Uma investigação estratégica sobre os futuros possíveis da política de defesa brasileira e os caminhos da cooperação regional na América do Sul.
JANUÁRIO, Luiza Elena; SOARES, Samuel Alves; SOUZA, Tamires Aparecida Ferreira (orgs.). Em defesa da cooperação: quatro cenários sobre cooperação em defesa no entorno estratégico do Brasil até 2048. São Paulo: Editora Unesp Digital, 2021.
ISBN: 978-65-5714-067-3 (eBook).
Coleção Paz, Defesa e Segurança Internacional.
A obra “Em defesa da cooperação: quatro cenários sobre cooperação em defesa no entorno estratégico do Brasil até 2048”, organizada por Luiza Elena Januário, Samuel Alves Soares e Tamires Aparecida Ferreira Souza, constitui um dos mais relevantes estudos contemporâneos sobre prospectiva estratégica aplicada à política de defesa brasileira. Inserido no campo das Relações Internacionais e dos Estudos Estratégicos, o livro apresenta uma análise sistemática sobre os possíveis caminhos da cooperação regional em matéria de segurança e defesa, tomando como horizonte temporal o ano de 2048.
O estudo nasce da necessidade de compreender as oportunidades e os desafios que o Brasil enfrenta no âmbito da defesa e da segurança internacional, especialmente no que se refere ao seu entorno estratégico — conceito que abrange a América do Sul, o Atlântico Sul e partes do continente africano. Nesse sentido, os organizadores deixam claro desde o início que o objetivo central da obra é responder a uma pergunta fundamental para a formulação da política externa e de defesa do país: quais caminhos podem levar o Brasil a consolidar uma política de defesa alinhada à cooperação regional até meados do século XXI.
Ao contrário de estudos que buscam prever o futuro de forma determinista, o livro assume explicitamente a metodologia da análise prospectiva. Como os próprios autores afirmam, a elaboração de cenários não pretende prever acontecimentos, mas construir representações plausíveis de futuros possíveis, capazes de orientar decisões políticas no presente. Nas palavras do texto, trata-se de um esforço de reflexão sobre futuros que “informam tendências, inflexões e mesmo rupturas, articulando uma visão dos objetivos e futuros desejados” (p. 2).
A estrutura da obra revela um rigor metodológico pouco comum em estudos estratégicos voltados ao público mais amplo. O livro é dividido em duas grandes seções: a primeira discute os fundamentos teóricos e metodológicos da construção de cenários prospectivos; a segunda apresenta quatro cenários possíveis para a cooperação em defesa no entorno estratégico brasileiro até 2048. Esse desenho analítico demonstra a preocupação dos organizadores em não apenas apresentar hipóteses sobre o futuro, mas também explicar detalhadamente os procedimentos científicos utilizados para chegar a essas projeções.
No plano metodológico, o trabalho baseia-se na tradição francesa da prospectiva estratégica, especialmente nos modelos desenvolvidos por Michel Godet e outros teóricos do planejamento de cenários. Essa abordagem enfatiza a identificação de variáveis estruturais, atores relevantes e tendências de longo prazo que influenciam o comportamento do sistema internacional. O estudo, por exemplo, identifica inicialmente dezenas de variáveis relacionadas a temas como tecnologia militar, política externa, disputas territoriais e assimetrias econômicas, que posteriormente são analisadas por meio de matrizes de influência e dependência.
Outro elemento metodológico importante é a identificação dos chamados atores estratégicos, que incluem tanto instituições brasileiras quanto atores internacionais. Entre os atores domésticos estão a Presidência da República, o Ministério da Defesa, as Forças Armadas e o Ministério das Relações Exteriores, enquanto no plano internacional figuram países como Estados Unidos, China, Argentina e Venezuela, além de organizações multilaterais como a ONU e a Unasul. A análise das interações entre esses atores permite compreender como diferentes interesses e estratégias podem influenciar a evolução da cooperação regional em defesa.
Essa abordagem destaca uma premissa central do livro: o futuro não é produto de forças estruturais abstratas, mas resultado das decisões tomadas por indivíduos e instituições ao longo do tempo. Assim, compreender o comportamento dos atores políticos torna-se essencial para imaginar os possíveis caminhos da política de defesa brasileira.
No desenvolvimento da análise prospectiva, os autores também identificam tendências de peso que devem influenciar o sistema internacional nas próximas décadas. Entre elas destacam-se o aumento da presença chinesa na América do Sul, a manutenção das assimetrias tecnológicas entre países centrais e periféricos, a crescente polarização política global e o desenvolvimento de novas tecnologias militares. Esses fatores compõem o pano de fundo estrutural a partir do qual os cenários são construídos.
A segunda parte da obra apresenta quatro cenários prospectivos que ilustram diferentes configurações possíveis da cooperação em defesa na América do Sul. O primeiro cenário, denominado “De pé e caminhando: em busca da pátria grande”, descreve um contexto internacional marcado pela multipolaridade e pelo fortalecimento da integração regional. Nesse cenário, organizações como a Unasul desempenham papel central na coordenação das políticas de defesa, contribuindo para a redução de rivalidades históricas e para o aumento da cooperação entre as forças armadas da região.
