Publicado originalmente em 2015, Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva, é um livro que parte da experiência íntima para alcançar a dimensão histórica e política do Brasil contemporâneo. Ao narrar o avanço do Alzheimer em sua mãe, Eunice Paiva, advogada e viúva do deputado Rubens Paiva, morto pela ditadura militar, o autor constrói uma obra híbrida: ao mesmo tempo memorialística, ensaio sobre a memória e relato jornalístico de um dos casos mais emblemáticos da repressão. O título, que sugere permanência diante do apagamento, resume o gesto central do livro: resistir ao esquecimento.

Logo nas primeiras páginas, Paiva articula um raciocínio sobre o funcionamento da memória, associando lembranças da infância do próprio filho às falhas cognitivas da mãe. “A memória é uma mágica não desvendada. Um truque da vida” (p. 12). A frase, aparentemente simples, estabelece o tom do livro: uma investigação emocional e intelectual sobre o que se perde e o que permanece quando a memória falha. O Alzheimer, aqui, não é apenas doença; é metáfora de um país que também hesita em lembrar seu passado autoritário.

O ponto de inflexão narrativo ocorre no Fórum João Mendes, em São Paulo, quando Eunice, então com 77 anos, é submetida a uma audiência para interdição judicial. A cena é descrita com precisão quase cinematográfica. Questionada pelo juiz, ela responde com uma lucidez paradoxal: “– Porque estou velha e preciso que cuidem de mim” (p. 16). A mulher que por décadas atuou como advogada, inclusive em causas complexas e politicamente sensíveis, torna-se objeto de tutela. O filho assume oficialmente a posição de curador. “Eu virava mãe da minha mãe” (p. 20), escreve Paiva, sintetizando a inversão de papéis que estrutura emocionalmente a obra.

Essa inversão é atravessada por um passado que jamais se apaga. Eunice foi presa em 1971, dias após o desaparecimento do marido, e libertada sem explicações. A imagem descrita por Antonio Callado, citada no livro, é de uma força simbólica incontornável: Eunice, magra e recém-saída do cárcere, nadando em Búzios, confiante na palavra oficial de que o marido seria libertado em dois dias. “A cara de Eunice continuou molhada e salgada durante muito tempo, tal como naquela manhã de Búzios. A água é que não era mais do mar” (p. 24). A frase transforma a água em signo do trauma: o sal não é apenas do oceano, mas das lágrimas e da violência política.

O livro também revisita o momento em que, em 1996, graças à Lei 9.140, foi oficialmente registrado o óbito de Rubens Paiva, 25 anos após sua morte sob tortura. A cena do cartório é tratada como marco histórico e íntimo. Eunice ergue o atestado como troféu, recusando o papel de vítima. A família decide não posar para fotos com semblantes abatidos. Há uma recusa deliberada ao sentimentalismo midiático. A dor existe, mas não será exibida como espetáculo.

Ao mesmo tempo, Paiva constrói um retrato complexo da mãe. Ela não é idealizada como figura maternal afetuosa nos moldes tradicionais. O autor descreve sua frieza prática, sua obsessão por estudos, sua postura quase estoica. O afeto era exercido pela responsabilidade e pela disciplina, não por demonstrações verbais de carinho. A doença, nesse contexto, reconfigura a relação entre mãe e filho, mas não a apaga. A mulher que foi referência moral e intelectual passa a repetir frases, a perder-se no tempo, a reduzir debates complexos a um “blá-blá-blá” (p. 33), expressão que sintetiza o esvaziamento de sentido provocado pelo Alzheimer.

O contraste entre memória pessoal e memória coletiva atravessa todo o livro. Ao questionar a mãe sobre o nome do presidente da República e vê-la incapaz de responder, o autor evoca a ironia de alguém que esteve na fundação do partido daquele líder e lutou pela redemocratização. A doença apaga o dado factual, mas não o legado histórico. O gesto de abraçar um general na cerimônia de promulgação da Lei dos Desaparecidos, anos antes, permanece como símbolo de reconciliação institucional.

Narrativamente, Paiva alterna fluxo de consciência, ensaio filosófico e reportagem. Referências a Henri Bergson, à cultura pop e à música de David Bowie ampliam o horizonte reflexivo. O verso “Planet Earth is blue, and there’s nothing I can do” (p. 8) funciona como metáfora da impotência diante do curso inexorável do tempo. Ainda assim, o livro insiste na ação: escrever é agir contra o apagamento.

A força jornalística da obra reside na clareza com que expõe o funcionamento das instituições — fórum, cartório, presidência da República — sem perder o foco humano. A interdição judicial, descrita em detalhes processuais, revela a burocracia que atravessa a velhice. A Lei 9.140 é citada com precisão normativa, lembrando que memória também é ato administrativo, registro oficial, reconhecimento legal.

Mas é no plano íntimo que o livro alcança sua dimensão mais contundente. A repetição como sintoma do Alzheimer é descrita com sobriedade, sem apelo melodramático. A música surge como último reduto de lucidez. Enquanto palavras se tornam ruído, melodias ainda encontram abrigo na memória afetiva. O cérebro falha; a emoção resiste.

Ao final, Ainda Estou Aqui afirma que lembrar é um gesto político. A doença que apaga a memória individual dialoga com o risco de apagamento coletivo de um período autoritário ainda mal resolvido no Brasil. Ao registrar a trajetória de Eunice Paiva — da prisão à luta pela certidão de óbito do marido, da advocacia militante à interdição judicial — Marcelo Rubens Paiva constrói um monumento literário à resistência silenciosa.

O livro não é apenas um tributo filial. É também uma advertência: o esquecimento, seja neurológico ou histórico, tem consequências. Se a memória é “uma mágica não desvendada” (p. 12), a escrita é o mecanismo que tenta fixá-la. Ao transformar dor privada em narrativa pública, Paiva reafirma o sentido do título: enquanto houver relato, enquanto houver registro, enquanto alguém escrever, ainda estaremos aqui.

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