Em Amor em Roma, de Sarah Adams, a autora constrói uma comédia romântica que parte de um trope clássico — a celebridade em crise que foge da própria vida — para desenvolver uma narrativa sensível sobre identidade, pertencimento e as armadilhas da fama. Publicado originalmente como When in Rome e lançado no Brasil pela Intrínseca, o livro apresenta Amelia Rose, conhecida mundialmente como Rae Rose, uma estrela do pop à beira do esgotamento, e Noah Walker, um padeiro rabugento do Kentucky que não tem paciência para celebridades nem para escândalos.
A abertura do romance já estabelece o tom confessional e espirituoso da protagonista. Amelia, sozinha ao volante, tenta convencer a si mesma de que está bem, embora esteja fugindo de uma rotina que a sufoca. “— Sim, Amelia, você está bem. Na verdade, você está ótima” (p. 10), diz em voz alta, num diálogo interno que oscila entre ironia e desespero. A estratégia narrativa de Adams é eficaz: ao permitir que o leitor acompanhe o fluxo de pensamento da cantora, a autora desmonta a imagem pública de perfeição e revela uma mulher cansada de ser performance.
A crise que a impulsiona é menos um escândalo e mais um colapso silencioso. Entre contratos milionários, ensaios exaustivos e entrevistas meticulosamente roteirizadas, Amelia percebe que se tornou excelente em sorrir enquanto se sente vazia. O comentário de sua agente sobre parecer cansada — ainda que isso pudesse gerar “simpatia nos fãs” (p. 12) — funciona como estopim. A celebridade compreende que até seu cansaço é mercadoria.
A decisão de fugir é inspirada por Audrey Hepburn e pelo filme A Princesa e o Plebeu, referência que atravessa o romance como metáfora central. “Nasci com uma enorme necessidade de receber carinho e uma terrível necessidade de dar carinho” (p. 9), diz a epígrafe atribuída à atriz. A frase resume não apenas a personalidade de Amelia, mas o conflito de toda a narrativa: como receber afeto genuíno quando se é permanentemente observado?
O destino escolhido é Roma — não a italiana, mas a pequena cidade de Roma, Kentucky. A ironia geográfica é um dos acertos do livro. Adams subverte a fantasia europeia para situar sua história em um cenário rural, acolhedor e profundamente comunitário. Quando o carro de Amelia quebra na frente da casa de Noah, a trama abandona o glamour e mergulha no ordinário: fumaça saindo do capô, calor sufocante e a tensão de confiar — ou não — em um estranho.
O primeiro encontro entre os protagonistas é marcado por desconfiança mútua. Amelia, habituada a stalkers e invasões de privacidade, recusa ajuda. Noah, por sua vez, interpreta a situação com pragmatismo. A troca de falas é ágil e espirituosa. “— Não vou te matar, se é isso que você está pensando.” (p. 15), diz ele, num diálogo que equilibra humor e ameaça velada. A autora constrói, desde o início, uma química baseada em resistência.
Noah é apresentado como o oposto do universo pop: dono da Loja das Tortas, herdeiro de uma tradição familiar e enraizado em sua comunidade. O espaço da loja, descrito como um abraço (p. 33), simboliza estabilidade e continuidade. Se Amelia vive sob holofotes e contratos, Noah vive entre receitas, vizinhos curiosos e memórias da avó. Ele não se deslumbra com a celebridade; pelo contrário, reage com irritação à presença dela. Quando Amelia oferece ingressos VIP em troca de hospitalidade, ele responde: “— Por que eu ia querer ingresso VIP?” (p. 25). A frase sintetiza o deslocamento da protagonista: ali, seu capital simbólico não vale tanto.
Esse confronto entre fama e anonimato é o motor do romance. Em Roma, Amelia deixa de ser Rae Rose — a personagem pública — e experimenta a possibilidade de ser apenas Amelia. A distinção entre essas identidades é central. “Rae Rose é a melhor amiga de todo mundo. Ela é complacente e fácil de amar” (p. 24). Amelia, contudo, é insegura, impulsiva e, sobretudo, cansada. Ao longo da narrativa, Adams explora o desgaste psicológico de sustentar uma persona midiática.
Noah também carrega suas cicatrizes. Traído no passado por uma noiva que partiu seu coração, ele evita envolvimentos. Sua resistência à cantora não é apenas antipatia; é autopreservação. O diálogo com o amigo James explicita esse medo. Ao ser provocado sobre a possibilidade de se interessar por uma celebridade, ele descarta a ideia: não quer “descobrir por um tabloide que ela me traiu” (p. 36). A insegurança masculina, aqui, é tratada com franqueza, sem caricatura.
