguagem cujas unidades narrativas só adquirem significado dentro de um sistema de relações simbólicas. Já Cassirer considera o mito uma forma fundamental de expressão humana, comparável à linguagem e à arte. Essas perspectivas convergem na interpretação de Marquetti, que define o mito como um sistema simbólico capaz de reorganizar a realidade social e cultural.

Uma das contribuições mais relevantes do livro é demonstrar que o mito da Deusa Mãe não pertence apenas ao passado. Ao contrário, ele continua presente em diversas manifestações culturais contemporâneas. A autora argumenta que a persistência desse mito revela algo profundo sobre a condição humana: a necessidade de representar simbolicamente as forças da vida, da fertilidade e da transformação.

Nesse sentido, o estudo ultrapassa os limites da história das religiões e da arqueologia simbólica, tornando-se também uma reflexão sobre o imaginário cultural do Ocidente. Ao examinar a trajetória da Deusa Mãe desde o Paleolítico até a literatura moderna, Marquetti revela a extraordinária capacidade de sobrevivência dos símbolos culturais.

Em termos metodológicos, a obra impressiona pela amplitude do corpus analisado, que inclui esculturas pré-históricas, mitos gregos, iconografia cristã, contos populares e romances modernos. Essa diversidade de fontes permite à autora construir uma narrativa interpretativa que atravessa milênios de história cultural.

Contudo, o livro também apresenta desafios para o leitor. A densidade teórica da análise semiótica e a abundância de referências acadêmicas podem tornar a leitura exigente, especialmente para aqueles que não possuem familiaridade com a tradição estruturalista. Ainda assim, essa complexidade é compensada pela riqueza interpretativa do estudo e pela originalidade das conexões estabelecidas entre diferentes períodos históricos.

No conjunto, “Da sedução e outros perigos: o mito da Deusa Mãe” constitui uma contribuição significativa para os estudos de mitologia, semiótica e história cultural. A obra demonstra que os mitos não são apenas narrativas antigas, mas sistemas simbólicos que continuam a moldar a imaginação coletiva.


Biografia da autora

Flávia Regina Marquetti é pesquisadora brasileira vinculada à área de estudos clássicos, semiótica e história da arte. Sua produção acadêmica concentra-se na análise dos sistemas simbólicos presentes na mitologia grega, na arte antiga e nas tradições culturais do Ocidente. Com formação interdisciplinar que reúne literatura, história e semiótica, Marquetti desenvolveu pesquisas sobre o imaginário feminino na antiguidade e suas transformações ao longo da história cultural europeia.

Professora e pesquisadora ligada a instituições acadêmicas brasileiras, a autora tem se dedicado especialmente ao estudo da tradição clássica e da recepção dos mitos antigos na cultura moderna. Em “Da sedução e outros perigos: o mito da Deusa Mãe”, sua obra mais conhecida, Marquetti propõe uma leitura inovadora do imaginário feminino, integrando ferramentas teóricas da semiótica estrutural com abordagens da antropologia simbólica e da história da arte. O livro consolidou sua posição como uma das pesquisadoras brasileiras interessadas na permanência dos mitos antigos na cultura contemporânea.

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