A obra ArteCiênciaArte, de Rosangella Leote, constitui uma investigação densa e multifacetada sobre o encontro entre arte, tecnologia e ciência, abordando especialmente as transformações que as mídias digitais, as neurociências e os sistemas complexos têm provocado na produção e na fruição artística contemporânea. Publicado pela Editora Unesp, o livro apresenta uma série de textos que resultam de pesquisas desenvolvidas pela autora ao longo de anos de trabalho acadêmico e artístico, em especial no âmbito do grupo interdisciplinar SCIArts e do GIIP – Grupo Internacional e Interinstitucional de Pesquisa em Convergências entre Arte, Ciência e Tecnologia. A obra parte de uma constatação central: a arte contemporânea tornou-se inseparável da investigação científica e tecnológica, e compreender essa nova condição exige uma abordagem transdisciplinar capaz de integrar estética, percepção, cognição e interfaces digitais.
A sinopse da obra revela o seu eixo fundamental: trata-se de uma reflexão sobre a convergência entre arte e ciência, especialmente no contexto das tecnologias emergentes e da experiência perceptiva humana. O livro organiza-se em torno de dois grandes focos de investigação. O primeiro é o uso das neurociências e dos sistemas complexos para compreender os processos perceptivos envolvidos em obras interativas e multimodais. O segundo refere-se ao papel do corpo no desenvolvimento e na fruição das obras produzidas com tecnologias emergentes. Essa dupla abordagem permite examinar a arte contemporânea não apenas como produção estética, mas também como experiência sensorial, cognitiva e tecnológica.
A introdução conceitual do livro se estabelece a partir da percepção de que o campo artístico contemporâneo se transformou radicalmente nas últimas décadas. Segundo o prefácio escrito por Arlindo Machado, cada vez mais artistas utilizam tecnologias avançadas para produzir obras que envolvem vídeo, computação, sistemas interativos e ambientes multimodais. Nesse cenário, a intersecção entre arte, ciência e tecnologia tornou-se um dos eixos mais importantes da criação contemporânea, produzindo aquilo que se convencionou chamar de “poéticas tecnológicas”.
Essa transformação histórica desloca a arte para um território híbrido, no qual a criação estética passa a dialogar com áreas como física, biologia, engenharia e informática. O resultado desse processo é o surgimento de novas formas de experiência estética, nas quais o espectador deixa de ser um observador passivo para se tornar um interator inserido em ambientes sensoriais complexos. Como destaca o prefácio da obra, o computador e as tecnologias digitais possibilitaram a criação de experiências artísticas verdadeiramente multimidiáticas, nas quais a percepção envolve não apenas visão e audição, mas também tato, movimento corporal e interação física com a obra.
A autora insere sua investigação precisamente nesse contexto de expansão da experiência estética. Em sua apresentação, Leote explica que o livro reúne textos desenvolvidos ao longo de anos de pesquisa sobre arte interativa, multimodalidade perceptiva e interfaces tecnológicas. A investigação se apoia em uma abordagem transdisciplinar que combina teorias da arte, semiótica, neurociência e teoria da complexidade.
O ponto de partida da reflexão é a percepção humana. Para a autora, compreender como percebemos uma obra de arte torna-se essencial quando essa obra envolve ambientes interativos e tecnologias digitais. Diferentemente da arte tradicional, em que o espectador se limita à contemplação visual, as obras multimodais mobilizam diversos sentidos simultaneamente, criando experiências sensoriais complexas. Nesse contexto, a percepção passa a ser entendida como processo multissensorial que envolve visão, audição, tato, movimento e interação corporal.
Um dos capítulos centrais da obra examina precisamente os chamados processos perceptivos. Leote observa que o estudo da percepção foi amplamente explorado pelas teorias da arte ao longo da história, mas muitas lacunas permanecem quando se trata de compreender os processos mentais envolvidos na experiência estética. Por essa razão, a autora recorre à neurociência como campo capaz de fornecer novas ferramentas conceituais para analisar o fenômeno perceptivo. Ela afirma que optou por buscar nas pesquisas neurocientíficas respostas possíveis para compreender “os processos mentais operados pelo percebedor” diante de estímulos multimodais.
Essa abordagem não pretende substituir as teorias estéticas tradicionais, mas complementá-las. A autora dialoga com diversas correntes teóricas, incluindo a semiótica, a fenomenologia e a psicologia da Gestalt, buscando construir um modelo de análise capaz de integrar diferentes perspectivas sobre a experiência estética. O objetivo é compreender de que maneira os estímulos produzidos por obras interativas ativam diferentes sistemas perceptivos do corpo humano.
Um dos conceitos mais relevantes apresentados no livro é o de multissensorialidade. Segundo Leote, a experiência estética contemporânea não se limita mais a um único canal sensorial, mas envolve múltiplos modos de estímulo que ativam diferentes sensores naturais do corpo humano. A autora define multissensorialidade como o acionamento simultâneo de diversos sistemas perceptivos do interator em um ambiente artístico. Essa ideia está diretamente ligada ao conceito de multimodalidade, entendido como a presença de diferentes formas de estímulo sensorial em uma mesma experiência estética.
