Poder, planejamento e socialismo: a China como laboratório político do século XXI

Imagem: Arte digital/Reprodução da capa

A ascensão da China como potência econômica e política mundial produziu um dos debates mais intensos da teoria social contemporânea. Desde as reformas iniciadas no final da década de 1970, analistas, economistas e cientistas políticos tentam compreender a natureza do sistema chinês. Trata-se de capitalismo de Estado, socialismo de mercado, um híbrido institucional ou um modelo completamente novo de organização econômica? O livro Poder e socialismo: governança, classes, ciência e projetamento na China, escrito por Elias Jabbour e Roland Boer e publicado pela editora Boitempo em 2026, insere-se diretamente nesse debate e propõe uma interpretação ambiciosa que procura explicar a experiência chinesa a partir de uma releitura contemporânea do marxismo.

A obra, que ultrapassa trezentas páginas e reúne um vasto conjunto de referências teóricas e empíricas, apresenta-se como continuidade e aprofundamento de um projeto intelectual que Jabbour havia iniciado alguns anos antes em parceria com o economista italiano Alberto Gabriele no livro China: o socialismo do século XXI. A nova publicação retoma algumas das hipóteses centrais daquele trabalho e busca expandi-las em direção a uma teoria mais ampla da economia política do socialismo contemporâneo. Para os autores, compreender a China exige abandonar tanto os esquemas interpretativos do liberalismo econômico quanto certas leituras tradicionais do marxismo ocidental, que teriam se tornado incapazes de interpretar as transformações do capitalismo global e as novas formas de organização política que emergiram nas últimas décadas.

A tese central do livro consiste na ideia de que a China representa a primeira manifestação histórica de uma nova classe de formações econômico-sociais orientadas para o socialismo, cuja existência não pode ser compreendida pelas categorias clássicas da economia política desenvolvidas no século XIX ou mesmo pelas interpretações dominantes do século XX. Ao longo de sua introdução, os autores afirmam que seu objetivo é compreender a experiência chinesa como algo qualitativamente distinto das formas históricas anteriores de socialismo e também das estruturas típicas do capitalismo liberal contemporâneo. Nesse sentido, a obra busca reinterpretar conceitos fundamentais do pensamento marxista e reconstruí-los à luz da realidade do século XXI.

Em determinado momento da introdução, os autores enfatizam que a própria teoria marxista precisa ser reinterpretada para compreender a realidade atual, afirmando que “é uma necessidade teórica urgente reinterpretar e reelaborar esses conceitos para torná-los mais adequados à compreensão do mundo no século XXI, que é obviamente bem diferente daquele em que Marx e Engels viveram” (p. 27).

 Essa passagem sintetiza o espírito do livro, que procura se afastar tanto de interpretações dogmáticas do marxismo quanto das leituras liberais que tratam a experiência chinesa como mera adaptação do capitalismo.

A proposta de Jabbour e Boer consiste em reconstruir uma teoria da economia política do socialismo contemporâneo que seja capaz de explicar a coexistência de planejamento estatal, mercado e forte centralização política. Essa abordagem leva os autores a desenvolver uma série de conceitos teóricos que ocupam posição central na argumentação do livro, entre os quais se destacam as noções de formação econômico-social de orientação socialista, metamodo de produção e economia do projetamento.

O conceito de formação econômico-social desempenha papel fundamental na obra porque permite aos autores analisar a realidade chinesa como um sistema histórico específico que resulta da interação entre estruturas econômicas, relações políticas e processos culturais. Para os autores, essa categoria é particularmente útil porque permite observar o socialismo não apenas como um modelo econômico abstrato, mas como uma configuração histórica concreta que se desenvolve dentro de condições específicas. No livro, essa ideia aparece claramente quando os autores afirmam que procuram compreender a China como “a primeira experiência de uma nova classe de formações econômico-sociais” (p. 25). 

Essa interpretação representa uma tentativa de superar um dos dilemas mais recorrentes da literatura internacional sobre a China. Durante décadas, grande parte dos analistas tentou classificar o sistema chinês dentro de categorias tradicionais que opõem capitalismo e socialismo. A abordagem proposta em Poder e socialismo rejeita esse enquadramento binário e sustenta que a realidade contemporânea exige novas categorias analíticas. Segundo os autores, o sistema chinês deve ser entendido como uma formação histórico-social emergente que combina diferentes formas de propriedade, mecanismos de mercado e planejamento estatal dentro de uma estrutura política dominada por um partido comunista que reivindica um projeto socialista de longo prazo.

Essa perspectiva conduz os autores a reinterpretar um dos aspectos mais controversos da experiência chinesa, que é a coexistência de economia de mercado com um regime político que se define oficialmente como socialista. Em vez de considerar essa combinação como contradição ou incoerência, Jabbour e Boer defendem que ela constitui precisamente o elemento distintivo da nova formação econômico-social que estaria se consolidando na China. Para os autores, o socialismo contemporâneo não pode ser definido apenas pela ausência de mercado, mas pela capacidade do poder político de orientar o desenvolvimento econômico em direção a objetivos coletivos.

Essa interpretação torna-se ainda mais clara quando os autores discutem o papel do poder político no processo de construção do socialismo. Em um dos trechos mais significativos do livro, eles afirmam que sua abordagem consiste em compreender o marxismo como uma ciência do poder político (p. 29).

Essa formulação representa uma mudança importante de perspectiva porque desloca o centro da análise da esfera econômica para a esfera política. O problema fundamental deixa de ser a existência de mercado ou propriedade privada e passa a ser a questão de quem controla as instituições que organizam a economia e o desenvolvimento social.

