O autor Charlie Kingston / Amazon / Divulgação

Charlie Kingston, tornou-se o centro de um debate que transcende as páginas de seu romance histórico: o mistério de sua verdadeira identidade. À semelhança do "fenômeno Elena Ferrante", Kingston optou pelo anonimato absoluto, utilizando um pseudônimo para proteger sua vida privada e permitir que a obra fale por si.

Embora o nome real permaneça velado por escolhas pessoais e estratégicas da Kingston Press, sabe-se que o autor possui cidadania canadense e reside atualmente em uma vila remota no Canadá, longe dos holofotes de São Paulo ou Londres, onde sua trama se desenrola. Nesta entrevista, conduzida de forma escrita para preservar seu sigilo, Charlie Kingston explora as nuances de sua escrita, o peso do anonimato e a construção de sua identidade literária.

No cenário literário atual, poucos nomes conseguiram capturar a essência do romance histórico com tanta precisão e sensibilidade quanto Charlie Kingston. Em sua mais nova obra, Rodeada de Neve e Orgulho, Kingston nos transporta para a exclusividade gélida de St. Moritz, nos Alpes Suíços, em 1897. O livro não é apenas uma narrativa de amor proibido; é um estudo minucioso sobre as barreiras invisíveis erguidas pelo privilégio e pelo luto.

A trama acompanha Clara Morel, uma governanta cuja dignidade é sua única herança, e Lorde Edmund Cavendish, um aristocrata britânico que vive sob o peso de um segredo trágico e das expectativas de sua linhagem. Publicado pela Kingston Press, o livro já é apontado pela crítica como uma obra-prima da atmosfera, onde a paisagem alpina atua como um personagem ativo. Nesta entrevista exclusiva, Charlie Kingston nos revela o que há por trás das cortinas de veludo e do gelo eterno de sua narrativa.

REDAÇÃO: Charlie, sua escolha pelo anonimato evoca inevitavelmente a figura de Elena Ferrante. Por que decidir, em pleno 2026, que o autor deve ser uma sombra? Essa foi uma exigência sua ou uma estratégia da editora?

CHARLIE: A decisão foi uma convergência de interesses, mas nasceu de uma necessidade pessoal profunda. Vivemos em uma era de superexposição, onde a imagem do autor muitas vezes se torna mais relevante que a densidade do texto. Inspirar-me no modelo de Ferrante não foi apenas uma escolha comercial da Kingston Press, mas um escudo. Como cidadão canadense vivendo em uma pequena comunidade rural no Canadá, prezo pelo silêncio. O pseudônimo "Charlie Kingston" me permite transitar por St. Moritz ou Genebra através da ficção sem que minha vida cotidiana seja alterada. Velar meu nome real é uma forma de garantir que o leitor não projete em Clara ou Edmund os meus próprios traços, mas sim as suas próprias emoções. A editora compreendeu que o mistério em torno da autoria agregaria uma camada de mística à obra, permitindo que o foco total recaia sobre a revisão meticulosa de profissionais como Julie Holiday e a arte de Vitor Zindacta.

REDAÇÃO: Em sua obra, a protagonista Clara Morel luta contra a invisibilidade social. Você sente que, ao usar um pseudônimo, também está optando por uma forma de "invisibilidade"? Como isso se reflete na narrativa?

CHARLIE: Há uma ironia poética nisso. Clara é invisível por imposição social; eu sou invisível por escolha. No livro, Clara, filha de um relojoeiro falido, precisa ser uma "sombra entre as sombras" para sobreviver na mansão dos Von Hohenberg. Essa experiência de observar sem ser notado é o que eu sinto como autor anônimo. Eu posso estar em uma livraria, ver alguém lendo meu livro e permanecer anônimo. Na narrativa, essa percepção me ajudou a construir o olhar aguçado de Clara sobre Lorde Edmund Cavendish. Ela vê através dele justamente porque ninguém a nota. O pseudônimo me dá essa liberdade: a de ser um observador onisciente de um mundo que não sabe quem eu sou, permitindo que o fogo sob o gelo da trama queime com mais autenticidade.