Essa perspectiva conduz a uma redefinição do próprio conceito de obra de arte. Em vez de objeto estático destinado à contemplação, a obra passa a ser compreendida como processo interativo que envolve o corpo do espectador e o ambiente tecnológico em que a experiência ocorre. Nesse sentido, o corpo assume papel central na estética contemporânea, funcionando como interface entre sujeito, tecnologia e ambiente.
O livro também explora o conceito de “corpo expandido”, que se refere à ampliação das capacidades perceptivas humanas por meio de tecnologias digitais. Interfaces interativas, biossensores e dispositivos hápticos permitem que o corpo humano interaja com sistemas computacionais de maneira cada vez mais complexa. A experiência estética torna-se, assim, um processo híbrido que envolve simultaneamente corpo biológico e tecnologia.
Outro aspecto importante da obra é a atenção dedicada às possibilidades inclusivas das tecnologias artísticas. Leote investiga como interfaces tecnológicas podem ser utilizadas para ampliar o acesso à produção artística por pessoas com deficiência. Um dos exemplos discutidos no livro envolve o desenvolvimento de dispositivos de comunicação e criação artística destinados a indivíduos com limitações motoras ou vocais. A autora argumenta que tais tecnologias podem contribuir não apenas para a inclusão social, mas também para o desenvolvimento de novas formas de expressão artística.
Essa dimensão social da arte tecnológica revela uma preocupação ética que atravessa toda a obra. Para Leote, a convergência entre arte e ciência não deve ser entendida apenas como experimentação estética, mas também como oportunidade para desenvolver tecnologias capazes de melhorar a qualidade de vida das pessoas e ampliar o acesso à cultura.
A análise da percepção sonora constitui outro ponto relevante da investigação. A autora explora a ideia de que o som não é percebido apenas pelo ouvido, mas por todo o corpo, que responde às vibrações sonoras de diversas maneiras. Essa perspectiva questiona concepções tradicionais da audição e sugere que mesmo pessoas com deficiência auditiva podem experimentar o som através de estímulos táteis e vibrações corporais.
Nesse contexto, a experiência sonora torna-se parte de um espectro mais amplo de estímulos sensoriais que compõem o ambiente multimodal das obras tecnológicas. A autora destaca que a percepção humana resulta da interação complexa entre diferentes estímulos sensoriais e processos cognitivos, formando aquilo que António Damásio descreve como mapas mentais da experiência perceptiva.
Ao longo do livro, Leote demonstra que a arte contemporânea tornou-se um laboratório privilegiado para investigar essas interações entre corpo, tecnologia e percepção. Obras interativas, instalações multimídia e performances tecnológicas funcionam como experimentos estéticos que permitem explorar os limites da percepção humana e as possibilidades das interfaces digitais.
O mérito da obra reside justamente na capacidade de articular reflexão teórica, experiência artística e investigação científica. Leote não escreve apenas como pesquisadora, mas também como artista envolvida diretamente na criação de obras tecnológicas. Essa dupla condição confere ao livro uma perspectiva singular, na qual teoria e prática se entrelaçam continuamente.
O prefácio destaca esse aspecto ao afirmar que poucos artistas conseguem transitar com tanta competência entre criação artística, reflexão filosófica e atividade acadêmica. Segundo Arlindo Machado, Leote se distingue não apenas como artista original, mas também como analista e teórica refinada das transformações em curso na arte contemporânea.
Em síntese, ArteCiênciaArte apresenta uma investigação profunda sobre as transformações da experiência estética no contexto das tecnologias digitais. Ao explorar as relações entre arte, ciência e percepção, o livro contribui para compreender como as práticas artísticas contemporâneas estão redefinindo os limites entre criação estética, pesquisa científica e experimentação tecnológica.
Ficha catalográfica: LEOTE, Rosangella. ArteCiênciaArte. 1. ed. São Paulo: Editora da Unesp Digital, 2015. Recurso eletrônico. ISBN 978-85-68334-65-2.
Rosangella Leote é artista, pesquisadora e professora do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), reconhecida por suas investigações sobre arte tecnológica, interfaces interativas e convergências entre arte, ciência e tecnologia. Fundadora do grupo interdisciplinar SCIArts e líder do GIIP – Grupo Internacional e Interinstitucional de Pesquisa em Convergências entre Arte, Ciência e Tecnologia –, sua produção acadêmica e artística se concentra na exploração das relações entre percepção, corpo, mídias digitais e processos cognitivos. Ao longo de sua carreira, Leote tem desenvolvido obras interativas, instalações multimídia e pesquisas teóricas que buscam integrar conhecimentos provenientes das artes, das neurociências e das tecnologias digitais, contribuindo para consolidar no Brasil o campo de estudos dedicado às poéticas tecnológicas e à arte em diálogo com a ciência.

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