A antologia O Infame Clube Vitoriano das Mulheres Livres, apresenta-se como um artefato literário que dialoga com o passado para tensionar o presente. Organizada por Valquíria Vlad e Karine Ribeiro, a obra se estrutura como uma coleção de textos atribuídos a uma misteriosa figura conhecida apenas como “A Dama”, cuja coluna teria abalado a sociedade inglesa do século XIX. O projeto é engenhoso: constrói-se uma ficção dentro da ficção, como se o leitor estivesse folheando fragmentos resgatados de um baú esquecido, onde cartas, contos e relatos revelam mulheres que desafiaram os limites impostos por sua época.
Logo na introdução, a proposta é clara ao afirmar que o Clube reunia “histórias de mulheres fortes, livres e sonhadoras que lutaram para encontrar seu caminho para a felicidade e triunfar sobre a opressão de toda uma era” (p. 14). A força dessa declaração não está apenas na promessa temática, mas na forma como ela ecoa ao longo dos contos. Cada narrativa funciona como uma variação sobre liberdade, identidade e resistência.
Em “Violoncelo”, de Lygia Camelo Santiago, encontramos uma das histórias mais impactantes da coletânea. A narrativa se inicia com a coroação da rainha Victoria e o nascimento de uma menina no porão de um teatro decadente, criando um paralelismo simbólico entre duas Victorias. A frase inaugural já estabelece atmosfera e contexto histórico:
“Era o começo de verão de 1838. A primavera ainda adocicava o ar.” (p. 16)
A musicalidade do texto acompanha a trajetória da protagonista, que, impedida de viver plenamente como mulher, assume identidade masculina para estudar e tocar violoncelo. O conflito atinge intensidade quando o pai reage violentamente ao vê-la com o instrumento:
“Tinha dez anos então, e foi chamada de uma rameira desavergonhada.” (p. 19)
O conto explora o corpo feminino como território de disputa social. Ao esconder os seios com faixas e tornar-se “Victor”, a personagem não apenas burla o sistema, mas expõe sua fragilidade. O desfecho, em que ela recebe aplausos da própria rainha, sela uma vitória silenciosa e profundamente simbólica.
Já em “A mestre dos pássaros”, Daniela Almeida constrói uma delicada alegoria sobre liberdade feminina. Liliana é treinada para ser dócil, contida e adequada a um casamento futuro. A vigilância constante é evidenciada no tom da ama:
“Não quer que lhe vejam como uma mulher indecente, quer?” (p. 24)
A repetição da disciplina corporal — passos contados, braços erguidos, tornozelos escondidos — contrasta com o desejo íntimo de correr e voar. A imagem que sintetiza a libertação da personagem é belíssima:
“E saltando ela descobriu que podia abrir os braços e sentir o que era voar.” (p. 27)
A metáfora do voo e do falcão funciona como eixo narrativo. A jovem aprende que pequenas rebeldias podem abrir frestas em sistemas opressivos. É um conto menos trágico que “Violoncelo”, mas igualmente incisivo.
“O artista”, de Lia Cavaliera, desloca o debate para o campo das artes plásticas e da autoria feminina. A carta de Georgina Eliot revela como Lady Anne Hardy manipula a sociedade ao ocultar sua identidade como pintora. O momento da revelação é memorável:
“Pois agora apresento oficialmente o Artista: eu, Anne Hardy, sou a pintora por trás de todos os quadros.” (p. 34)
Aqui, a estratégia não é o travestimento físico, mas a encenação social. Lady Hardy força a elite a elogiar sua obra antes de revelar-se autora. O gesto é teatral, quase performático, e desnuda o preconceito estrutural que impedia mulheres de serem reconhecidas como artistas.
“As Aulas de Hipismo da Srta. H” assume tom quase lendário. A história da jovem que corta os cabelos, veste-se como homem e foge montada em um garanhão negro carrega aura mítica. O detalhe final sintetiza o espírito indomável da personagem:
“A única coisa que é certa sobre a amazona do garanhão negro, além de seus cabelos curtos, é que ela sempre se recusa a utilizar uma sela lateral.” (p. 42)
A recusa da sela lateral — símbolo da feminilidade domesticada — é gesto político e corporal. O conto trabalha com o rumor, o boato e a construção de uma figura quase folclórica, ampliando o alcance simbólico da narrativa.
“A Farsa”, por sua vez, é uma das histórias mais duras da coletânea. Joanne assume identidade masculina para gerir a empresa do pai, prospera, mas é desmascarada e violentamente punida. A cena de humilhação é brutal:
“Ela caiu humilhada e cheia de ira.” (p. 47)
O conto expõe não apenas o machismo institucional, mas a violência concreta exercida sobre corpos femininos que ousam ocupar espaços de poder. Ainda assim, Joanne sai de cabeça erguida, mantendo intacta sua dignidade.
Por fim, “O Silêncio da Névoa” mergulha em zonas mais sombrias, narrando uma trajetória marcada por sobrevivência e vingança nas margens de Londres. A carta endereçada à “Lady” carrega tom confessional e inquietante, ampliando o espectro temático da antologia e mostrando que nem toda resistência é luminosa; algumas nascem da dor e da marginalidade.
O mérito maior da obra está na coerência temática aliada à diversidade estilística. Cada autor preserva voz própria, mas todos orbitam o mesmo núcleo: mulheres que se recusam a aceitar passivamente os limites impostos. A ambientação vitoriana funciona como espelho histórico, permitindo ao leitor contemporâneo perceber paralelos inquietantes com o presente.
A edição também reforça essa proposta com projeto gráfico que dialoga com o século XIX, evocando jornais antigos e documentos de época. A sensação de estar manuseando material “descoberto” contribui para a imersão e fortalece o jogo metalinguístico.
Em síntese, O Infame Clube Vitoriano das Mulheres Livres é uma antologia potente, que combina pesquisa histórica, imaginação literária e crítica social. Ao reconstruir vozes femininas silenciadas — ainda que ficcionais —, a obra reivindica espaço para narrativas que desafiam convenções e celebram a autonomia. Mais do que revisitar a era vitoriana, o livro a ressignifica, transformando-a em palco para histórias de coragem, astúcia e insubordinação.
Trata-se de uma leitura que emociona, provoca e, sobretudo, inspira.

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