Resenha – Coisas importantes também serão esquecidas, de Martha Nowill

Em Coisas importantes também serão esquecidas – Um diário, Martha Nowill constrói um relato íntimo, cru e radicalmente honesto sobre maternidade, pandemia, medo, desejo, carreira e identidade. O livro é estruturado como diário, com entradas datadas que acompanham a decisão (ou indecisão) da autora em engravidar aos 39 anos, atravessando o início da pandemia de covid-19, crises conjugais e o impacto físico e psíquico de uma gestação gemelar.

Logo nas primeiras páginas, o conflito central já se anuncia. A protagonista vive o dilema entre o desejo e o adiamento, entre querer e temer. Em 12 de novembro, ela escreve:

“A verdade é que eu não quero engravidar, mas também não consigo enxergar minha vida sem filhos.” (p. 8)

Essa frase sintetiza o eixo do livro: a maternidade não surge como destino natural, mas como tensão existencial. Nowill não romantiza a dúvida. Ao contrário, ela a expõe como uma batalha cotidiana contra o tempo biológico — descrito de forma brutal:

“E o tempo é um filho da puta que fica fazendo tique-taque em contagem regressiva na minha orelha.” (p. 8)

A escrita é coloquial, direta, frequentemente atravessada por humor ácido. O diário registra consultas médicas, superstições, promessas de “sinais” para decidir engravidar e, em paralelo, o avanço da pandemia. A maternidade surge dentro de um mundo em colapso, e esse cenário amplifica a angústia.

Quando finalmente decide “liberar”, a gestação acontece rapidamente. O atraso menstrual transforma a rotina em obsessão:

“Aonde quer que eu vá, a ideia de uma possível gravidez vai junto.” (p. 17)

O teste positivo não vem acompanhado de êxtase, mas de alívio — o que já desmonta o imaginário idealizado da gravidez:

“Não fiquei feliz nem triste, só aliviada por ter algo concreto sobre um assunto que me atormenta há anos.” (p. 20)

A descoberta de que são gêmeos radicaliza a narrativa. O ultrassom no pronto-socorro é uma das cenas mais impactantes do livro. A reação da autora é brutalmente honesta:

“Minha vida acabou.” (p. 27)

E, dias depois, o espanto se torna mantra:

“E são dois.” (p. 29)

O livro ganha densidade à medida que os enjoos se intensificam. A gravidez deixa de ser conceito e vira corpo. Náusea, exaustão, medo e culpa atravessam as páginas. A autora desmonta o discurso da gestação luminosa:

“Estou enjoada, não dá pra ser feliz enjoada.” (p. 28)

Essa frase é um marco da obra. Nowill não aceita a obrigação social de felicidade. Ela questiona o mito da maternidade redentora e mostra que o processo pode ser fisicamente devastador e emocionalmente ambivalente.

Há também momentos de fúria hormonal, como na explosão no meio da rua:

“Vai tomar no cu, seu filho da puta!” (p. 22)

A cena, que poderia ser apenas cômica, revela o esgotamento psíquico. A gravidez aqui não é apenas biologia, é ruptura de identidade. Em um dos trechos mais reflexivos, ao ouvir uma frase sobre maternidade, ela mergulha na própria história:

“Sou ph.D. em proteger o meu indivíduo.” (p. 37)

Esse é talvez o núcleo mais sofisticado do livro. A maternidade aparece como ameaça à identidade construída ao longo de décadas. A autora questiona se será possível continuar sendo artista, mulher, indivíduo — e não apenas mãe.

Os medos ganham proporções quase delirantes na sessão de terapia:

“Medo de nunca mais dormir, de não ter dinheiro suficiente, da minha barriga explodir…” (p. 40-41)

A enumeração é longa e quase sufocante. Ela teme perder o corpo, o trabalho, o desejo, o amor do parceiro. A maternidade aqui é retratada como uma implosão possível de tudo o que ela construiu.

Há também pensamentos intrusivos que escancaram o grau de ansiedade:

“Eu tomo água dessa garrafa pesada e imagino que eu poderia esmagar o seu crânio com ela.” (p. 42)

Essa confissão é chocante. Mas é também um dos momentos mais importantes da obra: Nowill dá voz ao que muitas mulheres silenciam. A maternidade não elimina a violência psíquica; às vezes, a intensifica.

Mesmo assim, o livro não é apenas angústia. Há lampejos de ternura e conexão genuína, como quando finalmente consegue sentir alegria:

“Amor, estou feliz que vamos ter dois filhos juntos.” (p. 29)

E, em meio ao caos, surge uma percepção poderosa sobre resistência:

“As mulheres deveriam ganhar um prêmio por trazerem pessoas ao mundo.” (p. 26)

A pandemia funciona como pano de fundo simbólico. Enquanto o mundo fecha, ela abre o corpo. Enquanto a morte se espalha, duas vidas crescem. Essa simultaneidade cria uma tensão narrativa forte e constante.

O título do livro, Coisas importantes também serão esquecidas, ecoa ao longo da leitura como um lembrete da impermanência. A autora sabe que a intensidade daquele momento não será eterna. Ela faz anotações mentais para o futuro, consciente de que a memória dilui até o que parece definitivo.

A força da obra está justamente na ausência de pose. Martha Nowill escreve sem filtros heroicos. Sua maternidade é ambivalente, política, corporal, cansada e ainda assim profundamente humana.

O diário termina não como resolução, mas como travessia. O leitor sai do livro com a sensação de ter acompanhado não apenas uma gravidez, mas o desmonte e reconstrução de uma identidade.

É um livro que desmonta o mito da maternidade perfeita e substitui por algo mais real: medo, dúvida, desejo, amor e contradição coexistindo no mesmo corpo.

E talvez a frase que melhor resume a obra seja aquela dita quase como um mantra:

“Tudo para mim será em dobro.” (p. 30)

Em dobro o amor, o medo, o cansaço, a transformação.

E em dobro a coragem de escrever sobre tudo isso.


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