O livro examina o papel da chamada função simbólica nos primeiros trabalhos do filósofo francês Maurice Merleau-Ponty, especialmente em A estrutura do comportamento e Fenomenologia da percepção. A obra analisa criticamente como essa noção emerge das discussões entre filosofia, psicologia e neuropsicologia no início do século XX e como Merleau-Ponty progressivamente desloca o centro da reflexão para o corpo próprio como fundamento da experiência perceptiva. Ao investigar as relações entre simbolismo, percepção e corporeidade, Danilo Saretta Verissimo oferece uma interpretação detalhada da gênese do pensamento merleau-pontiano e de sua ruptura com tradições dualistas herdadas do cartesianismo.

No panorama contemporâneo da filosofia continental, poucos autores exerceram influência tão profunda sobre os estudos da percepção quanto Maurice Merleau-Ponty. Seu projeto fenomenológico deslocou o eixo do pensamento filosófico da consciência pura para a experiência encarnada, inaugurando uma nova forma de compreender o sujeito humano como corpo no mundo. É precisamente nesse território teórico que se insere o livro A primazia do corpo próprio: posição e crítica da função simbólica nos primeiros trabalhos de Merleau-Ponty, de Danilo Saretta Verissimo, obra que se propõe a examinar de maneira minuciosa um conceito frequentemente marginalizado pelos comentadores da filosofia merleau-pontiana: a função simbólica.

Resultado de uma pesquisa acadêmica de grande fôlego, o livro nasce de uma investigação de doutorado realizada em regime de cotutela entre a Universidade de São Paulo e a Université Jean Moulin.

Essa origem acadêmica não se traduz em aridez conceitual; ao contrário, o texto apresenta uma argumentação rigorosa que articula filosofia, psicologia e história das ideias. O autor examina os primeiros escritos de Merleau-Ponty com o propósito de demonstrar que a função simbólica ocupa um papel decisivo na formação de sua teoria da percepção, ainda que posteriormente venha a ser criticada e parcialmente abandonada.

Desde o início, Verissimo estabelece um objetivo claro: compreender como o filósofo francês mobilizou o conceito de função simbólica para interpretar os fenômenos da percepção, do comportamento e da linguagem. Trata-se de uma noção que emerge no cruzamento entre diferentes disciplinas científicas — sobretudo a neuropsicologia e a psicologia experimental — e que permite compreender o comportamento humano como algo mais complexo do que simples reações fisiológicas. Nesse sentido, o livro não apenas reconstitui um debate filosófico, mas também revela o contexto científico que influenciou profundamente a fenomenologia de Merleau-Ponty.

A obra inicia-se com uma contextualização filosófica ampla, situando o problema da percepção no interior da tradição cartesiana. Verissimo mostra que a filosofia moderna herdou de René Descartes um dualismo radical entre corpo e espírito, no qual a consciência é concebida como substância pensante separada do mundo material. Essa herança filosófica, segundo Merleau-Ponty, gera uma dificuldade estrutural: explicar como uma consciência imaterial pode relacionar-se com um corpo físico.

O autor demonstra que os primeiros trabalhos de Merleau-Ponty surgem justamente como resposta a esse problema. A investigação fenomenológica pretende ultrapassar a oposição clássica entre subjetividade e objetividade, mostrando que a percepção é uma experiência situada no corpo e no mundo. Nesse contexto, a noção de comportamento torna-se fundamental. Como afirma o próprio filósofo, o objetivo é compreender “as relações entre a consciência e a natureza — orgânica, psicológica ou mesmo social”

Ao analisar A estrutura do comportamento, Verissimo destaca a importância dos estudos neuropsicológicos de Kurt Goldstein e Adhémar Gelb. Esses pesquisadores investigaram pacientes com lesões cerebrais que apresentavam dificuldades em realizar tarefas abstratas, embora mantivessem intactas determinadas ações concretas. Tais estudos revelavam que certos comportamentos humanos dependem de uma capacidade específica de abstração e representação simbólica.

Merleau-Ponty interpreta esses fenômenos clínicos como evidência de uma dimensão fundamental da experiência humana: a função simbólica. Essa função permite que o sujeito ultrapasse o imediatismo do estímulo sensorial e organize sua experiência em termos de significados. Como explica o próprio filósofo ao comentar esses casos clínicos, a perturbação essencial desses pacientes consiste em uma “incapacidade de circunscrever nitidamente um conjunto percebido, concebido, ou apresentado, a título de figura, em um fundo tratado como indiferente”

Verissimo mostra que, nesse primeiro momento do pensamento merleau-pontiano, a função simbólica aparece como elemento definidor da ordem humana. Ela permite compreender como os seres humanos não apenas reagem ao mundo, mas também o interpretam, transformando estímulos em significados e situações em estruturas inteligíveis.

Entretanto, o livro revela que essa concepção sofre uma transformação significativa na obra posterior de Merleau-Ponty. Na Fenomenologia da percepção, publicada em 1945, o filósofo passa a questionar a centralidade da função simbólica. A crítica dirige-se sobretudo ao risco de que essa noção reinstale um dualismo intelectualista entre espírito e corpo. Se o simbolismo for concebido como atividade puramente mental, ele acabará reproduzindo a mesma separação que a fenomenologia pretende superar.

