A obra A figueira, organizada por Sarita Leonel e Aloísio Costa Sampaio, apresenta uma ampla investigação científica e histórica sobre o figo e sua planta, abordando desde suas origens arqueobotânicas até aspectos econômicos, agronômicos, culturais e terapêuticos relacionados ao cultivo da figueira. Reunindo especialistas de diversas áreas da fruticultura, o livro articula conhecimento acadêmico e histórico para compreender o papel do figo na história da humanidade e no desenvolvimento agrícola contemporâneo.

Entre as plantas cultivadas pelo ser humano ao longo de milênios, poucas carregam uma história tão profunda e multifacetada quanto a figueira. O livro A figueira, organizado pelos pesquisadores Sarita Leonel e Aloísio Costa Sampaio, oferece uma investigação abrangente sobre essa espécie vegetal que atravessa simultaneamente a história da agricultura, da cultura humana e da ciência agronômica. A obra, publicada pela Editora UNESP, insere-se no campo da fruticultura científica, mas ultrapassa os limites técnicos ao recuperar também dimensões históricas, arqueológicas, religiosas e simbólicas associadas ao figo. Com capítulos escritos por diversos especialistas, o livro apresenta uma síntese robusta da literatura científica sobre a figueira, além de examinar seus aspectos econômicos, biológicos, culturais e medicinais.

A abordagem adotada pelos organizadores revela um esforço consistente de integrar diferentes áreas do conhecimento. Ao percorrer as páginas da obra, o leitor encontra análises que vão desde a domesticação pré-histórica da planta até técnicas contemporâneas de manejo agrícola, passando por estudos botânicos, fisiológicos e históricos. O resultado é um trabalho que não apenas descreve uma cultura agrícola, mas reconstrói o percurso civilizatório de uma das primeiras plantas cultivadas pelo homem.

A análise apresentada no livro inicia-se com uma reflexão histórica sobre a presença do figo nas sociedades antigas. Logo nos primeiros capítulos, os autores destacam que a figueira figura entre as plantas domesticadas mais antigas da história humana. Estudos arqueológicos indicam que o cultivo da planta remonta a aproximadamente 11.400 anos, período em que comunidades humanas começaram a domesticar espécies vegetais para consumo alimentar. Como destaca a obra, “é uma das mais antigas plantas cultivadas no mundo, sendo considerada pelos povos antigos como símbolo de honra e fertilidade”

Esse dado histórico introduz uma das ideias centrais do livro: a figueira não é apenas uma planta frutífera, mas também um elemento simbólico e cultural profundamente enraizado nas tradições humanas. Ao longo da história, o figo aparece em textos religiosos, registros arqueológicos e documentos históricos, refletindo sua importância na alimentação, na medicina e na cultura. A obra ressalta que evidências arqueológicas encontradas em regiões como Jericó e o vale do Rio Jordão revelam sementes fossilizadas e restos de figos datados de milhares de anos, demonstrando que o fruto já era consumido e provavelmente cultivado por comunidades neolíticas

Essa perspectiva histórica é complementada por análises que exploram a relação entre o figo e diferentes civilizações antigas. A obra descreve como a fruta era valorizada em culturas mediterrâneas, especialmente na Grécia e no Egito. Entre os gregos, por exemplo, o figo possuía um valor simbólico e nutritivo significativo, sendo inclusive associado aos atletas olímpicos. Segundo o livro, “os frutos foram utilizados como alimento dos atletas olímpicos e oferecidos como a primeira medalha olímpica aos vencedores”

 Tal referência ilustra não apenas o valor alimentar do fruto, mas também seu status cultural nas sociedades antigas.

Outro aspecto importante explorado pela obra diz respeito à origem geográfica da figueira. Embora a planta esteja hoje amplamente distribuída em regiões temperadas e subtropicais, os estudos apresentados no livro indicam que seu centro de origem provavelmente se localiza no Oriente Médio e na região mediterrânea. Diversos pesquisadores são citados ao longo do texto, demonstrando a complexidade da questão. Alguns estudiosos situam sua origem na Ásia Menor e na Síria, enquanto outros defendem uma área mais ampla que inclui a bacia mediterrânea e partes do Irã e do Afeganistão. A obra ressalta que “é possível afirmar que o figo é uma espécie de cultivo antigo, compondo o grupo inicial de frutíferas domesticadas pelo homem”

Esse debate sobre a origem da planta é acompanhado por uma análise detalhada da disseminação histórica do figo pelo mundo. O livro explica como a fruta se espalhou gradualmente a partir do Mediterrâneo para outras regiões da Europa e posteriormente para as Américas. Durante o período das grandes navegações, por exemplo, a figueira foi introduzida em diferentes territórios coloniais. No caso do Brasil, acredita-se que a planta tenha sido trazida ainda no século XVI pelas primeiras expedições colonizadoras portuguesas, estabelecendo-se inicialmente no estado de São Paulo

