Educação e serviço social: elo para a construção da cidadania – Eliana Bolorino Canteiro Martins


Uma análise crítica sobre o papel do serviço social na política educacional brasileira e sua relevância para a construção da cidadania e da emancipação social.

Bolorino, Eliana.
Educação e serviço social: elo para a construção da cidadania / Eliana Bolorino Canteiro Martins. São Paulo: Editora UNESP, 2012. Inclui bibliografia. ISBN 978-85-393-0243-7

A obra “Educação e serviço social: elo para a construção da cidadania”, de Eliana Bolorino Canteiro Martins, apresenta uma análise rigorosa sobre a inserção do serviço social no campo da política educacional brasileira, com foco empírico na realidade dos municípios do estado de São Paulo. Resultado de uma investigação originalmente desenvolvida no âmbito do doutorado da autora em Serviço Social, o livro se destaca por articular fundamentos teóricos, análise de políticas públicas e pesquisa empírica, oferecendo uma contribuição relevante para o debate contemporâneo sobre a relação entre educação, cidadania e políticas sociais.

Desde suas páginas iniciais, a obra delimita com clareza seu objeto de estudo: compreender de que maneira os assistentes sociais se inserem no espaço institucional da educação pública e quais são as possibilidades e limites dessa atuação no contexto das políticas sociais brasileiras. A autora parte da premissa de que a educação constitui um campo estratégico de intervenção social, tanto para a reprodução das relações de poder quanto para a construção de práticas emancipatórias. Como sintetiza o prefácio da obra, o estudo analisa “as mútuas implicações entre a educação e o serviço social como um elo para a construção da cidadania”.

A perspectiva teórica que sustenta a análise está fortemente ancorada na tradição marxista, especialmente nas reflexões de Antonio Gramsci acerca da hegemonia cultural e da função social da educação. Para Martins, a educação não pode ser compreendida apenas como transmissão de conteúdos escolares, mas como um espaço de disputa ideológica e política. Nesse sentido, a escola aparece como um terreno privilegiado para a formação da consciência crítica e para a construção de uma cultura contra-hegemônica. Como afirma a autora, inspirada na tradição gramsciana, a cultura está relacionada à transformação da realidade, permitindo que os indivíduos “compreendam seu valor histórico, sua função na vida, seus direitos e deveres”.

Essa interpretação confere ao livro uma dimensão analítica que ultrapassa a descrição institucional do serviço social na educação. Ao longo da obra, Martins procura demonstrar que a presença do assistente social no sistema educacional não é apenas uma questão administrativa ou funcional, mas um elemento fundamental para a consolidação de direitos sociais. Nesse contexto, o trabalho do assistente social aparece articulado ao projeto ético-político da profissão, cujo horizonte está na defesa da emancipação humana, da autonomia e da justiça social.

A análise da autora também dialoga com importantes referenciais da pedagogia crítica, especialmente Paulo Freire. Ao abordar o papel da educação na formação de sujeitos sociais conscientes, a obra reafirma que o processo educativo deve ser compreendido dentro de suas contradições históricas. Como destaca Freire, citado no livro, não se deve atribuir à educação um poder absoluto de transformação, mas tampouco negá-la como instrumento de mudança social. Nesse sentido, a autora reconhece as limitações estruturais do sistema educacional, mas enfatiza seu potencial emancipatório quando articulado às lutas sociais e às políticas públicas.

Um dos méritos centrais da obra reside na articulação entre teoria crítica e pesquisa empírica. A investigação realizada por Martins abrangeu dezenas de municípios do estado de São Paulo e buscou identificar a presença do serviço social na política educacional local. O levantamento revelou que apenas uma pequena parcela dos municípios contava com assistentes sociais atuando diretamente na educação básica, o que evidencia tanto a fragilidade institucional dessa inserção quanto a necessidade de ampliar o debate sobre o tema.

Além de mapear a presença desses profissionais, a autora analisou o perfil dos assistentes sociais envolvidos na área educacional e as atividades que desempenham no cotidiano escolar. A pesquisa identificou que grande parte das intervenções profissionais está relacionada à mediação entre escola, família e comunidade, bem como ao enfrentamento de situações de vulnerabilidade social que interferem no processo educativo. Tais atividades incluem acompanhamento de famílias, articulação com políticas sociais complementares e participação em iniciativas voltadas à gestão democrática da escola.

Nesse contexto, a autora identifica três eixos principais de atuação do serviço social na política educacional. O primeiro refere-se à democratização da educação, compreendida como ampliação do acesso e da participação social nas instituições escolares. O segundo envolve a prestação de serviços socioassistenciais e socioeducativos, destinados a garantir condições materiais e sociais para a permanência dos estudantes na escola. O terceiro eixo diz respeito à articulação entre a política educacional e outras políticas sociais, como assistência social, saúde e proteção à infância.