Nesse ponto, Verissimo identifica uma mudança decisiva na filosofia merleau-pontiana: a emergência do conceito de corpo próprio. O corpo deixa de ser compreendido como objeto fisiológico para tornar-se o sujeito da percepção. A experiência perceptiva não é um processo mental que interpreta dados sensoriais; ela é uma forma de relação direta entre o corpo e o mundo.

A obra enfatiza que essa mudança não representa uma rejeição completa da função simbólica, mas sim uma reinterpretação de seu estatuto. O simbolismo não pertence a uma consciência transcendental separada do mundo; ele emerge do próprio campo da experiência sensível. Em outras palavras, a racionalidade humana nasce da corporeidade.

Essa tese aparece de maneira particularmente clara na análise da espacialidade do corpo. Para Merleau-Ponty, o corpo não ocupa simplesmente um lugar no espaço; ele constitui o próprio espaço vivido. O movimento corporal organiza o campo perceptivo e torna possível a orientação no mundo. Assim, a percepção não pode ser reduzida a uma operação intelectual.

A leitura proposta por Verissimo revela, portanto, um percurso filosófico complexo. Inicialmente influenciado por teorias psicológicas do simbolismo, Merleau-Ponty gradualmente desloca o foco de sua reflexão para o corpo enquanto sujeito perceptivo. Esse deslocamento permite superar tanto o empirismo quanto o intelectualismo, abrindo caminho para uma fenomenologia da experiência encarnada.

Outro mérito do livro reside na reconstrução detalhada das influências intelectuais que moldaram o pensamento de Merleau-Ponty. Verissimo examina não apenas os filósofos que dialogaram com ele, mas também os cientistas cujas pesquisas contribuíram para a formulação de suas ideias. Entre esses interlocutores destacam-se Ernst Cassirer, Henri Wallon e Jean Piaget, cujas teorias sobre linguagem e simbolismo influenciaram profundamente o debate filosófico da época.

Ao longo da obra, o autor demonstra que a filosofia de Merleau-Ponty não pode ser compreendida isoladamente. Ela emerge de um diálogo intenso entre diferentes disciplinas e correntes intelectuais. Essa perspectiva interdisciplinar constitui um dos aspectos mais interessantes do livro, pois revela como a fenomenologia se desenvolveu em interação com as ciências humanas e naturais.

Além disso, Verissimo sustenta que a reflexão sobre a função simbólica possui um valor antropológico decisivo. Ao analisar o papel do simbolismo na percepção, Merleau-Ponty busca compreender o que distingue o comportamento humano do comportamento animal. A linguagem, a imaginação e a capacidade de representação permitem ao ser humano agir para além das situações imediatas, projetando possibilidades e construindo significados.

Nesse sentido, o simbolismo não é apenas um fenômeno linguístico; ele atravessa toda a experiência humana. Como afirma a obra, a função simbólica manifesta-se em diversas dimensões da vida, incluindo a percepção, a ação e a afetividade. Ela constitui uma estrutura fundamental do comportamento humano.

A análise desenvolvida por Verissimo evidencia que a fenomenologia merleau-pontiana oferece uma alternativa original às concepções tradicionais da mente. Ao invés de conceber o sujeito como consciência separada do corpo, Merleau-Ponty propõe uma filosofia da corporeidade. O corpo não é um objeto entre outros; ele é a condição de possibilidade da experiência.

Esse argumento torna-se especialmente relevante no contexto das discussões contemporâneas sobre cognição incorporada. Muitas teorias atuais da mente retomam ideias semelhantes às desenvolvidas por Merleau-Ponty, enfatizando o papel do corpo e do ambiente na constituição da percepção. A leitura oferecida por Verissimo demonstra, portanto, a atualidade desse pensamento filosófico.

Do ponto de vista estilístico, o livro apresenta uma escrita clara e rigorosa, capaz de conduzir o leitor por debates conceituais complexos sem sacrificar a precisão analítica. A argumentação desenvolve-se de forma gradual, articulando análises históricas, interpretações filosóficas e referências científicas.

Ao final da leitura, torna-se evidente que A primazia do corpo próprio não é apenas um comentário sobre Merleau-Ponty. Trata-se de uma contribuição significativa para a compreensão da fenomenologia da percepção e para o debate filosófico sobre a relação entre corpo, linguagem e experiência.

VERISSIMO, Danilo Saretta. A primazia do corpo próprio: posição e crítica da função simbólica nos primeiros trabalhos de Merleau-Ponty. São Paulo: Editora UNESP, 2012. Inclui bibliografia. ISBN 978-85-393-0380-9. Classificação: Filosofia francesa; Fenomenologia; Filosofia da psicologia

Danilo Saretta Verissimo é pesquisador brasileiro da área de filosofia e psicologia, com atuação acadêmica voltada principalmente aos estudos fenomenológicos e à filosofia da percepção. Formado em filosofia e com doutorado desenvolvido em regime de cotutela entre a Universidade de São Paulo e a Université Jean Moulin – Lyon 3, sua produção acadêmica dedica-se à investigação das relações entre fenomenologia, psicologia e teoria do comportamento humano. Em suas pesquisas, Verissimo examina especialmente o pensamento de Maurice Merleau-Ponty, buscando compreender o papel do corpo, da linguagem e da percepção na constituição da experiência humana. A primazia do corpo próprio representa uma de suas principais contribuições intelectuais, consolidando-o como um dos intérpretes brasileiros relevantes da fenomenologia contemporânea.

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