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Resenha: Ódio ao poema, de Vitor Miranda

Ódio ao Poema , de Vitor Miranda, é uma obra que se posiciona deliberadamente contra a própria tradição que a sustenta: a poesia. Desde o título, há um gesto provocativo, quase iconoclasta, que sugere uma negação do fazer poético — mas que, paradoxalmente, só pode existir dentro dele. O livro se apresenta como uma espécie de manifesto fragmentado, um anti-poema que, ao atacar a poesia, revela sua permanência e inevitabilidade. A obra mergulha em um fluxo textual que mistura crítica social, violência urbana, ironia, metalinguagem e referências culturais diversas. Em vez de buscar a beleza tradicional ou a musicalidade clássica, Miranda aposta no choque, na repetição, na ruptura e na saturação. O poema deixa de ser objeto estético elevado para se tornar um corpo ferido, um organismo em decomposição, um produto de mercado, uma vítima e, simultaneamente, um agente de denúncia. Mais do que um livro de poesia, Ódio ao Poema é uma reflexão radical sobre o lugar da literatura em um mundo ma...

CRÍTICA | Sem Saída (2011)

A crítica cinematográfica exige, por vezes, um olhar atento àquilo que o cinema de gênero oferece como entretenimento puro, e "Sem Saída" (Abduction, 2011), sob a batuta do diretor John Singleton, é um exemplo contundente de como o suspense adolescente pode ser bem executado quando alinhado a uma narrativa de ritmo acelerado e constante movimento. Protagonizado por Taylor Lautner, o filme não se propõe a revolucionar a sétima arte, mas cumpre com louvor a sua missão de entregar um thriller de perseguição que mantém a tensão em níveis elevados desde a primeira cena. A premissa que ancora o filme é um clássico moderno da desconfiança: Nathan Harper, um estudante vivendo o tédio suburbano, descobre involuntariamente que toda a sua existência foi baseada em uma mentira. A partir do momento em que encontra sua foto em um banco de dados de crianças desaparecidas, a película abandona qualquer pretensão de drama cotidiano para mergulhar em uma espiral de espionagem, traições e segred...

Onde ler livros gratuitos na internet: 50 plataformas confiáveis reunidas

Em um cenário em que o acesso ao conhecimento ainda esbarra em barreiras econômicas e geográficas, cresce o número de iniciativas que disponibilizam livros digitais de forma gratuita e legal. Plataformas como o Portal Domínio Público , o Projeto Gutenberg e o Internet Archive consolidam um movimento que une universidades, fundações e organizações independentes em torno da democratização da leitura. De acervos acadêmicos especializados a bibliotecas digitais de alcance global, esses repositórios oferecem desde clássicos da literatura até obras científicas contemporâneas em acesso aberto. A seguir, reunimos uma curadoria abrangente de sites confiáveis que permitem baixar ou ler livros gratuitamente em diferentes formatos, ampliando as possibilidades de estudo, pesquisa e formação de leitores em todo o mundo. Site Link + Descrição Portal Domínio Público Acessar site — Biblioteca do governo brasileiro Projeto Gutenberg https://www.gutenberg.org/ — Clássicos domínio público Internet Ar...

Com adesão nacional, primeira Noite das Livrarias mobiliza mais de 80 espaços em 30 cidades brasileiras

Inspirada em tradicionais circuitos literários internacionais, a Noite das Livrarias chega à sua edição brasileira consolidando-se como um dos principais movimentos de valorização das livrarias de rua no país. Marcado para o dia 24 de abril, data em que se celebra o Dia Mundial do Livro, o evento reúne, nesta edição, 86 livrarias distribuídas por 30 cidades, alcançando nove estados e o Distrito Federal. A iniciativa, que teve origem em São Paulo a partir de uma articulação entre livreiros ligados ao projeto Mapa das Livrarias de Rua, rapidamente ultrapassou os limites da capital paulista e ganhou projeção nacional. Embora São Paulo ainda concentre cerca de metade da programação, a expansão do circuito evidencia seu alcance: Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Pará, Santa Catarina, Rondônia e Paraná, além de Brasília, integram o calendário de atividades. O engajamento do público acompanha o crescimento do evento. Nas redes sociais, a Noite das Livrari...

Dahmer revisita o desamor em edição renovada de "A coragem do primeiro pássaro"

Imagem: Imprensa lote 42 / Divulgação A nova edição de A Coragem do Primeiro Pássaro reafirma a potência de uma obra que, desde seu lançamento original em 2015, já se destacava como um dos trabalhos mais sensíveis e contundentes da trajetória de André Dahmer , agora revisitados em um projeto editorial que amplia suas camadas de leitura e aprofunda o diálogo entre palavra e imagem. Publicado em coedição pelas independentes Lote 42 e Impressões de Minas , o livro retorna às livrarias com ilustrações inéditas do próprio autor, prefácio assinado por Fabio Weintraub e um projeto gráfico inteiramente reformulado, consolidando-se como uma edição que não apenas recupera, mas ressignifica o impacto do texto original. A obra se estrutura como um percurso emocional que investiga a experiência da separação conjugal sem recorrer a fórmulas previsíveis ou sentimentalismos fáceis, organizando-se em três atos — “Vocês não me conhecem”, “Agora é guerra” e “Era ela era para ser” — que delineiam uma t...

