Em Amor com gelo e açúcar, de Elliot Fletcher, a autora constrói uma comédia romântica com carga dramática elevada, em que desejo, luto e culpa caminham lado a lado. Traduzido por Carolina Candido e publicado pela Harlequin em 2025, o romance acompanha a história de Juniper Ross e Callum Macabe ao longo de anos marcados por encontros interrompidos, decisões erradas e sentimentos represados que nunca deixaram de existir.
A estrutura narrativa alterna pontos de vista, começando com “ANTES – Callum” (p. 11), recurso que já anuncia ao leitor que a história será construída sobre memória, arrependimento e inevitabilidade. Logo nas primeiras páginas, o tom é definido com uma comparação impactante:
“Me apaixonar por Juniper Ross foi como entrar na frente de um carro em alta velocidade.” (p. 11)
Essa imagem atravessa o romance inteiro. Não se trata de um amor leve ou casual; é uma colisão anunciada. Callum descreve o primeiro encontro no trem com um misto de fascínio e autocrítica, reconhecendo os “alarmes” que ignorou ao se aproximar de uma mulher que, além de ter namorado, era a namorada de seu irmão. A metáfora retorna com força quando ele admite:
“Juniper riu, e eu abri os braços, aceitando a colisão.” (p. 13)
O riso dela torna-se, desde cedo, um gatilho emocional. Fletcher constrói Juniper como uma mulher sarcástica, afiada e aparentemente inabalável, mas cuja dureza esconde abandono, insegurança e dor. A passagem para “TRÊS ANOS DEPOIS, GLASGOW – Juniper” (p. 14) marca o deslocamento do foco narrativo e amplia o horizonte emocional da obra.
Juniper retorna a Glasgow carregando o peso do luto pelo pai, do noivado desfeito e da frustração profissional. O texto ganha densidade ao revelar que a morte de Alexander não foi apenas uma perda afetiva, mas o colapso de uma identidade. A cena da festa de noivado que termina em hospital, seguida da morte do pai, sela o rompimento de sua antiga vida. O abandono por parte de Alistair, que deveria ser seu parceiro, intensifica o trauma.
A partir daí, Fletcher explora com habilidade o conflito interno da protagonista. A dureza dela é performática; por trás do sarcasmo, há uma mulher que acredita não merecer amor. Esse sentimento se manifesta na noite em que reencontra Callum num bar, após anos de afastamento. A tensão é imediata, quase palpável, construída por diálogos rápidos e provocações.
Callum, por sua vez, é apresentado como um homem dividido entre desejo e lealdade. A atração que sente por Juniper nunca desapareceu, mas sempre foi reprimida pelo código fraterno. O reencontro culmina na cena do carro, um dos momentos mais intensos da narrativa, em que o desejo finalmente transborda. A descrição do beijo é visceral, quase febril:
“No dia seguinte, eu não lembraria quem se mexeu primeiro. Apenas o choque dos lábios.” (p. 25)
A carga erótica da cena não é gratuita. Ela simboliza anos de tensão acumulada. Contudo, o momento que deveria consolidar a entrega transforma-se em ruptura quando Juniper, no auge da excitação, pergunta:
“E então, Macabe. Vai me foder melhor que ele?” (p. 28)
A frase opera como um golpe seco. O passado — Alistair — invade o presente. Callum percebe que não quer ser substituto, nem instrumento de vingança ou distração. A interrupção abrupta do ato, seguida do pedido de desculpas, cria uma ferida nova sobre as antigas. A decisão dele de recuar é ética, mas devastadora.
A narrativa avança para “AGORA – Cinco anos depois, Kinleith” (p. 30), consolidando o arco temporal de reencontro. A dinâmica entre os dois torna-se ainda mais complexa. Eles já não são jovens impulsivos; carregam cicatrizes, responsabilidades e versões mais endurecidas de si mesmos.
Callum, agora veterinário e figura respeitada na comunidade, é apresentado como alguém que ajuda animais e familiares, especialmente diante do Alzheimer do pai. Juniper administra a pousada herdada, lutando contra limitações financeiras e a resistência da mãe adotiva a mudanças. Ambos vivem em proximidade geográfica, mas em distância emocional calculada.
A ironia constante entre eles funciona como mecanismo de defesa. Em uma troca provocativa, Juniper estabelece seu próprio código de sobrevivência:
“O livro de regras dos irmãos Macabe (segundo Juniper Ross):
Não olhe para um irmão Macabe.
Não fale com um irmão Macabe.
Não ouse pensar em um irmão Macabe.” (p. 39)
A lista, apresentada de forma quase cômica, revela o esforço desesperado de Juniper para se proteger. A regra três é a mais impossível — e, portanto, a mais significativa.
O romance equilibra humor e dor com competência. As cenas na destilaria Kinleith, as interações com os sobrinhos, os vizinhos e os moradores da vila criam uma atmosfera acolhedora que contrasta com os conflitos internos dos protagonistas. A ambientação escocesa não é apenas pano de fundo; ela molda o ritmo da narrativa, alternando o frio cortante com o calor dos encontros.
Outro mérito do livro é a construção da vulnerabilidade masculina. Callum não é apenas o objeto de desejo; ele é um homem que teme machucar e ser machucado. Sua recusa no carro não é fraqueza, mas tentativa de integridade. Ao longo dos capítulos, percebe-se que o maior antagonista não é um rival externo, mas a culpa compartilhada.
A prosa de Fletcher é direta, com diálogos afiados e cenas íntimas prolongadas, como anunciado na “Nota da autora” (p. 10). O erotismo é explícito, mas ancorado na história emocional dos personagens. Não se trata apenas de química física; é a materialização de anos de tensão não resolvida.
Em termos estruturais, a alternância de narradores cria empatia dupla. O leitor conhece as motivações de ambos, o que aumenta a angústia diante dos mal-entendidos. Quando Callum acredita estar fazendo o correto ao recuar, o leitor já compreende o medo de Juniper de não ser escolhida. Essa dramaticidade sustentada é o motor do romance.
Amor com gelo e açúcar é, acima de tudo, uma história sobre timing e merecimento. Juniper precisa acreditar que não é descartável. Callum precisa decidir se está disposto a enfrentar o passado para construir algo novo. O título, que combina frio e doçura, sintetiza bem a relação: há gelo nas defesas, açúcar nos momentos de entrega.
Ao final, o que permanece é a sensação de que amar, para esses personagens, nunca foi leve. Foi colisão, foi erro, foi silêncio. Mas também foi persistência.
E, como o próprio Callum admite desde o início, algumas colisões são inevitáveis — porque, no fundo, já escolhemos abrir os braços antes mesmo do impacto.

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