A análise da obra Estudo sobre a Fé Salvífica, de Arthur W. Pink, revela um autor profundamente preocupado com a integridade do evangelismo moderno, denunciando o que ele considera uma decadência espiritual sem precedentes na Cristandade. Pink inicia seu tratado com uma advertência severa: a crença otimista de que o Evangelho está sendo amplamente pregado e que multidões estão sendo salvas é, em sua visão, uma suposição mal fundada e alicerçada na areia. Ele argumenta que o evangelismo contemporâneo é radicalmente defeituoso por carecer de elementos vitais para uma conversão genuína, como a consciência profunda do pecado e a necessidade de vidas transfiguradas. Para o autor, a mensagem transmitida em púlpitos ortodoxos tornou-se um narcótico espiritual que ilude dezenas de milhares de pessoas, destinando-as a uma terrível desilusão pós-morte.
O cerne da crítica de Pink reside na desproporção teológica da pregação moderna. Ele observa que a misericórdia divina é apresentada com muito mais proeminência do que a santidade de Deus, e Seu amor mais do que Sua ira. Há uma omissão fatal daquilo que comunica o conhecimento do pecado, resultando em uma mensagem superficial que oferece um perdão pleno mediante o simples ato de aceitar a Cristo como Salvador pessoal, sem que haja uma ruptura real com o pecado ou a submissão ao Seu senhorio. Pink classifica essa abordagem como atirar pérolas aos porcos, pois ignora que o Evangelho não é independente da Lei de Deus, mas sim a prova máxima da inexorabilidade da justiça divina e do ódio de Deus ao pecado.
Ao examinar as Escrituras, Pink utiliza o exemplo do carcereiro de Filipos para demonstrar que o comando "crê no Senhor Jesus Cristo" não era dirigido a uma multidão indiferente, mas a um indivíduo em particular que já havia testemunhado o poder milagroso de Deus e se encontrava em profundo desespero e contrição. Ele argumenta que aplicar tais palavras a quem está cego para seu estado depravado é uma tolice comparável a colocar sais para cheirar no nariz de alguém inconsciente. O autor insiste que o mundo não estava pronto para o Novo Testamento antes de receber o Antigo, e que ninguém está preparado para o Evangelho até que a Lei seja aplicada ao coração, gerando o conhecimento do pecado. Sem o arado da Lei, a semente da graça cai em solo duro.
Pink redefine a natureza da salvação de Cristo, afirmando que Ele não é um Salvador do Inferno, mas um Salvador do pecado. Milhares de pessoas desejam escapar do castigo eterno, mas poucas desejam ser libertas de sua carnalidade e mundanismo. De acordo com o autor, Cristo só é Salvador para aqueles que sentem o fardo pavoroso do pecado, desprezam a si mesmos por isso e anelam pela libertação de seu domínio. Pensar que alguém pode ser salvo sem que a consciência tenha sido golpeada pelo Espírito é, para Pink, imaginar algo que não existe na realidade dos fatos bíblicos. Portanto, a tarefa principal do evangelista deve ser pregar sobre a enormidade do pecado e as múltiplas ações deste no coração humano.
A obra desafia a concepção prevalecente de que a salvação é um dom gratuito que não exige nada do pecador além da fé mental. Embora Pink afirme que a salvação é exclusivamente pela graça, ele pontua que uma mão vazia deve recebê-la, e não uma que ainda se agarra fortemente ao mundo. O pecador deve executar atos de arrependimento, como o filho pródigo que se levantou e foi ao pai; ele não foi salvo por esses atos, mas não poderia ser salvo sem eles. O arrependimento é descrito como um repúdio de coração ao pecado e uma determinação de deixá-lo. Onde há verdadeiro arrependimento, a graça está livre para atuar, pois as exigências de santidade são conservadas.
Um dos pontos mais polêmicos do texto é a distinção entre receber a Cristo como Salvador e como Senhor. Pink argumenta que ninguém pode receber o primeiro sem o segundo. A perversão do Evangelho ocorre quando se garante o Céu a quem despreza a autoridade de Cristo e recusa Seu jugo. O autor observa que, nas Escrituras, a ordem dos títulos é sempre Senhor e Salvador, e nunca o contrário. Aqueles que não entronizaram Cristo em seus corações e vidas, mas afirmam confiar nEle, estão iludidos. Cristo é a causa da salvação eterna apenas para todos os que Lhe obedecem. Pink conclui o primeiro bloco de sua análise exortando o povo de Deus a não comunicar com as obras infrutuosas das trevas, o que inclui rejeitar o que ele chama de monstruosidade evangelística corrente, que oferece salvação sem arrependimento e sem a renúncia aos ídolos.
