Em A Ilha Onde as Mulheres Voam, de Marta Lamalfa, a autora constrói uma narrativa que oscila entre o real e o mítico, entre a dureza concreta da vida insular e a vertigem quase alucinatória das lendas que atravessam Alicudi. O romance abre com uma nota autoral que já antecipa o tom ambíguo da obra, evocando as ilhas “invisíveis” e as histórias que nelas podem acontecer. Logo nas primeiras páginas, lemos: “Mas, de vez em quando, em Alicudi, ainda há quem veja no céu as mulheres a voar.” (p. 9)

Esta frase, destacada pela sua força imagética, funciona como chave simbólica do livro: voar é escapar, mas também delirar; é libertação e é condenação.

A narrativa inicia-se com a morte de Maria, jovem habitante da ilha, cujo velório se torna o centro emocional do primeiro capítulo. A cena é marcada por uma ladainha fúnebre que mistura despedida, culpa e memória coletiva. Palmira, a mãe, embala o corpo da filha como se ainda pudesse protegê-la do fim. A repetição ritualística das palavras ecoa no espaço doméstico, enquanto a comunidade observa. A tensão cresce quando surge a figura de Salvatore, acusado de ter desonrado e “matado” Maria, ainda que a morte tenha sido provocada pela sífilis.

Num dos momentos mais contundentes, a mãe explode em dor e fúria: “Matou-me a filha, aquele desgraçado. Desonrou-a e, depois, matou-a.” (p. 28)

A frase sintetiza a mentalidade insular, em que a honra feminina é indissociável da reputação familiar. A doença torna-se culpa moral; o amor transforma-se em crime. Lamalfa expõe, com precisão quase etnográfica, a violência simbólica que pesa sobre o corpo das mulheres.

Caterina, irmã gémea de Maria, ocupa o centro psicológico da narrativa. A morte rompe não apenas um laço afetivo, mas também ontológico. A identidade de Caterina estava ancorada na existência da irmã. A separação física inaugura uma crise profunda: quem é ela sem o reflexo constante da gémea? A descrição do enterro é particularmente brutal quando o corpo de Maria é lançado à vala comum. A protagonista sente a dor que a irmã já não pode sentir. O gesto do padre — que empurra o corpo para dar lugar aos próximos mortos — revela a crueza da vida na ilha, onde a morte é banalizada pela repetição.

A religiosidade popular atravessa toda a obra, mas nunca surge como consolo absoluto. Caterina questiona-se sobre o destino da alma da irmã e formula uma hipótese quase infantil: “Espera que vá para o Purgatório. Porque se do Inferno se sabe que fica debaixo dos pés, e o Paraíso algures lá em cima, no céu, então o Purgatório deve ficar a meio, algures além do mar.” (p. 18)

O Purgatório torna-se, assim, metáfora da própria ilha: um espaço intermédio, isolado, suspenso entre céu e abismo.

O romance não se limita ao drama íntimo. Através de Salvatore, preso político na colónia penal de Lipari, Lamalfa introduz a dimensão histórica e social da Itália pós-unificação. Salvatore é um revolucionário frustrado, envolvido nos movimentos operários. Num diálogo crucial, confessa: “Durante a revolta, as pessoas passaram a ser apenas duas e eu atirei uma pedra à outra.” (p. 45)

A frase revela o peso da culpa e a redução simplista da realidade política a antagonismos violentos. Salvatore carrega a marca do erro, tal como Maria carrega a marca da doença. Ambos são corpos condenados por circunstâncias que os ultrapassam.

A prisão é descrita como espaço de degradação moral e física. “As ruínas estão em ruína” (p. 39) — esta expressão, seca e incisiva, traduz o estado do Castelo de Lipari e, por extensão, da própria sociedade. O ideal revolucionário contrasta com a miséria concreta dos presos. Salvatore, que imaginava lutar por justiça, encontra-se reduzido à sobrevivência diária e à humilhação.

Entretanto, na ilha, as mulheres continuam a enfrentar as adversidades da vida rural. A bisavó Palma simboliza a resistência ancestral. A cada morte, adquire uma nova maleita, como se o corpo acumulasse as perdas da família. O medo da solidão perpassa as suas reflexões. Numa frase que ecoa como confissão universal, lemos: “Porque sozinha, simplesmente não é capaz.” (p. 24)

Esta incapacidade não é apenas individual; é coletiva. A sobrevivência depende do grupo, da repetição dos gestos, do pão partilhado.

O elemento fantástico — as alucinações provocadas pelo centeio contaminado — insere-se organicamente na narrativa. A fronteira entre realidade e delírio nunca é completamente definida. As histórias de mulheres que voam podem ser efeito do ácido lisérgico presente na cravagem-do-centeio, mas também podem ser metáfora do desejo reprimido de fuga. Alicudi torna-se um laboratório simbólico onde ciência, superstição e necessidade de transcendência se misturam.

A escrita de Lamalfa é marcada por frases curtas, muitas vezes fragmentadas, que reproduzem o ritmo oral da comunidade. O texto alterna entre lirismo e brutalidade. A natureza — mar, pedra-pomes, vento — não é mero cenário, mas personagem ativa. O mar tanto liga como separa; é promessa de mundo e ameaça constante.

Ao longo das cerca de quatrocentas páginas, a autora constrói um mosaico de vozes femininas. São mulheres que trabalham, sofrem, guardam segredos e sustentam a memória coletiva. O voo, no título, adquire múltiplos significados: voam as alucinações, voam os rumores, voa a imaginação. Talvez voem também as mulheres que ousam desejar algo além dos cinco quilómetros da ilha.

A Ilha Onde as Mulheres Voam é, acima de tudo, um romance sobre confinamento — geográfico, social e emocional — e sobre as fissuras que permitem sonhar com outra vida. Entre a morte de Maria e as inquietações de Caterina, entre a revolução falhada de Salvatore e a obstinação de Palma, a narrativa revela que a liberdade pode ser tão ilusória quanto as mulheres vistas no céu. Mas é precisamente essa ilusão que mantém viva a esperança.

Marta Lamalfa entrega um texto intenso, de grande densidade simbólica e histórica. A combinação entre realismo social e sugestão fantástica confere à obra uma singularidade notável. Ao terminar a leitura, permanece a imagem inaugural — mulheres que voam — como lembrança de que, mesmo nas ilhas mais isoladas, a imaginação pode atravessar o horizonte.

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