REDAÇÃO: Lorde Edmund Cavendish renuncia à sua herança e ao seu título. No mundo real, você renunciou à sua identidade pública. Existe um paralelo entre o sacrifício dele e a sua escolha de se manter velado?

CHARLIE: Absolutamente. O sacrifício de Edmund é o preço da sua liberdade emocional; a minha renúncia à identidade pública é o preço da minha liberdade criativa. Edmund percebe que o nome "Cavendish" é uma corrente que o prende a um passado de culpa e a um noivado sem amor. Para ele, a redenção só vem quando ele se despe do título para se tornar apenas o homem que ama Clara. Da mesma forma, eu sinto que meu nome real carrega expectativas e histórias que não pertencem a este livro. Ao usar "Charlie Kingston", eu me liberto para ser apenas o narrador. O sucesso de Elena Ferrante provou que o autor não precisa ser uma celebridade para que a obra triunfe. O verdadeiro valor de uma pessoa, como Clara descobre, não reside em títulos ou nomes reais, mas na coragem de ser autêntico, mesmo que em segredo.

REDAÇÃO: O livro passou por um processo colaborativo intenso na Kingston Press. Como foi trabalhar com Julie Holiday na revisão, considerando que ela é uma das poucas pessoas que conhece sua verdadeira identidade?

CHARLIE: Trabalhar com Julie foi essencial para manter o equilíbrio entre o romance e a crítica social. Ela mergulhou no texto com um olhar aguçado, preservando o tom lírico que define minha escrita, enquanto refinava as nuances das classes sociais da época. O fato de ela conhecer meu rosto e minha morada no Canadá criou uma relação de confiança mútua. Ela compreendeu que cada capítulo, da sombra dos Alpes ao triunfo final, precisava refletir essa dualidade entre o que mostramos ao mundo e o que escondemos. A diagramação de Fernando Bertollo e a capa de Vitor Zindacta complementam essa visão: o layout reflete as alternâncias de perspectiva de Clara e Edmund, mantendo o leitor imerso em um mosaico de emoções veladas

REDAÇÃO: Como sua herança cultural canadense e sua morada atual influenciam a escrita de uma história ambientada nos Alpes Europeus do século XIX? Há algo do inverno canadense em St. Moritz?


CHARLIE: Existe uma conexão intrínseca. O inverno nos Alpes, conforme descrito em Rodeada de Neve e Orgulho, é implacável, silencioso e isolador — características que conheço bem morando no norte do Canadá. A neve que cobre minha casa hoje é a mesma que usei como metáfora para o orgulho de Clara Morel. Minha cidadania canadense me dá uma perspectiva de observador: sou um estrangeiro escrevendo sobre a elite europeia, o que me permite identificar as hipocrisias de classes sociais que talvez um autor local considerasse naturais. A distância geográfica da minha morada me oferece a clareza necessária para recriar 1897 com a precisão histórica que a Kingston Press exigiu, sem os ruídos da modernidade urbana.

REDAÇÃO: Charlie, para iniciarmos, como surgiu a semente de Rodeada de Neve e Orgulho e por que escolher os Alpes Suíços do século XIX como pano de fundo para este embate emocional?

CHARLIE: A semente da obra foi plantada pelo fascínio que tenho pelo contraste entre a beleza sublime da natureza e a rigidez das estruturas humanas. Eu queria explorar como o amor sobrevive em ambientes que são, por definição, hostis à vulnerabilidade. Escolhi os Alpes Suíços de 1897 porque aquele era o ápice da "Belle Époque" em St. Moritz — um lugar onde a elite europeia se escondia para exibir sua riqueza, enquanto o mundo lá fora estava em transição. A neve e as montanhas oferecem o isolamento necessário para que dois corações, teoricamente opostos, sejam forçados a se olhar sem as distrações da sociedade. O gelo é metáfora e realidade: ele protege, mas também sufoca.

REDAÇÃO: O subtítulo da obra poderia muito bem ser "uma batalha de classes". Como você define a posição de Clara Morel nessa sociedade estratificada e o que a torna diferente de outras heroínas do gênero?

