Em Crítica da Razão Dialética, Jean-Paul Sartre realiza um dos movimentos mais complexos de sua trajetória intelectual: retomar o marxismo sem aceitá-lo como sistema fechado. O que está em jogo não é abandonar a tradição marxista, mas impedir que ela se transforme em dogma. Sartre identifica que parte do marxismo do século XX passou a operar a partir de uma ideia de totalidade já pronta, como se a história obedecesse a leis fixas e como se os indivíduos fossem apenas efeitos de estruturas econômicas imutáveis. Ao fazer isso, teria esvaziado a dimensão viva da práxis e separado teoria e ação.
A crítica central consiste em mostrar que pensar a história como totalidade acabada significa anular sua temporalidade. Uma totalidade pronta dissolve o singular no universal e converte a ação em simples execução de um roteiro estrutural. Sartre propõe outra via: substituir a noção de totalidade pela de totalização. Totalizar-se é estar em processo, é constituir-se no tempo, é manter aberto aquilo que nunca se encerra. A dialética, nessa perspectiva, não é uma lei externa aplicada aos fatos, mas o próprio movimento da ação humana em situação. A razão dialética só encontra sua inteligibilidade quando compreendida como movimento em curso, nunca como sistema cristalizado.
Essa distinção permite preservar a tensão entre estrutura e subjetividade sem reduzir uma à outra. O indivíduo age em condições historicamente determinadas, mas não é absorvido por elas. A história não é produto exclusivo da vontade individual, mas tampouco é mecanismo automático. A totalização é sempre singular e coletiva ao mesmo tempo. Cada ato se insere num campo maior, mas esse campo também se transforma pela ação concreta. A teoria, portanto, não pode ser um saber fixo separado da prática; ela é parte do próprio movimento histórico que procura compreender.
Serialidade e grupo
A reformulação conceitual ganha densidade quando Sartre descreve os modos de agrupamento humano. Ele identifica o que chama de serialidade como forma predominante da vida social moderna. Na série, os indivíduos estão reunidos por um objeto externo que os unifica de maneira indiferente. Compartilham uma condição, mas não um projeto. Vivem lado a lado, mas não juntos. Nessa situação, produtos da ação humana — como o capital, a linguagem ou os sistemas técnicos — adquirem autonomia aparente e retornam sobre os sujeitos como forças que parecem independentes deles. Surge o campo do prático-inerte, no qual a liberdade continua existindo, mas aparece mascarada pela sensação de impotência.
O grupo, por outro lado, surge quando essa passividade é rompida por uma ação comum orientada por um fim compartilhado. Não se trata de uma entidade superior que absorve os indivíduos, mas de uma totalização consciente em andamento. No grupo, cada participante reconhece a própria ação como parte de um projeto comum e percebe que esse projeto exige atualização constante. Não há totalidade fixa, mas construção contínua. A liberdade reaparece como prática coletiva, não como abstração. O “nós” não é dado por uma estrutura externa, mas produzido pela reciprocidade ativa.
Essa passagem da série ao grupo não é garantida nem definitiva. A serialidade é um momento permanente da experiência social, e o risco de regressão acompanha qualquer formação coletiva. Por isso, embora a análise abra caminho para uma reflexão ética sobre autenticidade e reconhecimento recíproco, ela não se converte automaticamente em teoria política sistemática. Sartre descreve as condições de inteligibilidade da ação coletiva, mas não oferece modelos institucionais nem estratégias programáticas. O que emerge é algo que pode ser chamado de quase-política: um horizonte no qual a filosofia deixa de ser contemplação e se afirma como instrumento crítico capaz de revelar os modos pelos quais nos tornamos passivos ou ativos na história.
A atualidade dessa reflexão é evidente. Em um mundo atravessado por tecnologias que produzem conexões incessantes, mas frequentemente superficiais, a distinção entre série e grupo ajuda a compreender por que a mobilização coletiva se fragmenta com tanta facilidade. A totalização em curso exige mais do que simultaneidade; exige reconhecimento mútuo e finalidade comum. A contribuição de Sartre não está em oferecer soluções prontas, mas em recolocar a questão fundamental: se a história permanece aberta, então a responsabilidade por sua direção não pode ser atribuída a uma totalidade abstrata. Ela recai sobre sujeitos concretos que, em condições determinadas, continuam capazes de agir e de transformar o campo no qual estão inseridos.

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