![]() |
| Após era BRAT Charli XCX estreia single com anúncio de novo álbum • Instagram / Charli XCX |
The Moment não é um documentário de turnê convencional, embora utilize sua estética para desconstruir o fenômeno que o originou. O filme surge como uma extensão direta do ecossistema criativo que Charli XCX estabeleceu em 2024 com o álbum Brat, mas opera sob a lente do mockumentary (falso documentário). A narrativa acompanha uma versão hiperbólica e, nas palavras da própria artista, "infernal" de si mesma, enquanto se prepara para sua primeira grande turnê em arenas.
A escolha de Aidan Zamiri para a direção — colaborador de longa data em clipes como "360" — garante uma continuidade visual que os entusiastas reconhecerão instantaneamente: a câmera instável, o uso de texturas digitais lo-fi e a montagem frenética de Neal Farmer. O roteiro, assinado por Zamiri e Bertie Brandes, estabelece uma premissa de "escolhas erradas". O filme explora o que teria acontecido se a busca pela viralidade e a pressão corporativa tivessem suplantado a integridade artística da protagonista.
A cinematografia de Sean Price Williams (The Sweet East) confere ao longa uma pátina de realismo sujo que contrasta com o glamour da indústria. Não se trata apenas de uma paródia, mas de uma simulação de colapso nervoso mediado por contratos publicitários e expectativas de fãs. Para o espectador neutro, a estrutura pode parecer caótica; para o analista, é uma representação fiel da fragmentação da identidade na era das redes sociais.
The Moment, obra que se manifesta como o ponto de culminância de um projeto estético iniciado na música pop e agora transposto para o rigor do cinema de vanguarda da A24. Sob a direção de Aidan Zamiri e com a visão central de Charli XCX, o filme se apresenta como uma resposta direta à cultura da vigilância constante e à performatividade digital, estruturando-se através de uma narrativa que desafia a classificação convencional entre o real e o simulado. No primeiro grande bloco de análise, observamos que a estrutura narrativa opta pelo dispositivo do mockumentary não apenas como recurso humorístico, mas como uma ferramenta de autópsia da fama contemporânea. O longa-metragem evita a linearidade das cinebiografias tradicionais para mergulhar em um caos meticulosamente coreografado, onde a cinematografia de Sean Price Williams captura a crueza de bastidores que parecem reais demais para serem encenados, mas são estritamente roteirizados. Esta dualidade coloca o espectador em uma posição de desconforto deliberado, forçando uma reflexão sobre a autenticidade das imagens que consumimos diariamente em nossos dispositivos móveis.
Por um lado, parte da crítica especializada saúda o filme como um testamento da inteligência artística de sua protagonista, elogiando a coragem de expor as engrenagens muitas vezes grotescas da indústria fonográfica. Por outro, críticos de vertentes mais tradicionais apontam que o filme pode se perder em sua própria metalinguagem, tornando-se um artefato fechado em si mesmo que exige do público um conhecimento prévio profundo sobre o ecossistema cultural de 2024 e 2025. O tom do filme é marcado por um niilismo seco, desprovido do sentimentalismo que geralmente ancora filmes de artistas pop, o que resulta em uma obra que é ao mesmo tempo magnética e repulsiva, dependendo da disposição do espectador em aceitar o artifício como forma de verdade. Percebe-se uma estratégia de curadoria que visa fundir o prestígio intelectual com a cultura das celebridades. A presença de figuras icônicas do mainstream ao lado de atores do cinema independente cria um contraste visual e rítmico que serve para ilustrar a tese central da obra: a dissolução das barreiras entre o alta e a baixa cultura. Entusiastas da estética hyper-pop encontram no filme um registro visual definitivo de uma era, enquanto cinéfilos interessados em novas linguagens narrativas observam com interesse como a montagem fragmentada de Neal Farmer mimetiza o fluxo de consciência de uma geração saturada por informações. Não se busca aqui o consenso, mas a provocação, e as reações nas redes sociais confirmam que o filme cumpre seu papel de ser um objeto de debate exaustivo e de múltiplas interpretações.
A trilha sonora por A.G. Cook atua como uma espinha dorsal sônica que intensifica a sensação de urgência e desorientação, elevando o filme para além do visual. Para o espectador que busca uma experiência puramente estética, o longa oferece um banquete de texturas digitais e escolhas de figurino que certamente influenciarão as próximas temporadas de moda e design. No entanto, para aqueles que buscam uma compreensão mais profunda, a obra permanece como um espelho incômodo de uma sociedade que transformou a existência em um espetáculo ininterrupto. O filme termina sem oferecer resoluções fáceis, consolidando-se como um estudo de personagem que é, na verdade, um estudo sobre o nosso próprio tempo e sobre como escolhemos ser vistos em um mundo onde o "momento" é tudo o que nos resta.
