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Tempos Modernos de Sophie, Aline e Robert Crumb

A consagração de Robert Crumb como uma das figuras mais influentes da história dos quadrinhos ganha um novo capítulo com a chegada ao Brasil de Tempos Modernos , uma antologia que reúne trabalhos inéditos do autor ao lado de Aline Kominsky-Crumb e Sophie Crumb . O lançamento reforça não apenas a relevância contínua de Crumb no cenário artístico contemporâneo, mas também a potência de um olhar familiar que atravessa gerações para interpretar o caos do século XXI com humor ácido, crítica social e uma honestidade desconcertante. A recepção crítica ao longo das décadas ajuda a dimensionar o peso do nome envolvido: de Art Spiegelman a Alan Moore , passando por Matt Groening e Chris Ware , há um consenso raro em torno da grandeza de Crumb, frequentemente descrito como um artista que redefiniu os limites do que os quadrinhos poderiam abordar em termos de linguagem, temática e liberdade criativa. Não se trata apenas de influência estética, mas de uma ruptura estrutural que abriu caminho pa...

Ruy Antônio Barata lança Esse Rio é Minha Rua em SP

Imagem: Divulgação O lançamento de um livro pode, por vezes, representar apenas a chegada de uma nova obra ao mercado editorial; em outros casos, no entanto, torna-se um acontecimento cultural capaz de iluminar trajetórias individuais e coletivas, resgatando memórias que ajudam a compreender o país em suas múltiplas camadas históricas e sociais, como é o caso de Esse Rio é Minha Rua , estreia literária de Ruy Antônio Barata , que será apresentada ao público paulistano em um evento especial na Livraria da Vila, reunindo leitores, críticos e interessados em uma narrativa que atravessa quase um século da história brasileira a partir de uma perspectiva profundamente íntima e, ao mesmo tempo, amplamente política. A obra, publicada pela Editora Paka-Tatu , não se limita a reconstruir a trajetória de uma família, mas propõe uma investigação sensível sobre a formação da identidade nacional, especialmente no que diz respeito à relação entre a Amazônia e os grandes movimentos políticos do Brasil...

Poder e Socialismo no Século XXI: A Experiência Chinesa e a Reinvenção do Marxismo

JABBOUR, Elias; BOER, Roland. Poder e socialismo: governança, classes, ciência e projetamento na China . Apresentação de José Paulo Netto. São Paulo: Boitempo, 2026. ISBN 978-65-5717-548-4. Classificação: CDD 330.951; CDU 330.342.151(510). Poder e socialismo se insere como uma obra de alta densidade teórica que pretende não apenas interpretar a experiência chinesa contemporânea, mas sobretudo reformular categorias fundamentais do marxismo à luz do século XXI, partindo do pressuposto de que o instrumental clássico, embora indispensável, tornou-se insuficiente diante das transformações históricas recentes. Logo na introdução, os autores deixam claro que conceitos como modo de produção, formação econômico-social e lei do valor exigem atualização, uma vez que foram elaborados em um contexto histórico distinto, afirmando que “é uma necessidade teórica urgente reinterpretar e reelaborar esses conceitos para torná-los mais adequados à compreensão do mundo no século XXI” (p. 27) . Essa propo...

Crítica | Pixels (2015)

O cinema de entretenimento contemporâneo tem na nostalgia um dos seus pilares mais lucrativos e, simultaneamente, mais controversos. Ao longo da última década, vimos a cultura pop ser revisitada, reembalada e vendida como um produto de consumo imediato para gerações que cresceram sob a influência de ícones específicos. O filme Pixels, dirigido por Chris Columbus, insere-se precisamente nessa dinâmica, utilizando a iconografia dos videogames clássicos dos anos 1980 como o núcleo de uma invasão alienígena que ameaça a existência da humanidade. A premissa, embora fantasiosa e inerentemente absurda, serve como uma lente através da qual o filme examina não apenas o valor cultural de uma era analógica prestes a ser engolida pela digitalização, mas também o arquétipo do indivíduo deslocado, o nerd que, através de uma guinada do destino, vê suas habilidades obsoletas serem ressignificadas como fundamentais para a sobrevivência global. A obra, estrelada por Adam Sandler, Kevin James, Peter Dink...