O segundo cenário, “Desencanto e desfalecimento: o colapso do projeto regional”, apresenta uma realidade bastante distinta. Nesse caso, a América do Sul torna-se palco de disputas geopolíticas entre grandes potências, especialmente Estados Unidos e China, o que leva à fragmentação das iniciativas de cooperação regional e ao aumento das tensões entre países vizinhos. A possibilidade de conflitos armados e a intensificação da competição estratégica transformam a região em um espaço de rivalidades internacionais.
Já o terceiro cenário, “Andando e caindo: tendências na atuação regional do Brasil”, descreve uma situação intermediária. A cooperação regional permanece presente no discurso político, mas não se traduz em projetos concretos de integração. Nesse contexto, as instituições regionais continuam existindo, porém com baixa efetividade, refletindo as instabilidades políticas e econômicas que caracterizam diversos países da região.
Por fim, o quarto cenário, “De volta para o passado: o Brasil de costas para a América do Sul”, representa uma ruptura mais profunda com o projeto de integração regional. Nesse caso, o Brasil se afasta progressivamente das iniciativas cooperativas, priorizando relações bilaterais com grandes potências e concentrando-se em seus problemas domésticos. Esse afastamento contribui para o enfraquecimento da liderança brasileira na região e para o surgimento de novas dinâmicas geopolíticas na América do Sul.
Do ponto de vista analítico, o principal mérito do livro reside justamente na comparação entre esses quatro cenários. Ao apresentar alternativas contrastantes, a obra permite compreender que o futuro da cooperação em defesa não depende apenas de fatores externos, mas também das escolhas políticas feitas pelos próprios países da região. Essa abordagem incentiva uma reflexão crítica sobre o papel do Brasil como ator regional e sobre as consequências de diferentes estratégias de política externa.
Outro aspecto relevante é o compromisso normativo presente no estudo. Embora os autores reconheçam a impossibilidade de prever o futuro com precisão, o texto deixa claro que a cooperação regional é vista como um caminho desejável para a estabilidade e o desenvolvimento da América do Sul. Essa posição reflete uma tradição importante da política externa brasileira, historicamente marcada pela valorização do multilateralismo e da integração regional.
No plano teórico, o livro contribui para aproximar os estudos de defesa das metodologias de prospectiva estratégica, ainda pouco exploradas na produção acadêmica brasileira. Ao combinar análise política, metodologia prospectiva e reflexão geopolítica, a obra oferece um modelo de pesquisa que pode ser aplicado a diferentes áreas do planejamento estratégico nacional.
Entretanto, a obra também apresenta algumas limitações que merecem ser consideradas. A principal delas está relacionada ao grau de complexidade metodológica do estudo. Embora o rigor analítico seja um dos pontos fortes do livro, a exposição detalhada de técnicas prospectivas pode dificultar a leitura para leitores não familiarizados com esse tipo de abordagem. Em alguns momentos, a densidade metodológica acaba se sobrepondo à análise política propriamente dita.
Apesar dessa ressalva, “Em defesa da cooperação” constitui uma contribuição significativa para o debate sobre defesa e segurança internacional no Brasil. Ao explorar diferentes possibilidades para o futuro da política de defesa brasileira, a obra estimula reflexões fundamentais sobre o papel do país no cenário internacional e sobre a importância da cooperação regional para a estabilidade da América do Sul.
Em um contexto internacional marcado por transformações rápidas e por novas formas de competição geopolítica, o livro reafirma a importância do planejamento estratégico e da reflexão prospectiva para a formulação de políticas públicas. Mais do que apresentar previsões sobre o futuro, a obra convida o leitor a pensar criticamente sobre as escolhas políticas que moldarão o destino da região nas próximas décadas.
Biografia dos organizadores
Luiza Elena Januário é pesquisadora na área de Relações Internacionais e estudos de defesa, com atuação em temas relacionados à cooperação regional, política externa brasileira e segurança internacional. Sua produção acadêmica concentra-se na análise das dinâmicas de integração e das transformações do sistema internacional.
Samuel Alves Soares é professor e pesquisador reconhecido nos estudos estratégicos e de defesa no Brasil. Vinculado à Universidade Estadual Paulista (Unesp), atua em pesquisas sobre política de defesa, relações civis-militares e integração regional na América do Sul.
Tamires Aparecida Ferreira Souza é pesquisadora associada a projetos acadêmicos voltados à segurança internacional e à cooperação regional em defesa. Seus estudos dialogam com temas de prospectiva estratégica e planejamento político no âmbito das Relações Internacionais.
Juntos, os organizadores articulam uma rede de pesquisadores vinculados a instituições acadêmicas e centros de pesquisa brasileiros, contribuindo para o desenvolvimento de uma agenda científica voltada ao estudo da defesa e da segurança internacional no país.

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