A obra também dedica uma atenção significativa ao papel econômico do figo na agricultura contemporânea. No contexto brasileiro, o cultivo da figueira ganhou relevância sobretudo no século XX, com a introdução de variedades europeias adaptadas ao clima do país. O livro descreve como a produção comercial começou a se desenvolver especialmente na região de Valinhos, em São Paulo, que se tornou um importante polo produtor. Com o passar do tempo, a cultura expandiu-se para outras regiões do país, incluindo Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Segundo os autores, o Brasil atualmente se destaca como fornecedor internacional do fruto, destinando entre 20% e 30% de sua produção total à exportação

Além da dimensão histórica e econômica, o livro oferece um panorama detalhado dos aspectos biológicos e agronômicos da figueira. Diversos capítulos abordam temas como fisiologia da planta, propagação, exigências climáticas, manejo da poda, irrigação e nutrição vegetal. Essa abordagem técnica evidencia o caráter científico da obra, que se apresenta como um manual abrangente sobre o cultivo da figueira.

Entre os temas discutidos, destaca-se a importância do manejo adequado para a produtividade da cultura. A figueira exige condições climáticas específicas e práticas agrícolas bem definidas para alcançar bons resultados produtivos. A obra apresenta orientações detalhadas sobre o planejamento de pomares, técnicas de propagação e controle de pragas e doenças, demonstrando que o cultivo bem-sucedido depende de um conjunto complexo de fatores agronômicos.

Outro aspecto particularmente interessante da obra é a análise do papel cultural e simbólico do figo ao longo da história. O livro dedica atenção especial às referências religiosas associadas à figueira, especialmente na tradição judaico-cristã. A planta é mencionada diversas vezes na Bíblia, incluindo passagens emblemáticas como o episódio de Adão e Eva, que utilizam folhas de figueira para cobrir sua nudez após comerem o fruto proibido. Conforme lembram os autores, essa presença constante nas escrituras sagradas contribuiu para consolidar o valor simbólico da planta em diferentes tradições religiosas

A dimensão medicinal do figo também recebe destaque no livro. Ao longo da história, diferentes culturas atribuíram propriedades terapêuticas à fruta e a outras partes da planta. Registros históricos indicam que o figo era utilizado como laxativo, remédio para problemas digestivos e tratamento para diversas enfermidades. A obra menciona inclusive receitas antigas que combinavam figos com outros ingredientes medicinais para tratar diferentes doenças. Em alguns casos, o látex da planta também era utilizado em aplicações terapêuticas externas

Ao integrar todas essas dimensões — histórica, cultural, econômica e científica — A figueira constrói um retrato abrangente de uma planta que acompanha a humanidade há milênios. A obra demonstra que o estudo de uma cultura agrícola pode revelar aspectos profundos da história humana, desde as primeiras práticas agrícolas até os sistemas de produção contemporâneos.

Outro mérito do livro é a diversidade de autores envolvidos na produção dos capítulos. Especialistas em fruticultura, botânica, economia agrícola e tecnologia de alimentos contribuem para formar uma obra multidisciplinar, que dialoga com diferentes áreas do conhecimento. Essa pluralidade de perspectivas reforça o caráter científico do trabalho e amplia sua relevância acadêmica.

No conjunto, A figueira se apresenta como uma obra de referência para pesquisadores, estudantes e profissionais da área agrícola. Ao mesmo tempo, sua abordagem histórica e cultural torna o livro acessível a leitores interessados na relação entre agricultura e civilização. Trata-se de um trabalho que demonstra como um simples fruto pode revelar aspectos complexos da história humana e do desenvolvimento científico.

Ficha catalográfica
LEONEL, Sarita; SAMPAIO, Aloísio Costa (Orgs.).
A figueira.
São Paulo: Editora UNESP, 2011.
Inclui bibliografia.
ISBN: 978-85-393-0187-4.
CDD: 634.37. 

OS ORGANIZADORES

Sarita Leonel é engenheira agrônoma formada pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), instituição na qual também concluiu mestrado e doutorado na área de horticultura. Atuou como engenheira agrônoma na Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, trabalhando na Coordenadoria de Assistência Técnica Integral entre 1993 e 2000. Atualmente é professora da UNESP, dedicando-se principalmente a pesquisas em fruticultura, propagação de mudas, fisiologia vegetal e sistemas de produção de culturas frutíferas.

Aloísio Costa Sampaio também é engenheiro agrônomo formado pela UNESP, onde concluiu mestrado e doutorado em agronomia com ênfase em horticultura. Professor da mesma universidade, desenvolve pesquisas voltadas para manejo e fisiologia de culturas frutíferas, atuando especialmente em estudos relacionados ao cultivo de abacaxi, maracujá, goiaba, abacate e outras espécies de interesse agrícola. Juntos, os dois pesquisadores contribuíram significativamente para a consolidação de estudos científicos sobre fruticultura no Brasil, reunindo nesta obra um amplo panorama acadêmico sobre a figueira e seu papel na agricultura e na história da humanidade.

Comentários

CONTINUE LENDO