Crítica | A mentira (2010)

A comédia adolescente é um gênero historicamente marcado por tropos repetitivos, estruturas narrativas previsíveis e uma constante busca por validação social dentro do microcosmo que é o ambiente escolar. No entanto, ocasionalmente, surge uma obra que, embora se utilize desses mesmos alicerces, consegue subverter as expectativas ao injetar uma dose necessária de ironia, inteligência e autoconsciência. O filme A Mentira, lançado em 2010, posiciona-se exatamente nesse limiar, funcionando não apenas como um exemplar do gênero voltado para o amadurecimento, mas como uma sátira mordaz sobre a cultura da reputação, o julgamento alheio e a velocidade com que a informação, verdadeira ou falsa, se propaga em uma sociedade hiperconectada. Protagonizado por uma Emma Stone em estado de graça, que aqui solidifica seu carisma magnético e timing cômico afiado, o filme propõe uma reflexão sobre a necessidade humana de ser notado, ainda que o preço a pagar seja a construção de uma imagem pública comple...

Crítica | Red: Aposentados e Perigosos (2010)

Red: Aposentados e Perigosos é uma obra que, à primeira vista, se apresenta como uma comédia de ação despretensiosa, mas que revela, sob sua superfície explosiva, uma meditação fascinante sobre a obsolescência profissional, a camaradagem forjada no perigo e o direito de manter a dignidade após uma vida inteira de serviço sacrificado. Lançado em um período onde o cinema de ação ainda estava fortemente dominado por protagonistas jovens e atléticos, o filme dirigido por Robert Schwentke subverteu as expectativas ao reunir um elenco de veteranos de Hollywood, todos eles ícones do cinema em diferentes graus, para interpretar agentes da CIA que, tendo sido descartados pelo sistema por terem se tornado inconvenientes ou simplesmente velhos demais, decidem que não aceitarão o apagamento silencioso. A premissa gira em torno de Frank Moses, interpretado por Bruce Willis com uma sobriedade que serve de contraponto perfeito à loucura ao seu redor, um homem que descobre que sua aposentadoria tranqu...

Crítica | O protetor (2014)

O cinema de ação contemporâneo frequentemente se perde em um emaranhado de efeitos visuais excessivos, cortes rápidos que impedem a compreensão espacial e uma superficialidade narrativa que reduz o herói a uma máquina de matar sem alma. Em contrapartida, O Protetor surge como uma peça de resistência, um estudo de personagem meticuloso que utiliza os códigos do gênero não apenas para criar sequências de violência estilizada, mas para investigar a natureza da redenção, do silêncio e da moralidade em um mundo inerentemente corrupto. Ao longo da narrativa, somos apresentados a Robert McCall, um homem que personifica a dualidade entre a rotina mundana de um trabalhador comum e o passado letal de um ex-agente secreto. A introdução do personagem é um exercício de paciência cinematográfica, estabelecendo sua disciplina quase monástica, seu hábito de leitura noturna em uma lanchonete e a precisão cirúrgica com que conduz sua existência. O filme não tem pressa em revelar a extensão de suas habil...

Crítica | A cabana (2017)

A narrativa cinematográfica que se propõe a explorar os recônditos da fé, do luto e da natureza divina é, por definição, uma empreitada que caminha sobre o fio da navalha. O filme A Cabana, dirigido por Stuart Hazeldine, não é apenas uma adaptação do best-seller de William P. Young, mas uma tentativa ambiciosa de visualizar o invisível e de dar corpo a conceitos teológicos que, durante séculos, foram confinados ao território da abstração metafísica. A história de Mack Phillips, um homem cuja vida é fragmentada pela perda traumática de sua filha mais nova durante um acampamento, serve como a lente pela qual somos convidados a observar não apenas a dor humana, mas a própria estrutura de um universo onde o sofrimento parece coexistir com a promessa de um amor absoluto. O filme abre com a construção meticulosa do trauma: a infância de Mack, marcada por um pai abusivo e um sentimento profundo de abandono, cria o terreno fértil para que a sua fé adulta seja frágil e questionadora. É nessa ba...