Essa perspectiva evidencia o caráter interdisciplinar da atuação do assistente social no campo educacional. Ao lidar com as múltiplas dimensões da questão social presentes no ambiente escolar, o profissional torna-se um mediador entre diferentes instituições e sujeitos sociais. Dessa forma, sua atuação contribui para fortalecer redes de proteção social e ampliar o alcance das políticas públicas.

Outro aspecto relevante da obra é a análise crítica das transformações recentes nas políticas educacionais brasileiras. Martins examina o impacto das reformas neoliberais na organização do sistema educacional, destacando como essas mudanças influenciam tanto a estrutura das escolas quanto as condições de trabalho dos profissionais da área. Segundo a autora, a reestruturação do capitalismo global e a incorporação da ciência e da tecnologia nos processos produtivos geraram novas demandas educacionais, frequentemente orientadas pela lógica do mercado.

Nesse cenário, a educação passa a desempenhar um papel central na formação da força de trabalho necessária ao capitalismo contemporâneo. Como observa a autora, o sistema educacional tende a se redefinir para formar “um novo trabalhador e um novo homem que contribua para a superação da crise internacional capitalista”. Essa interpretação evidencia a tensão entre a função social emancipatória da educação e sua instrumentalização para fins econômicos.

A análise das políticas públicas também inclui uma discussão sobre a legislação educacional brasileira, especialmente a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Martins argumenta que esses marcos legais ampliaram o reconhecimento da educação como direito social, mas também incorporaram elementos associados à lógica neoliberal de gestão pública. Assim, a política educacional torna-se um espaço contraditório, no qual coexistem avanços democráticos e limitações estruturais.

Essa dimensão contraditória é central para compreender o papel do serviço social na educação. A autora sustenta que o assistente social atua justamente nesse espaço de tensão entre direitos sociais e interesses econômicos, buscando ampliar as possibilidades de inclusão e participação social. Nesse sentido, a intervenção profissional deve estar orientada por uma perspectiva crítica, capaz de identificar as estruturas de dominação presentes nas políticas públicas e promover práticas emancipadoras.

A obra também contribui para o debate sobre a profissionalização do serviço social no Brasil. Ao examinar a trajetória histórica da profissão e sua relação com as políticas sociais, Martins demonstra que o serviço social se constitui como uma prática inserida nas contradições da sociedade capitalista. Como afirma um dos autores citados na obra, a atuação do assistente social está sempre “polarizada pelos interesses das classes sociais”, respondendo simultaneamente às demandas do capital e às necessidades da classe trabalhadora

Essa análise reforça a importância de uma postura crítica por parte dos profissionais da área. Em vez de se limitar à execução de políticas públicas, o assistente social deve atuar como agente de mediação e transformação social. A educação, nesse sentido, torna-se um campo privilegiado para o desenvolvimento dessa prática crítica, pois envolve diretamente a formação de sujeitos sociais e a construção de valores democráticos.

No plano metodológico, o livro apresenta uma pesquisa qualitativa que combina levantamento de dados, questionários e entrevistas com profissionais da área. Essa abordagem permite compreender não apenas a estrutura institucional da política educacional, mas também as experiências concretas dos assistentes sociais que atuam nesse campo. O resultado é uma análise rica e multifacetada, que articula dados empíricos e reflexão teórica.

Em termos de contribuição acadêmica, a obra de Eliana Bolorino Canteiro Martins representa um avanço significativo no estudo das relações entre serviço social e educação no Brasil. Ao sistematizar informações dispersas e oferecer uma análise crítica fundamentada, o livro abre novas perspectivas para pesquisas futuras e fortalece o debate sobre a atuação profissional no campo educacional.

Em síntese, “Educação e serviço social: elo para a construção da cidadania” constitui uma leitura essencial para pesquisadores, estudantes e profissionais interessados nas interfaces entre políticas sociais, educação e cidadania. A obra demonstra que a presença do serviço social na escola não deve ser vista apenas como uma intervenção técnica, mas como parte de um projeto político mais amplo voltado à construção de uma sociedade democrática e socialmente justa.


Biografia da autora

Eliana Bolorino Canteiro Martins é assistente social, pesquisadora e professora universitária brasileira. Graduou-se em Serviço Social em 1983 pela Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino de Bauru. Posteriormente concluiu mestrado em Serviço Social pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Franca, em 2001, e doutorado na mesma área pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 2007.

Ao longo de sua trajetória profissional, atuou como assistente social no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo e consolidou carreira acadêmica como docente do curso de Serviço Social da Unesp, campus de Franca. Suas pesquisas concentram-se especialmente nas relações entre serviço social, educação, infância e juventude, políticas públicas e processos de trabalho do assistente social. Sua produção acadêmica contribui para o aprofundamento do debate crítico sobre o papel das políticas sociais na construção da cidadania e na promoção de direitos sociais no Brasil.

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