Arthur W. Pink disseca a natureza da fé que une vitalmente a alma a Cristo, diferenciando-a das inúmeras falsificações que, segundo ele, povoam o cenário religioso contemporâneo
Pink identifica diversas formas de "fés" não salvíficas, citando exemplos bíblicos para sustentar a sua tese. Ele menciona Simão, o mago, que creu e foi batizado, mas cujo coração não era reto perante Deus
W. Pink estabelece que este movimento não é uma ação física ou uma mera decisão mental, mas sim o resultado de um processo sobrenatural que envolve o entendimento, as afeições e a vontade. O autor reitera que o homem natural, em seu estado de depravação, é incapaz de realizar esse movimento por conta própria, pois sua mente está em trevas e seu coração mantém uma inimizade inerente contra Deus. A vinda a Cristo é, portanto, apresentada como o fruto de um milagre da graça divina, operado pelo Espírito Santo naqueles que o Pai entregou ao Filho.
Pink detalha que a primeira etapa desse processo é a iluminação do entendimento. Sem um conhecimento adequado de quem é Cristo, a alma não pode se mover em Sua direção. No entanto, o autor faz uma distinção crucial entre o conhecimento teórico, que muitos adquirem pelo estudo intelectual das Escrituras, e o conhecimento espiritual e vital, que é comunicado diretamente pelo Espírito Santo. Enquanto o primeiro pode levar apenas ao orgulho e à jactância ortodoxa, o segundo humilha o pecador, revelando sua condição de "leproso espiritual" e sua necessidade desesperada de um Salvador. Esse entendimento renovado faz com que a pessoa veja a Cristo não apenas como uma figura histórica, mas como a única solução para sua enfermidade espiritual.
A segunda dimensão da vinda a Cristo diz respeito às afeições. Pink argumenta que ninguém virá salvificamente ao Senhor enquanto seu coração estiver alienado dEle e unido aos prazeres do mundo. O Espírito Santo atua inclinando as afeições do eleito, transformando a resistência em desejo. O autor utiliza a figura bíblica de Cantares de Salomão para descrever como o Amado mete a mão pela fresta da porta, fazendo com que as entranhas da alma estremecam de amor por Ele. Este novo afeto não é parcial; ele não busca apenas os benefícios de Cristo, mas ama Sua santidade e Seu governo. O verdadeiro amor da Verdade é diferenciado do mero interesse religioso por sua regularidade, permanência e poder transformador sobre a conduta.
A culminação desse processo ocorre na vontade. Embora o ato de vir a Cristo seja, em última análise, um ato volitivo, a vontade só se move após o entendimento ser iluminado e as afeições serem vivificadas. Pink rejeita a noção arminiana de que o homem possui um livre-arbítrio capaz de escolher a salvação a qualquer momento. Em vez disso, ele afirma que a vontade humana está tão acorrentada ao pecado que somente a influência irresistível do Espírito Santo pode dobrá-la. O poder divino não trata o homem como um autômato, mas o persuade moralmente, vencendo sua obstinação e tornando-o um voluntário no "dia do Seu poder". É uma entrega completa onde o pecador depõe as armas de sua rebelião e aceita o jugo de Cristo.
O autor também aborda os obstáculos que impedem o homem natural de vir a Cristo, enfatizando que a incapacidade não reside na falta de faculdades físicas ou mentais — o pecador tem pés para ir à igreja e olhos para ler a Bíblia —, mas na perversão de sua natureza. Ele usa a analogia do urubu, que tem órgãos para comer grãos como uma galinha, mas não possui a disposição para tal, preferindo a carniça. Da mesma forma, o não regenerado possui as faculdades para buscar a Deus, mas não tem amor pelas coisas espirituais. Por isso, Pink insiste que a pregação deve focar na necessidade absoluta do novo nascimento, sem o qual ninguém pode ver ou entrar no Reino de Deus.
