CAMARGO, Daisy de. Alegrias engarrafadas: os alcoóis e a embriaguez na cidade de São Paulo no final do século XIX e começo do XX. São Paulo: Editora Unesp, 2012. Ilustrações. Inclui bibliografia. ISBN 978-85-393-0375-5. Classificação: CDD 362.29098161; CDU 364.692:663.51:615.015.6. 

A obra de Daisy de Camargo apresenta uma investigação historiográfica refinada sobre um aspecto pouco explorado da história urbana brasileira: a cultura da embriaguez e do consumo de bebidas alcoólicas na cidade de São Paulo entre a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do século XX. O livro propõe uma análise que transcende a mera história das bebidas ou dos costumes, articulando elementos de história social, história urbana, história cultural e história das sensibilidades. Nesse sentido, a autora transforma o álcool em uma chave interpretativa capaz de revelar práticas sociais, tensões morais, políticas urbanas e formas de sociabilidade que marcaram o cotidiano da capital paulista no momento de sua transição para a modernidade.

A sinopse do livro pode ser compreendida como a reconstrução histórica de uma experiência urbana aparentemente banal, mas profundamente reveladora: o ato de beber. Ao examinar tabernas, armazéns, quiosques, cabarés e ruas de boemia popular, Daisy de Camargo investiga quem bebia, onde se bebia, como se bebia e quais significados culturais, sociais e políticos estavam implicados nesse gesto cotidiano. A autora mobiliza uma ampla variedade de fontes documentais — processos judiciais, inventários, jornais, fotografias, registros policiais, relatórios sanitários e documentos administrativos — para demonstrar que a embriaguez não era apenas um comportamento individual, mas um fenômeno social que expressava conflitos entre moralidade, modernização urbana e práticas populares de convivência.

Desde as primeiras páginas, o livro deixa claro que sua abordagem se inspira na micro-história e na história cultural dos vestígios. A autora assume explicitamente esse método ao afirmar que seu objetivo é explorar “uma cultura gestual, material e sensível, historicamente construída, ligada às bebidas espirituosas, seus objetos, seus lugares de uso, suas maneiras e ritos de saborear” (p.16).

Tal perspectiva indica que o estudo não se limita ao álcool enquanto substância, mas busca compreender os significados sociais que emergem de seu consumo.

Na introdução do livro, Camargo apresenta uma reflexão metodológica particularmente interessante, comparando o trabalho do historiador ao de um trapeiro — figura evocada por Walter Benjamin — que recolhe fragmentos descartados da vida cotidiana para reconstruir sentidos históricos. Nesse espírito, a autora declara que sua pesquisa pretende recompor “em cacos os espaços dos botequins, seus mobiliários, as bebidas que eram vendidas, as gentes que os frequentavam” (p.17).

 Essa metáfora sintetiza bem a proposta do livro: uma arqueologia social da embriaguez na São Paulo oitocentista.

A análise histórica começa situando o fenômeno do consumo de álcool dentro de um contexto mais amplo da história das drogas e das substâncias psicoativas. A autora lembra que praticamente todas as sociedades humanas desenvolveram práticas de uso dessas substâncias ao longo da história, seja por motivos religiosos, medicinais ou recreativos. No entanto, ela observa que foi sobretudo no século XIX que o consumo de drogas e álcool passou a ser visto como problema social e objeto de regulação estatal. Como afirma a autora, “há séculos o homem enleva seu espírito com substâncias que vêm de fora, equilibrando liberdades e restrições”, mas foi nesse período que “as drogas e a alteração das consciências por elas causada se converteram num problema” (p.19). 

Essa mudança de percepção está intimamente ligada ao processo de modernização das cidades e à ascensão das políticas higienistas que marcaram o final do século XIX. A urbanização acelerada de São Paulo trouxe consigo novas preocupações com saúde pública, moralidade e ordem social. Nesse contexto, o consumo de álcool passou a ser associado à pobreza, à criminalidade e à desordem urbana, transformando-se em alvo de políticas de controle e regulamentação.

Um dos méritos da obra é demonstrar que essas tentativas de controle não eliminaram a cultura da embriaguez, mas produziram um campo de tensão entre práticas populares e discursos normativos. De um lado estavam médicos, policiais e autoridades públicas que buscavam disciplinar o comportamento urbano; de outro estavam trabalhadores, imigrantes e frequentadores de tabernas que continuavam a utilizar o álcool como elemento de sociabilidade e prazer.

A autora reconstrói com grande riqueza de detalhes os espaços urbanos associados ao consumo de bebidas alcoólicas. Tabernas, armazéns de secos e molhados, quiosques e cabarés aparecem como ambientes fundamentais da vida social da cidade. Esses locais funcionavam não apenas como pontos de venda de bebidas, mas também como centros de interação social, circulação de informações e formação de redes de sociabilidade.