CHARLIE: Clara é uma heroína que não pede desculpas pela sua inteligência. Ela habita um "não-lugar": é instruída demais para ser apenas uma serva aos olhos dos outros, mas pobre demais para ser aceita como igual pelos hóspedes do hotel. O que a diferencia é a sua consciência de classe. Ela não busca a ascensão social pelo casamento; ela busca a dignidade pelo trabalho e pela verdade. Sua força reside no fato de que, embora possa ser invisível para os aristocratas que serve, ela possui uma visão clara e muitas vezes mordaz sobre a hipocrisia deles. Clara é o fogo que se recusa a apagar sob a nevasca do desprezo alheio.

REDAÇÃO: Lorde Edmund Cavendish é apresentado inicialmente como um homem frio, quase inalcançável. O que se esconde sob essa "máscara de gelo" e como foi construir a vulnerabilidade dele?

CHARLIE: Edmund é um homem cercado por fantasmas. A máscara de gelo que ele usa é uma ferramenta de sobrevivência emocional; ele acredita que, se não sentir nada, não poderá causar mais dor ou senti-la novamente. Ele carrega a culpa pela morte de Amelia, sua noiva anterior, e essa tragédia o transformou em um prisioneiro do dever. Para construir sua vulnerabilidade, precisei mostrar que sua arrogância não era maldade, mas medo. Quando ele encontra Clara, ele não encontra apenas uma mulher atraente, mas alguém que o desafia a ser honesto. A vulnerabilidade dele surge nos pequenos gestos: o modo como ele observa a neve, o silêncio que ele compartilha com ela e a eventual percepção de que sua linhagem é uma jaula dourada.

REDAÇÃO: A Baronesa Von Hohenberg e Lady Cavendish representam a resistência ao romance. Qual a importância dessas figuras antagônicas para a jornada de autodescoberta de Edmund?

CHARLIE: Elas são os pilares do mundo antigo. Lady Cavendish, a mãe de Edmund, representa o dever ancestral — a ideia de que o indivíduo deve ser sacrificado em nome da continuidade da família. Já a Baronesa é a personificação da vigilância social; ela é quem pune qualquer desvio da norma. Elas são essenciais porque o amor de Edmund e Clara precisa ser testado contra o que há de mais poderoso naquela época: a exclusão social e a desonra. Elas forçam Edmund a decidir se ele é o senhor do seu próprio destino ou apenas uma peça em um tabuleiro de xadrez dinástico. Sem o antagonismo delas, a escolha final de Edmund não teria o peso heróico que possui.

REDAÇÃO: O reencontro no chalé isolado durante a nevasca é um ponto de virada fundamental. Por que a natureza precisa intervir para que eles finalmente abandonem o orgulho?

CHARLIE: Porque na sociedade vitoriana tardia, a etiqueta era uma barreira intransponível. Em um salão de baile, eles nunca poderiam ser honestos. Eu precisava remover as roupas de gala, o serviço de mesa e os olhos curiosos. A nevasca atua como uma força equalizadora e bruta. Dentro daquele chalé, não existe Lorde nem governanta; existem apenas dois seres humanos lutando contra o frio. É nesse isolamento que o diálogo flui sem amarras. A natureza intervém para despir as máscaras sociais, provando que, diante da morte iminente ou do frio extremo, o orgulho é um luxo que ninguém pode sustentar. O desgelo lá fora é o que permite o desgelo aqui dentro, no peito de ambos.

REDAÇÃO: Edmund renuncia ao título e à herança em um ato de amor extremo. Você acredita que a redenção de um personagem com o histórico dele só seria possível através desse sacrifício material?

CHARLIE: No caso de Edmund, sim. O título e a herança eram as fontes de seu privilégio, mas também as correntes que o prendiam ao passado e à culpa. Ele precisava perder tudo para descobrir que, na verdade, não tinha nada de valor real antes de Clara. A renúncia é o seu "batismo". Ele prova a Clara — e a si mesmo — que seu amor não é um capricho de aristocrata entediado, mas um compromisso de vida. Para um homem que sempre teve o mundo aos seus pés, abrir mão desse mundo por uma mulher que a sociedade despreza é o ato máximo de coragem e a única forma de ele se redimir verdadeiramente das sombras de Amelia.

