Café Tangerinn, romance de estreia de Emanuela Anechoum, é um livro sobre deslocamento, pertencimento e herança emocional. A narrativa acompanha Mina, filha de pai marroquino e mãe italiana, vivendo em Londres enquanto tenta construir uma identidade que não se encaixa completamente em lugar algum. Quando o pai morre, a estrutura cuidadosamente construída por ela desmorona — e o romance se transforma numa investigação dolorosa sobre memória, culpa e pertencimento.
Logo na abertura, o tom da obra é anunciado por uma epígrafe de Elsa Morante que funciona como chave de leitura do livro:
“Pessoas como você, que têm dois sangues diferentes correndo nas veias, nunca encontram descanso nem satisfação; enquanto estão lá, gostariam de se encontrar aqui, e assim que voltam para cá, logo têm vontade de fugir.” (p. 7)
Essa frase ecoa por toda a narrativa. Mina é dividida entre geografias, culturas e expectativas. Londres representa o projeto de reinvenção. A Calábria — e, simbolicamente, o Marrocos do pai — representam origem, família, herança e conflito.
O prólogo é devastador. Narrado em segunda pessoa, ele reconstrói a figura do pai como alguém movido por fatalismo e ambição, mas também marcado por perdas. Uma das passagens mais potentes é a descrição da infância do pai e da relação com a avó:
“Suas mãos são o único lar onde me senti verdadeiramente segura.” (p. 10)
Essa frase sintetiza o que o romance faz: transforma corpo em território. Mãos, cheiro, pele, voz — tudo é memória. O lar não é um lugar fixo; é uma sensação.
Quando a narrativa avança para Londres, conhecemos Liz, colega de apartamento de Mina, uma jovem branca, rica e performaticamente progressista. A relação entre as duas é atravessada por admiração, inveja e ressentimento. O livro é implacável ao mostrar como a identidade pode virar espetáculo.
Em um momento crucial, Mina admite internamente:
“Invejo constantemente os autoconfiantes, os belos, os ricos, os felizes. Sou cheia de veneno pelos privilégios dos outros e também invejo seus méritos.” (p. 16)
A inveja não é tratada como pecado moral, mas como sintoma de deslocamento social e racial. Mina não pertence completamente à elite cosmopolita que frequenta pubs caros, nem ao vilarejo de onde saiu. Ela vive num espaço intermediário — e esse entre-lugar é desconfortável.
A morte do pai acontece à distância. Mina não está presente. A ausência vira culpa. E o texto mergulha numa espiral de autoincriminação:
“Essas são coisas que não se pensa nem em silêncio, mas são coisas em que se pensa enquanto seu pai se transforma em cinzas.” (p. 25)
A imagem é brutal. Pensamentos proibidos surgem justamente quando não deveriam existir. Anechoum constrói o luto como algo físico — quase tóxico.
O retorno à casa da infância é um dos trechos mais fortes do livro. Ao atravessar o portão e rever o pé de tangerina plantado pelo pai, Mina experimenta uma sensação dupla:
“Você se foi, mas estava em toda parte.” (p. 33)
O espaço físico se torna fantasmagórico. A casa é familiar e estranha ao mesmo tempo. A autora trabalha de maneira muito sofisticada a fragilidade da memória:
“Não confio em minhas memórias, elas estão sempre contaminadas pelo presente.” (p. 33)
Essa é talvez a frase mais importante do romance. O livro inteiro é um questionamento da narrativa pessoal. O que é lembrança real? O que é reconstrução? O que é invenção necessária para suportar a dor?
A relação com a mãe, Berta, é atravessada por ressentimento e incompreensão. Berta é excêntrica, emocionalmente instável, às vezes egoísta — mas também uma mulher que carrega sua própria história de abandono. O luto é enfrentado de maneira quase prática, seca:
“Não há nada para resolver,” disse ela. “A vida é injusta.” (p. 38)
Essa frase funciona como contraponto à intensidade emocional de Mina. Enquanto a filha implode por dentro, a mãe responde com fatalismo cru.
O romance também é profundamente político, embora nunca panfletário. Ao descrever o trabalho de Mina na rede de fast-food em Londres, surge uma metáfora poderosa:
“Sempre tive a impressão de que, mais cedo ou mais tarde, eu também seria jogada fora, como aquelas folhas de alface levemente amarronzadas.” (p. 40)
A precariedade do trabalho, da identidade e da própria presença no mundo se fundem numa imagem simples — folhas descartadas.
Ao longo da narrativa, Anechoum trabalha com contrastes: mar e cidade, Itália e Inglaterra, mãe e pai, tradição e modernidade, corpo e memória. O mar, em especial, é símbolo recorrente — ameaça, origem, dissolução.
O desejo do pai de ser cremado e lançado ao mar também carrega ambiguidade. É libertação ou apagamento? É descrença ou retorno à natureza?
Café Tangerinn é um romance sobre filhas que não sabem como amar seus pais sem se afastar deles. Sobre mães que não souberam ser mães porque nunca aprenderam a ser filhas seguras. Sobre o peso da migração — mesmo quando ela acontece dentro da Europa.
Mas, acima de tudo, é um romance sobre identidade fragmentada. Sobre ser estrangeira até dentro da própria família.
A escrita de Anechoum é lírica sem ser excessiva. Precisa, sensorial, cortante. O uso da segunda pessoa no prólogo cria uma intimidade desconfortável. A primeira pessoa posterior revela contradição, autoengano e fragilidade.
Não é um livro de respostas. É um livro de perguntas — muitas delas incômodas.
E talvez a epígrafe volte como eco final:
“Você irá de um lugar a outro como se estivesse fugindo de uma prisão… mas na realidade só estará perseguindo as diferentes sortes que se misturam no seu sangue.” (p. 7)
No fim, Mina não resolve o conflito de pertencimento. Mas talvez compreenda que a identidade não é um lugar fixo — é movimento.
E o movimento, ainda que doloroso, é o que a mantém viva.

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