Um exemplo emblemático dessa abordagem aparece na análise de um inventário de um comerciante de bebidas do século XIX. A lista de produtos encontrada nesse documento revela a diversidade de bebidas disponíveis na cidade, incluindo vinhos portugueses, absinto, conhaques franceses, cervejas europeias e aguardente brasileira. A autora descreve esse universo com riqueza sensorial ao mencionar que o inventário permitia imaginar um ambiente onde “garrafas e pipas se misturam: capilé, vinho do porto, vinho branco ordinário, tinto e de laranja, Southerne e Bordeaux, verde, rum da Jamaica, absinto, genebra holandesa, bíter e conhaque” (p.38-39). 

Esse tipo de descrição evidencia um dos aspectos mais interessantes do livro: a reconstrução da materialidade da vida cotidiana. Copos, garrafas, balcões, mesas e utensílios aparecem como elementos fundamentais para compreender as formas de consumo e os rituais sociais associados à bebida. Como observa a autora, os diferentes tipos de recipientes utilizados — cálices, copos pequenos ou taças — revelavam também diferentes modos de beber e diferentes ritmos de embriaguez.

Outro ponto central da análise é a relação entre o consumo de álcool e as transformações urbanas da cidade. No final do século XIX, São Paulo passou por um intenso processo de modernização inspirado em modelos europeus, especialmente nas reformas urbanas de Paris conduzidas por Haussmann. Esse projeto de modernização implicava também a tentativa de disciplinar os comportamentos considerados incompatíveis com a nova imagem da cidade moderna.

Nesse contexto, a presença de bêbados nas ruas e tabernas era vista como símbolo de atraso e desordem social. A autora mostra que a repressão à embriaguez tornou-se parte das políticas de higiene e moralização urbana. Como resultado, muitos indivíduos passaram a ser presos por embriaguez, enquanto tabernas e botequins passaram a ser alvo de fiscalização constante.

Ainda assim, o livro demonstra que a cultura da bebida resistiu a essas tentativas de controle. Os espaços de sociabilidade ligados ao álcool continuaram a existir e a desempenhar papel importante na vida urbana. A autora destaca que esses locais reuniam indivíduos de diferentes origens sociais e culturais, incluindo trabalhadores, imigrantes e comerciantes.

Outro aspecto relevante do livro é sua contribuição para a história das sensibilidades e dos sentidos. Camargo argumenta que a experiência da embriaguez envolve dimensões sensoriais complexas, como gosto, olfato e visão. Nesse sentido, o consumo de bebidas alcoólicas pode ser entendido como uma experiência cultural que envolve rituais, gestos e percepções sensoriais específicas.

A autora observa que estudar o prazer é um desafio particular para o historiador, pois esse tipo de experiência deixa poucos vestígios documentais. Como ela própria reconhece, “historicizar o prazer é bem mais difícil do que perseguir a dor” (p.31).

Mesmo assim, o livro consegue reconstruir essa dimensão sensorial da história por meio de descrições detalhadas e análise cuidadosa das fontes.

No conjunto, Alegrias engarrafadas constitui uma contribuição significativa para a historiografia brasileira. A obra demonstra que fenômenos aparentemente triviais — como o consumo de álcool — podem revelar aspectos fundamentais da vida social e cultural de uma cidade. Ao explorar a embriaguez como objeto histórico, Daisy de Camargo amplia o campo de investigação da história urbana e oferece novas perspectivas sobre o cotidiano das camadas populares.

O livro também dialoga com debates historiográficos contemporâneos sobre cultura material, micro-história e história das sensibilidades. Sua abordagem interdisciplinar permite articular questões de história social, antropologia cultural e estudos urbanos, resultando em uma narrativa rica e envolvente.

A autora do livro, Daisy de Camargo, é historiadora brasileira vinculada à Universidade Estadual Paulista (UNESP), instituição pela qual desenvolveu sua pesquisa de pós-graduação que deu origem à obra. Seu trabalho concentra-se principalmente na história cultural, história urbana e história das sensibilidades, com especial interesse em temas relacionados ao cotidiano das cidades, cultura material e práticas sociais marginalizadas pela historiografia tradicional. Sua pesquisa destaca-se pela utilização criativa de fontes documentais e pela atenção às dimensões sensoriais e simbólicas da vida social. Ao publicar Alegrias engarrafadas, Camargo consolidou-se como uma das pesquisadoras que contribuíram para ampliar os horizontes da história cultural no Brasil, demonstrando que os gestos aparentemente banais da vida cotidiana podem revelar profundas transformações sociais e culturais.

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