A presente resenha analisa O Demônio de Mármore, conto publicado originalmente em 1895 por Rabindranath Tagore, em que o autor indiano constrói uma narrativa envolta em fascínio, ironia e mistério psicológico. Desde as primeiras páginas, somos conduzidos a um ambiente de estranhamento intelectual. O narrador introduz a figura enigmática do homem encontrado no trem, cuja eloquência quase divina provoca inquietação e admiração. No início do relato, lemos:
“discursava sobre todos os assuntos com tanta confiança que alguém até pensaria que o Criador de Todas as Coisas o consultou a cada passo antes de fazer Suas criações.” (p. 10)
Essa frase, situada logo no início da narrativa, já estabelece o tom ambíguo entre fascínio e desconfiança que perpassará todo o conto. A ironia é refinada: o narrador, aparentemente cético, deixa-se envolver por uma história fantástica que ele próprio julga improvável.
É no momento em que a história do cobrador de impostos Srijut começa que a atmosfera assume densidade sobrenatural. Ao descrever o palácio de mármore erguido por Mahmud Shah II, o texto mergulha no contraste entre esplendor passado e decadência presente. A memória do luxo ecoa em uma passagem marcante:
“Agora, as fontes já não funcionam, as canções silenciaram e os pés brancos como a neve já não pisam graciosamente sobre o mármore pálido.” (p. 12)
Aqui, o mármore deixa de ser apenas matéria e torna-se símbolo: ele guarda, absorve e perpetua desejos. O palácio, outrora palco de prazer e música, converte-se em um organismo que consome aqueles que o habitam. Essa ideia é explicitada de forma perturbadora quando o narrador declara:
“senti como se todo o palácio fosse como um organismo vivo que, lenta e imperceptivelmente, me digeria com algum tipo atordoante de suco gástrico.” (p. 12)
O horror em Tagore não é grotesco, mas psicológico. O terror emerge da sedução. O palácio não ameaça com ruídos violentos; ele encanta com risadas invisíveis e perfumes antigos. No capítulo em que Srijut testemunha as donzelas invisíveis no rio Susta, o leitor compartilha da incerteza entre imaginação e realidade:
“Era como se uma cortina negra de 250 anos estivesse pendurada na minha frente.” (p. 13)
A metáfora da cortina é central: o tempo não desapareceu; ele apenas se interpôs como véu. O passado não morreu — ele aguarda. O que se revela é a permeabilidade entre eras, sugerindo que os desejos humanos são atemporais.
Ao longo das noites, o protagonista experimenta um desdobramento identitário. Ele deixa de ser apenas funcionário do nizã e passa a assumir um papel imaginário, quase principesco. O contraste entre a burocracia cotidiana e a fantasia orientalizante é sintetizado numa das passagens mais irônicas do conto:
“Pareceu tão ridículo e absurdo pensar que eu, Srijut de Tal, [...] deveria estar sacando 450 rupias por mês pelos serviços como cobrador de impostos.” (p. 15)
O riso do personagem ecoa como defesa frágil diante do encantamento crescente. O conflito entre racionalidade colonial moderna e imaginário ancestral é evidente. Tagore constrói, assim, uma crítica sutil ao racionalismo superficial que ignora as forças inconscientes da história e do desejo.
A figura da mulher persa, sempre vislumbrada e jamais plenamente alcançada, simboliza a promessa inalcançável do prazer absoluto. A descrição do reflexo no espelho intensifica essa tensão erótica e melancólica:
“via rapidamente o reflexo da bela mulher persa ao meu lado.” (p. 18)
Ela é presença e ausência. Sua materialidade nunca se completa. Sua imagem dissolve-se como o passado que insiste em reaparecer. A sedução culmina na súplica desesperada que ecoa do subsolo do palácio:
“Oh, salve-me! Quebre estas portas feitas de ilusões resistentes, sonos mortais e sonhos vãos.” (p. 18)
Essa frase revela o núcleo trágico da narrativa: o próprio encanto é uma prisão. A mulher pede libertação, mas é a ilusão que aprisiona tanto a aparição quanto o protagonista. O desejo de salvar torna-se mais uma forma de ser devorado pelo demônio do mármore.
O grito do louco Meher Ali funciona como contraponto crítico, quase como consciência externa da narrativa:
“Afaste-se! Afaste-se! É tudo falso! É tudo falso!” (p. 19)
Essa repetição obsessiva introduz a ambiguidade final. O que é falso? A história? As visões? O próprio narrador? Tagore não oferece respostas definitivas. Ao contrário, o desfecho reforça a incerteza ao interromper a história no momento em que seria revelado o passado trágico da jovem persa. O relato termina abruptamente, e o narrador admite:
“A história era pura invenção desde o começo.” (p. 22)
Entretanto, a própria necessidade de afirmar a falsidade sugere o contrário. A dúvida permanece. A ruptura da narrativa dentro da narrativa enfatiza a instabilidade da verdade.
Em termos estilísticos, Tagore equilibra lirismo e ironia com maestria. A linguagem alterna descrições sensoriais intensas — perfumes, sons, tecidos, joias — com comentários quase satíricos sobre burocracia e colonialismo. O conto também dialoga com tradições orientais e ocidentais, evocando as Mil e Uma Noites e Shakespeare, ao mesmo tempo em que questiona a confiabilidade da narração.
O demônio de mármore, portanto, não é uma criatura explícita. Ele é metáfora da memória impregnada nas pedras, das paixões não resolvidas, do desejo que atravessa séculos. O palácio torna-se símbolo da história que se recusa a morrer, da arte que seduz e aprisiona, do passado que insiste em dialogar com o presente.
A leitura de O Demônio de Mármore revela um Tagore já profundamente interessado na complexidade da psique humana e na relação entre imaginação e realidade. O conto não oferece sustos fáceis, mas inquietações duradouras. O leitor termina a obra perguntando-se não apenas sobre a veracidade da história, mas sobre a própria natureza do desejo.
Em última análise, esta resenha reconhece a força do conto como exercício de ambiguidade e atmosfera. Tagore demonstra que o sobrenatural pode ser menos um evento externo e mais um espelho da interioridade humana. O mármore permanece frio, mas nele ecoam vozes, risadas e súplicas que atravessam o tempo — lembrando-nos de que talvez o verdadeiro demônio seja aquilo que nunca conseguimos abandonar completamente: nossas próprias ilusões.

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