Ao encerrar esta seção, Pink propõe uma série de testes para verificar a autenticidade dessa vinda. Ele alerta que muitos se enganam ao confundir o excitar das emoções sob uma pregação com a real vivificação das afeições. Outros descansam em promessas bíblicas sem nunca terem se apoderado do Tesouro — o próprio Cristo — que as promessas contêm. O autor cita John Bunyan para definir as marcas dos que realmente estão vindo: eles choram pelo pecado como algo amargo, fogem dele como de uma serpente mortal e prezam o valor de uma única gota do sangue de Cristo acima de todos os bens do mundo. A vinda genuína é evidenciada por uma vida de dependência diária, onde o salvo volta-se constantemente ao Senhor para tirar de Sua plenitude graça sobre graça.
O autor argumenta que a garantia da salvação não deve ser baseada em sentimentos efêmeros ou numa decisão tomada no passado, mas em evidências concretas de uma obra de graça no coração. Para Pink, a distinção entre a fé dos eleitos e a fé dos hipócritas reside não apenas na intensidade da crença, mas na natureza dos seus frutos. Ele defende que o verdadeiro crente é caracterizado por um conflito contínuo e doloroso entre a carne e o espírito, uma batalha que o hipócrita desconhece, pois este último vive numa falsa paz, fundamentada na ignorância do seu próprio estado depravado.
O autor explora a necessidade de uma introspeção rigorosa, exortando o leitor a testar-se à luz das Escrituras. Pink critica a tendência moderna de desencorajar a autoexaminação sob o pretexto de que olhar para si mesmo é tirar os olhos de Cristo. Ele rebate esta ideia afirmando que, embora Cristo seja o único fundamento da esperança, as evidências da união com Ele devem ser buscadas na alma. A fé salvífica, segundo o tratado, produz necessariamente uma mudança de apetite espiritual. O salvo passa a amar o que Deus ama e a odiar o que Deus odeia. A santidade deixa de ser um dever pesado para se tornar o desejo mais profundo do ser, ainda que o crente lamente constantemente as suas falhas em atingir a perfeição exigida pela Lei divina.
Um dos pontos mais enfáticos desta conclusão é a doutrina da perseverança. Pink esclarece que a perseverança dos santos não significa que o crente nunca cai, mas sim que ele nunca cai totalmente nem finalmente. A graça de Deus atua restaurando o arrependimento e renovando a fé. O autor alerta que aqueles que usam a doutrina da "segurança eterna" como uma licença para a frouxidão moral ou para a conformidade com o mundo provam, por esse mesmo comportamento, que nunca foram verdadeiramente regenerados. A verdadeira segurança é acompanhada por um temor santo e por uma vigilância constante contra o pecado. A alma que realmente provou a graça divina é a alma que mais teme ofender o seu Benfeitor.
Pink dedica uma parte considerável deste encerramento à questão das obras. Ele é cuidadoso em manter a distinção teológica de que não somos salvos pelas obras, mas que não existe salvação sem elas. As boas obras são descritas como o "fôlego da fé"; assim como um corpo sem fôlego está morto, uma fé sem obras é apenas um cadáver religioso. Estas obras não são meros atos de caridade externa, mas procedem de um coração purificado, são realizadas segundo a regra da Palavra de Deus e visam unicamente a Sua glória. O autor insiste que o cristão deve ser conhecido pela sua integridade, pela sua humildade e pela sua separação do espírito deste século, que ele classifica como essencialmente idólatra e rebelde.
A obra termina com uma advertência solene sobre o perigo da procrastinação e da presunção. Pink observa que muitos esperam pela morte para descobrir o seu destino eterno, quando as evidências já estão presentes no seu modo de vida atual. Ele desafia o leitor a abandonar qualquer confiança na justiça própria ou em ritos religiosos externos. O "Deus das Escrituras", conforme apresentado no encerramento do livro, é um Deus de justiça inflexível que não inocenta o culpado, mas que oferece misericórdia infinita àqueles que, movidos por uma fé divinamente concedida, se refugiam em Cristo e se submetem ao Seu cetro.
Em última análise, o Estudo sobre a Fé Salvífica é um apelo ao retorno às raízes do puritanismo teológico, onde a conversão é entendida como uma revolução radical no íntimo do homem. Arthur W. Pink conclui a sua exposição reafirmando que a salvação pertence ao Senhor de princípio ao fim. O objetivo final do texto não é apenas informar a mente, mas despojar o pecador de toda a sua autoconfiança, conduzindo-o a uma dependência absoluta da soberania divina. Para o autor, apenas quando o homem é reduzido ao nada é que ele pode verdadeiramente apreciar a magnitude da glória de Cristo e a eficácia da fé que, operando pelo amor, vence o mundo e conduz à vida eterna.

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