Resenha | A boba da corte, de Tati Bernardi — Pertencer é impossível


Em A boba da corte, Tati Bernardi transforma memória pessoal em crítica social contundente. O livro parte de um episódio aparentemente banal — uma festa de aniversário — para dissecar classe, desejo, ressentimento e inadequação. A narrativa oscila entre autoficção, ensaio e confissão íntima, sempre atravessada pela pergunta central: o que significa ascender socialmente sem jamais se sentir pertencente?

Logo nas primeiras páginas, a cena da amiga da elite com medo de estar no “Maranhão errado” desencadeia o colapso emocional da narradora. O trecho é explícito:

“Senti uma dor e um horror tão grande da minha amiga com medo da minha infância que comecei a passar mal.” (p. 7) 

Aqui está o eixo do livro: a infância vira território vergonhoso quando atravessada pelo olhar da elite. A narradora não sofre apenas pelo preconceito implícito — sofre porque percebe que também já internalizou esse olhar.

O título da obra ganha força quando a autora revisita sua experiência entre herdeiros. Ela formula a pergunta que dá nome ao livro:

“Então que nome posso dar àquele sentimento de quinze anos atrás, quando eu, branca, meio loira, servi de boba da corte, no feriado da Páscoa, para a família branca e loira de Marcela?” (p. 10) 

A “boba da corte” é aquela que diverte, que performa sua origem como exotismo tolerável. Ela é aceita enquanto entretém. Nunca como igual.

O romance com Rafael aprofunda essa tensão. Ele representa o berço intelectual, a estabilidade herdada, o pertencimento natural. Em determinado momento, a narradora enumera o que, segundo ela, falta a ele para ser artista:

“Falta maldade. Falta ódio, raiva, desespero. Falta enxergar com crueza as pessoas.” (p. 21) 

A frase revela o conflito central: arte nasce do atrito, não da estabilidade. Para ela, o sofrimento não é desvio — é matéria-prima.

Um dos trechos mais emblemáticos do livro sintetiza o privilégio estrutural da elite paulistana:

“Filhos da elite são filhos eternos.” (p. 23) 

A continuação do parágrafo deixa claro o argumento: sempre haverá casas, médicos, advogados, sobrenomes. A herança é rede invisível de proteção. O contraste com sua formação é brutal.

A infância na Zona Leste é retratada sem romantização. A casa girava em torno da televisão:

“A casa da travessa do Triunfo [...] era planejada, construída e decorada para ser totalmente devota a uma televisão.” (p. 33) 

Não havia livros, silêncio ou espaço para introspecção. Mas havia generosidade. E havia contradição. A autora escreve:

“Fui criada por pessoas generosas e decentes. Ao mesmo tempo, fui ensinada que era preciso ajudar, se apiedar, mas jamais se misturar.” (p. 35) 

Esse é o retrato exato do assistencialismo brasileiro: caridade sem igualdade.

Outro momento impactante aparece quando a mãe explica a morte precoce dos avós:

“Porque somos pobres. Rico não morre. Rico tem plano de saúde bom e não morre.” (p. 38) 

A frase é exagerada, mas revela a percepção concreta de vulnerabilidade social. Doença e morte são, ali, experiências de classe.

O livro também não poupa a elite progressista. A festa que deveria ser celebração vira invasão. A narradora entra em crise de pânico enquanto os convidados se recusam a ir embora:

“Eu queria todo mundo fora da minha casa.” (p. 25) 

Esse desejo é literal e simbólico. Expulsar as pessoas é expulsar a versão de si que performa pertencimento.

Há ainda a reflexão metalinguística sobre a própria escrita:

“Você quer escrever sobre uma vida inteira dedicada a chegar a este lugar que você nunca (nunca, nunca) chega.” (p. 13) 

O livro é justamente esse gesto: assumir que a chegada nunca acontece. O pertencimento é sempre provisório.

A tensão amorosa também é atravessada por desigualdade simbólica. Em determinado momento, ela percebe que jamais será integrada de fato:

“Eu jamais entraria nele ou naquele grupo. Jamais entraria de verdade.” (p. 17) 

A repetição reforça a consciência da exclusão. Não se trata de rejeição explícita — trata-se de estrutura.

O romance também questiona a própria narradora. Ela deseja conquistar o “garoto bem-nascido”:

“Conquistar o garoto bem-nascido da Zona Oeste. A conquista do berço de ouro intelectual.” (p. 17) 

Há fascínio, há erotização do capital cultural. A crítica não é unilateral — é também confissão.

O grande mérito de A boba da corte é não oferecer redenção simples. A narradora não volta à origem, não se purifica, não resolve o conflito. Ela escreve a partir do incômodo. Escrever é romper com o pacto de silêncio que garante aceitação.

A obra funciona como radiografia das tensões de classe no Brasil contemporâneo. Não é apenas autobiografia: é análise social filtrada por afeto, vergonha, desejo e pânico. Tati Bernardi expõe a elite, mas também expõe a si mesma — suas ambições, sua raiva, seu fascínio.

Se a boba da corte é aquela que diverte o rei enquanto observa suas fraquezas, aqui ela decide falar. E, ao falar, deixa de ser boba. O humor ácido, a brutalidade emocional e a lucidez política fazem do livro um dos retratos mais incômodos da mobilidade social brasileira recente.

É um livro sobre classe.
É um livro sobre amor.
É um livro sobre não pertencer.

E, sobretudo, é um livro sobre ter coragem de dizer o que rompe vínculos — mesmo quando isso custa caro.

Postar um comentário

Comentários