Tempos Modernos de Sophie, Aline e Robert Crumb

A consagração de Robert Crumb como uma das figuras mais influentes da história dos quadrinhos ganha um novo capítulo com a chegada ao Brasil de Tempos Modernos , uma antologia que reúne trabalhos inéditos do autor ao lado de Aline Kominsky-Crumb e Sophie Crumb . O lançamento reforça não apenas a relevância contínua de Crumb no cenário artístico contemporâneo, mas também a potência de um olhar familiar que atravessa gerações para interpretar o caos do século XXI com humor ácido, crítica social e uma honestidade desconcertante. A recepção crítica ao longo das décadas ajuda a dimensionar o peso do nome envolvido: de Art Spiegelman a Alan Moore , passando por Matt Groening e Chris Ware , há um consenso raro em torno da grandeza de Crumb, frequentemente descrito como um artista que redefiniu os limites do que os quadrinhos poderiam abordar em termos de linguagem, temática e liberdade criativa. Não se trata apenas de influência estética, mas de uma ruptura estrutural que abriu caminho pa...

Ruy Antônio Barata lança Esse Rio é Minha Rua em SP

Imagem: Divulgação O lançamento de um livro pode, por vezes, representar apenas a chegada de uma nova obra ao mercado editorial; em outros casos, no entanto, torna-se um acontecimento cultural capaz de iluminar trajetórias individuais e coletivas, resgatando memórias que ajudam a compreender o país em suas múltiplas camadas históricas e sociais, como é o caso de Esse Rio é Minha Rua , estreia literária de Ruy Antônio Barata , que será apresentada ao público paulistano em um evento especial na Livraria da Vila, reunindo leitores, críticos e interessados em uma narrativa que atravessa quase um século da história brasileira a partir de uma perspectiva profundamente íntima e, ao mesmo tempo, amplamente política. A obra, publicada pela Editora Paka-Tatu , não se limita a reconstruir a trajetória de uma família, mas propõe uma investigação sensível sobre a formação da identidade nacional, especialmente no que diz respeito à relação entre a Amazônia e os grandes movimentos políticos do Brasil...

Poder e Socialismo no Século XXI: A Experiência Chinesa e a Reinvenção do Marxismo

JABBOUR, Elias; BOER, Roland. Poder e socialismo: governança, classes, ciência e projetamento na China . Apresentação de José Paulo Netto. São Paulo: Boitempo, 2026. ISBN 978-65-5717-548-4. Classificação: CDD 330.951; CDU 330.342.151(510). Poder e socialismo se insere como uma obra de alta densidade teórica que pretende não apenas interpretar a experiência chinesa contemporânea, mas sobretudo reformular categorias fundamentais do marxismo à luz do século XXI, partindo do pressuposto de que o instrumental clássico, embora indispensável, tornou-se insuficiente diante das transformações históricas recentes. Logo na introdução, os autores deixam claro que conceitos como modo de produção, formação econômico-social e lei do valor exigem atualização, uma vez que foram elaborados em um contexto histórico distinto, afirmando que “é uma necessidade teórica urgente reinterpretar e reelaborar esses conceitos para torná-los mais adequados à compreensão do mundo no século XXI” (p. 27) . Essa propo...

Crítica | Pixels (2015)

O cinema de entretenimento contemporâneo tem na nostalgia um dos seus pilares mais lucrativos e, simultaneamente, mais controversos. Ao longo da última década, vimos a cultura pop ser revisitada, reembalada e vendida como um produto de consumo imediato para gerações que cresceram sob a influência de ícones específicos. O filme Pixels, dirigido por Chris Columbus, insere-se precisamente nessa dinâmica, utilizando a iconografia dos videogames clássicos dos anos 1980 como o núcleo de uma invasão alienígena que ameaça a existência da humanidade. A premissa, embora fantasiosa e inerentemente absurda, serve como uma lente através da qual o filme examina não apenas o valor cultural de uma era analógica prestes a ser engolida pela digitalização, mas também o arquétipo do indivíduo deslocado, o nerd que, através de uma guinada do destino, vê suas habilidades obsoletas serem ressignificadas como fundamentais para a sobrevivência global. A obra, estrelada por Adam Sandler, Kevin James, Peter Dink...

Crítica | A mentira (2010)

A comédia adolescente é um gênero historicamente marcado por tropos repetitivos, estruturas narrativas previsíveis e uma constante busca por validação social dentro do microcosmo que é o ambiente escolar. No entanto, ocasionalmente, surge uma obra que, embora se utilize desses mesmos alicerces, consegue subverter as expectativas ao injetar uma dose necessária de ironia, inteligência e autoconsciência. O filme A Mentira, lançado em 2010, posiciona-se exatamente nesse limiar, funcionando não apenas como um exemplar do gênero voltado para o amadurecimento, mas como uma sátira mordaz sobre a cultura da reputação, o julgamento alheio e a velocidade com que a informação, verdadeira ou falsa, se propaga em uma sociedade hiperconectada. Protagonizado por uma Emma Stone em estado de graça, que aqui solidifica seu carisma magnético e timing cômico afiado, o filme propõe uma reflexão sobre a necessidade humana de ser notado, ainda que o preço a pagar seja a construção de uma imagem pública comple...