A cidade de Roma funciona como personagem coletiva. Harriet, Mabel, Phil e outros moradores representam uma comunidade vigilante, mas também solidária. Se, por um lado, a fofoca é inevitável, por outro, há um senso de pertencimento que contrasta com a solidão de Amelia em mansões cercadas por segurança. O romance sugere que a intimidade genuína nasce da convivência cotidiana, não da idolatria.
Estilisticamente, Sarah Adams aposta em capítulos alternados entre Amelia e Noah, recurso que amplia a empatia do leitor. A alternância de pontos de vista permite compreender mal-entendidos e vulnerabilidades que os personagens escondem um do outro. O humor é constante, muitas vezes derivado do contraste entre o dramatismo interno de Amelia e o pragmatismo seco de Noah.
Ainda que siga convenções do gênero — encontros acidentais, tensão romântica, cidade pequena —, Amor em Roma se destaca pela forma como aborda saúde mental e exaustão profissional. A fuga da protagonista não é capricho; é tentativa de sobrevivência emocional. Ao longo das páginas, a autora sugere que descanso, silêncio e relações desinteressadas são formas de cura.
A metáfora do carro quebrado no início do livro é reveladora. Assim como o Corolla que para no meio da estrada, Amelia chega ao limite. A diferença é que, ao contrário do veículo, ela encontra alguém disposto a ajudá-la — mesmo relutantemente. O gesto de Noah ao oferecer o quarto de hóspedes, apesar da má vontade, inaugura um espaço de cuidado.
No desfecho, o romance reafirma sua mensagem central: não se trata de abandonar sonhos ou carreiras, mas de ressignificá-los. Amelia precisa decidir se continuará sendo apenas a persona pública ou se integrará suas múltiplas identidades. Noah, por sua vez, deve enfrentar o medo de amar alguém cuja vida transcende os limites da cidade.
Amor em Roma é, em última instância, uma história sobre redescobrir o ordinário como extraordinário. Entre tortas caseiras e holofotes internacionais, Sarah Adams constrói uma narrativa leve, mas não superficial. O romance diverte, emociona e, sobretudo, questiona o preço da perfeição. Ao final, fica a sensação de que fugir pode ser menos sobre escapar e mais sobre encontrar, em outro lugar, a possibilidade de ser inteiro.
Em Amor em Roma, de Sarah Adams, a autora constrói uma comédia romântica que parte de um trope clássico — a celebridade em crise que foge da própria vida — para desenvolver uma narrativa sensível sobre identidade, pertencimento e as armadilhas da fama. Publicado originalmente como When in Rome e lançado no Brasil pela Intrínseca, o livro apresenta Amelia Rose, conhecida mundialmente como Rae Rose, uma estrela do pop à beira do esgotamento, e Noah Walker, um padeiro rabugento do Kentucky que não tem paciência para celebridades nem para escândalos.
A abertura do romance já estabelece o tom confessional e espirituoso da protagonista. Amelia, sozinha ao volante, tenta convencer a si mesma de que está bem, embora esteja fugindo de uma rotina que a sufoca. “— Sim, Amelia, você está bem. Na verdade, você está ótima” (p. 10), diz em voz alta, num diálogo interno que oscila entre ironia e desespero. A estratégia narrativa de Adams é eficaz: ao permitir que o leitor acompanhe o fluxo de pensamento da cantora, a autora desmonta a imagem pública de perfeição e revela uma mulher cansada de ser performance.
A crise que a impulsiona é menos um escândalo e mais um colapso silencioso. Entre contratos milionários, ensaios exaustivos e entrevistas meticulosamente roteirizadas, Amelia percebe que se tornou excelente em sorrir enquanto se sente vazia. O comentário de sua agente sobre parecer cansada — ainda que isso pudesse gerar “simpatia nos fãs” (p. 12) — funciona como estopim. A celebridade compreende que até seu cansaço é mercadoria.
A decisão de fugir é inspirada por Audrey Hepburn e pelo filme A Princesa e o Plebeu, referência que atravessa o romance como metáfora central. “Nasci com uma enorme necessidade de receber carinho e uma terrível necessidade de dar carinho” (p. 9), diz a epígrafe atribuída à atriz. A frase resume não apenas a personalidade de Amelia, mas o conflito de toda a narrativa: como receber afeto genuíno quando se é permanentemente observado?
O destino escolhido é Roma — não a italiana, mas a pequena cidade de Roma, Kentucky. A ironia geográfica é um dos acertos do livro. Adams subverte a fantasia europeia para situar sua história em um cenário rural, acolhedor e profundamente comunitário. Quando o carro de Amelia quebra na frente da casa de Noah, a trama abandona o glamour e mergulha no ordinário: fumaça saindo do capô, calor sufocante e a tensão de confiar — ou não — em um estranho.