REDAÇÃO: Falando sobre o processo editorial, como foi a colaboração com nomes como Julie Holiday e Fernando Bertollo para trazer esta visão à vida?

CHARLIE: Foi uma sinergia extraordinária. Julie Holiday tem um olhar clínico para a cadência do romance histórico; ela ajudou a garantir que a voz de Clara mantivesse sua dignidade mesmo nos momentos de maior desespero. Fernando Bertollo, na diagramação, entendeu perfeitamente a dualidade da obra. Ele criou uma experiência visual onde o leitor sente a transição entre as perspectivas de Clara e Edmund através de detalhes tipográficos que remetem à época. Escrever é um ato solitário, mas transformar esse manuscrito no objeto físico que é Rodeada de Neve e Orgulho foi um esforço coletivo para garantir que a elegância e a melancolia dos Alpes estivessem presentes em cada página.

REDAÇÃO: A capa, assinada por Vitor Zindacta, é visualmente impactante. O que você sentiu ao ver a representação visual de sua história pela primeira vez?

CHARLIE: Senti que ele capturou o "silêncio" do livro. Há uma solidão naquela imagem que precede a paixão. O azul profundo representa a noite alpina e a melancolia de Edmund, enquanto o branco da neve simboliza a pureza e o novo começo que Clara representa. A capa não é apenas bonita; ela é narrativa. Ela comunica ao leitor que este é um livro sobre contrastes: o frio do cenário e o calor do sentimento que floresce apesar de tudo.

REDAÇÃO: No final, a redenção é o tema que prevalece. Que mensagem você gostaria que os leitores levassem consigo após fecharem a última página de Rodeada de Neve e Orgulho?

CHARLIE: Gostaria que os leitores refletissem sobre o que eles mesmos consideram como "riqueza" e "orgulho". Vivemos em uma época diferente, mas as barreiras sociais e o medo da vulnerabilidade continuam presentes. A mensagem central é que a redenção é possível para qualquer um que tenha a coragem de confrontar sua própria verdade, por mais dolorosa que ela seja. Espero que o livro inspire as pessoas a olharem além das aparências e dos títulos — sejam eles nobres ou profissionais — e a valorizarem a conexão humana genuína. O amor de Edmund e Clara triunfa não porque o mundo mudou, mas porque eles mudaram a forma como viam o mundo e a si mesmos.

REDAÇÃO: Charlie,  o que o futuro reserva para você e para a Kingston Press? Podemos esperar mais histórias que explorem as nuances da alma humana em cenários históricos?

CHARLIE: Com certeza. Meu compromisso é continuar explorando esses "espaços entre as notas" da história oficial. Há tantas vozes silenciadas pelo passado que merecem ser ouvidas. Já estou trabalhando em um novo projeto que nos levará a um cenário completamente diferente, mas mantendo a mesma investigação sobre honra, desejo e o custo da liberdade. A Kingston Press continuará sendo o lar dessas narrativas que buscam a beleza na complexidade humana.

REDAÇÃO: Para encerrar, Charlie, o que você espera que o público sinta ao descobrir que o autor de uma história tão intensa sobre o orgulho prefere viver no anonimato de uma vila canadense?

CHARLIE: Espero que sintam que a história é maior do que o escritor. Que, ao virarem a última página de Rodeada de Neve e Orgulho, percebam que o calor de um coração sincero pode derreter qualquer gelo, seja ele as convenções do século XIX ou as pressões da fama moderna. Meu desejo é que Clara e Edmund permaneçam na memória como figuras que ousaram amar sem reservas, e que minha escolha pelo anonimato inspire outros a valorizarem a essência sobre a aparência. A neve continuará a cair sobre minha morada no Canadá, e eu continuarei a escrever, protegido pelo pseudônimo que me permite ser, ao mesmo tempo, ninguém e todos os meus personagens.

Comentários

CONTINUE LENDO