A partir dessa perspectiva, o Partido Comunista Chinês surge no livro como o principal agente histórico responsável por orientar o processo de transformação econômica e social do país. Segundo os autores, a permanência desse partido no controle do poder político permitiu ao Estado chinês coordenar projetos estratégicos de desenvolvimento que seriam impossíveis em economias dominadas por interesses privados de curto prazo. Essa interpretação aparece associada ao conceito de economia do projetamento, que constitui uma das contribuições teóricas mais originais da obra.

Inspirado nas ideias do economista brasileiro Ignacio Rangel, o conceito de projetamento refere-se à capacidade do Estado de organizar projetos de grande escala que mobilizam recursos financeiros, tecnológicos e humanos em direção a objetivos estratégicos de longo prazo. Para Jabbour e Boer, a economia chinesa evoluiu ao longo das últimas décadas para um estágio no qual o planejamento estatal se manifesta principalmente por meio da coordenação de grandes projetos estruturais que transformam o território, a infraestrutura e a base produtiva do país.

Essa interpretação ganha força quando os autores analisam a resposta chinesa à crise financeira internacional de 2008. Enquanto diversas economias ocidentais enfrentavam recessões profundas e dificuldades para coordenar políticas econômicas eficazes, a China implementou um gigantesco programa de investimentos públicos que permitiu manter o crescimento econômico e acelerar a modernização de sua infraestrutura. Para os autores, esse episódio demonstrou a capacidade singular do Estado chinês de coordenar projetos econômicos em larga escala e revelou a existência de um novo modelo de planejamento econômico que combina mecanismos de mercado com direção política centralizada.

Outro conceito importante desenvolvido no livro é o de metamodo de produção. Essa categoria procura explicar o contexto global no qual se desenvolvem diferentes formações econômico-sociais contemporâneas. Segundo os autores, o sistema mundial atual é dominado por estruturas econômicas que derivam do capitalismo global, e mesmo países que buscam construir alternativas socialistas precisam operar dentro desse ambiente. O metamodo de produção representaria justamente essa estrutura global que condiciona as possibilidades históricas de cada sociedade.

Essa ideia permite aos autores explicar por que a economia chinesa mantém relações intensas com o mercado internacional e participa ativamente do comércio global. Em vez de interpretar essa integração como sinal de restauração capitalista, eles a entendem como estratégia política destinada a utilizar as contradições do sistema capitalista mundial para promover o desenvolvimento nacional.

Nesse ponto, o livro também retoma a teoria marxista do desenvolvimento desigual, originalmente elaborada por Lênin para explicar as diferenças de desenvolvimento entre países capitalistas. Jabbour e Boer argumentam que a China conseguiu aproveitar as oportunidades abertas pela globalização econômica e pela reorganização do capitalismo internacional para acelerar seu processo de industrialização e modernização tecnológica.

A análise do desenvolvimento chinês apresentada no livro também destaca a importância do planejamento territorial e das políticas industriais como instrumentos centrais do processo de transformação econômica. Segundo os autores, a expansão da infraestrutura, o desenvolvimento de tecnologias estratégicas e a reorganização das cadeias produtivas constituem elementos fundamentais da estratégia chinesa de longo prazo.

Entretanto, o livro não ignora as controvérsias que cercam essa interpretação da experiência chinesa. A ideia de que a China representa uma nova forma histórica de socialismo é objeto de intensos debates tanto entre economistas liberais quanto entre marxistas. Alguns críticos argumentam que a presença de grandes empresas privadas e a existência de desigualdades sociais indicariam que o país se aproximou cada vez mais de uma economia capitalista convencional. Outros sustentam que o sistema chinês representa uma forma de capitalismo de Estado que utiliza instrumentos socialistas apenas como retórica política.

Apesar dessas críticas, Poder e socialismo procura demonstrar que a realidade chinesa não pode ser reduzida a nenhuma dessas interpretações simplificadoras. Para os autores, a ascensão da China revela que o socialismo contemporâneo pode assumir formas institucionais muito diferentes daquelas que marcaram as experiências do século XX.

Ao final de sua análise, o livro sugere que a experiência chinesa pode representar um ponto de inflexão na história da economia política global. Em um mundo marcado por crises financeiras recorrentes, desigualdade social crescente e desafios ambientais cada vez mais complexos, a combinação de planejamento estatal, inovação tecnológica e direção política centralizada poderia oferecer uma alternativa ao modelo econômico dominante.

Assim, a principal contribuição de Poder e socialismo consiste em recolocar no centro do debate intelectual contemporâneo a questão do futuro do socialismo. Ao analisar a experiência chinesa com ferramentas teóricas derivadas do marxismo, mas reinterpretadas à luz das transformações do capitalismo global, Jabbour e Boer procuram demonstrar que o socialismo não deve ser compreendido apenas como experiência histórica do passado, mas como processo político em permanente transformação.

Nesse sentido, o livro não oferece respostas definitivas para o enigma chinês, mas propõe uma interpretação que desafia muitas das premissas dominantes na teoria social contemporânea. Ao fazê-lo, contribui para ampliar o debate sobre os caminhos possíveis do desenvolvimento econômico e sobre o papel do poder político na organização das sociedades do século XXI.

Título: Poder e socialismo: governança, classes, ciência e projetamento na China
Autores: Elias Jabbour; Roland Boer
Apresentação: José Paulo Netto
Edição: 1ª edição
Local de publicação: São Paulo
Editora: Boitempo Editorial
Ano de publicação: 2026
Número de páginas: 336 p.
ISBN: 978-65-5717-548-4
CDD: 330.951
CDU: 330.342.151(510)

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