O primeiro encontro entre os protagonistas é marcado por desconfiança mútua. Amelia, habituada a stalkers e invasões de privacidade, recusa ajuda. Noah, por sua vez, interpreta a situação com pragmatismo. A troca de falas é ágil e espirituosa. “— Não vou te matar, se é isso que você está pensando.” (p. 15), diz ele, num diálogo que equilibra humor e ameaça velada. A autora constrói, desde o início, uma química baseada em resistência.
Noah é apresentado como o oposto do universo pop: dono da Loja das Tortas, herdeiro de uma tradição familiar e enraizado em sua comunidade. O espaço da loja, descrito como um abraço (p. 33), simboliza estabilidade e continuidade. Se Amelia vive sob holofotes e contratos, Noah vive entre receitas, vizinhos curiosos e memórias da avó. Ele não se deslumbra com a celebridade; pelo contrário, reage com irritação à presença dela. Quando Amelia oferece ingressos VIP em troca de hospitalidade, ele responde: “— Por que eu ia querer ingresso VIP?” (p. 25). A frase sintetiza o deslocamento da protagonista: ali, seu capital simbólico não vale tanto.
Esse confronto entre fama e anonimato é o motor do romance. Em Roma, Amelia deixa de ser Rae Rose — a personagem pública — e experimenta a possibilidade de ser apenas Amelia. A distinção entre essas identidades é central. “Rae Rose é a melhor amiga de todo mundo. Ela é complacente e fácil de amar” (p. 24). Amelia, contudo, é insegura, impulsiva e, sobretudo, cansada. Ao longo da narrativa, Adams explora o desgaste psicológico de sustentar uma persona midiática.
Noah também carrega suas cicatrizes. Traído no passado por uma noiva que partiu seu coração, ele evita envolvimentos. Sua resistência à cantora não é apenas antipatia; é autopreservação. O diálogo com o amigo James explicita esse medo. Ao ser provocado sobre a possibilidade de se interessar por uma celebridade, ele descarta a ideia: não quer “descobrir por um tabloide que ela me traiu” (p. 36). A insegurança masculina, aqui, é tratada com franqueza, sem caricatura.
A cidade de Roma funciona como personagem coletiva. Harriet, Mabel, Phil e outros moradores representam uma comunidade vigilante, mas também solidária. Se, por um lado, a fofoca é inevitável, por outro, há um senso de pertencimento que contrasta com a solidão de Amelia em mansões cercadas por segurança. O romance sugere que a intimidade genuína nasce da convivência cotidiana, não da idolatria.
Estilisticamente, Sarah Adams aposta em capítulos alternados entre Amelia e Noah, recurso que amplia a empatia do leitor. A alternância de pontos de vista permite compreender mal-entendidos e vulnerabilidades que os personagens escondem um do outro. O humor é constante, muitas vezes derivado do contraste entre o dramatismo interno de Amelia e o pragmatismo seco de Noah.
Ainda que siga convenções do gênero — encontros acidentais, tensão romântica, cidade pequena —, Amor em Roma se destaca pela forma como aborda saúde mental e exaustão profissional. A fuga da protagonista não é capricho; é tentativa de sobrevivência emocional. Ao longo das páginas, a autora sugere que descanso, silêncio e relações desinteressadas são formas de cura.
A metáfora do carro quebrado no início do livro é reveladora. Assim como o Corolla que para no meio da estrada, Amelia chega ao limite. A diferença é que, ao contrário do veículo, ela encontra alguém disposto a ajudá-la — mesmo relutantemente. O gesto de Noah ao oferecer o quarto de hóspedes, apesar da má vontade, inaugura um espaço de cuidado.
No desfecho, o romance reafirma sua mensagem central: não se trata de abandonar sonhos ou carreiras, mas de ressignificá-los. Amelia precisa decidir se continuará sendo apenas a persona pública ou se integrará suas múltiplas identidades. Noah, por sua vez, deve enfrentar o medo de amar alguém cuja vida transcende os limites da cidade.
Amor em Roma é, em última instância, uma história sobre redescobrir o ordinário como extraordinário. Entre tortas caseiras e holofotes internacionais, Sarah Adams constrói uma narrativa leve, mas não superficial. O romance diverte, emociona e, sobretudo, questiona o preço da perfeição. Ao final, fica a sensação de que fugir pode ser menos sobre escapar e mais sobre encontrar, em outro lugar, a possibilidade de ser inteiro.
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