Uma leitura crítica do dicionário que sistematiza falsos cognatos entre italiano e português e amplia os debates sobre lexicografia pedagógica e aprendizagem de línguas.
SABINO, Marilei Amadeu. Dicionário italiano-português de “falsos cognatos” e “cognatos enganosos”: subsídios teóricos e práticos ao ensino/aprendizagem de línguas, à lexicografia pedagógica e à tradução. São Paulo: Editora Unesp, 2011. ISBN 978-85-393-0212-3. Inclui bibliografia. Classificação: CDD 458.2469; CDU 811.134.2’243.
A obra Dicionário italiano-português de “falsos cognatos” e “cognatos enganosos”, de Marilei Amadeu Sabino, representa uma contribuição significativa para os estudos lexicográficos e para o ensino de línguas estrangeiras no Brasil. Publicado pela Editora Unesp, o livro combina fundamentação teórica e aplicação prática ao apresentar um dicionário especializado voltado à identificação e análise de falsos cognatos entre o italiano e o português. Mais do que uma simples compilação lexical, a obra constitui um estudo sistemático sobre a relação entre semelhança formal e divergência semântica entre palavras de diferentes idiomas, fenômeno que frequentemente provoca equívocos no processo de aprendizagem e tradução.
Desde a introdução, Sabino estabelece o problema central que orienta sua investigação: a persistente confusão terminológica e conceitual em torno dos chamados falsos cognatos. Segundo a autora, as discussões sobre esse fenômeno linguístico ainda são objeto de debate na literatura especializada, tanto na linguística aplicada quanto na lexicografia bilíngue. Como observa no início da obra, “as discussões teóricas sobre ‘falsos cognatos’ presentes nas línguas estrangeiras, quando contrastadas entre si, são, ainda hoje, polêmicas” (Sabino, 2011, p.10). Essa constatação revela a necessidade de estudos sistemáticos que delimitem o fenômeno e ofereçam instrumentos práticos para estudantes, tradutores e professores.
O livro surge, portanto, como continuidade de uma investigação anterior da autora, na qual ela havia analisado teoricamente a origem e a natureza dos falsos cognatos. Nesta nova obra, Sabino dedica-se a desenvolver a dimensão aplicada de sua pesquisa, elaborando um dicionário bilíngue que descreve vocábulos italianos potencialmente problemáticos para falantes de português. Como a própria autora explica, o objetivo é oferecer “um dicionário bilíngue italiano-português de ‘falsos cognatos’ e ‘cognatos enganosos’, pertinente tanto ao ensino/aprendizagem de línguas quanto à lexicografia pedagógica e à tradução” (Sabino, 2011, p.10).
A principal contribuição conceitual do trabalho consiste na distinção entre falsos cognatos e cognatos enganosos. Na tradição linguística, esses termos frequentemente aparecem como sinônimos ou são confundidos com a expressão “falsos amigos”. Sabino propõe, contudo, uma diferenciação precisa entre esses fenômenos. De acordo com sua definição, falsos cognatos são palavras de línguas diferentes que apresentam semelhança formal, mas possuem origens etimológicas distintas e significados diferentes. Já os cognatos enganosos possuem origem comum, mas desenvolveram sentidos divergentes ao longo da evolução histórica das línguas. Assim, a autora define falsos cognatos como “unidades lexicais pertencentes a duas ou mais línguas distintas que, apesar de serem provenientes de étimos diferentes, resultaram em vocábulos ortográfica ou fonologicamente semelhantes, embora seus valores semânticos sejam bastante distintos” (Sabino, 2011, p.12).
Essa distinção revela uma preocupação metodológica importante. Ao separar os dois fenômenos, Sabino evita simplificações comuns no ensino de línguas, nas quais palavras formalmente semelhantes são tratadas como equivalentes sem considerar sua história semântica. A autora também critica a própria expressão “falsos cognatos”, argumentando que o termo pode gerar ambiguidades devido à polissemia do adjetivo “falso”. Ainda assim, reconhece sua ampla difusão na literatura linguística e mantém a expressão, desde que usada com rigor conceitual.
Do ponto de vista estrutural, o livro apresenta organização clara e funcional. Após a introdução teórica, a autora dedica um capítulo à construção da obra lexicográfica, no qual descreve os critérios de seleção das unidades lexicais e os princípios metodológicos adotados. Em seguida, apresenta o dicionário propriamente dito, composto por mais de duzentas entradas organizadas alfabeticamente. Cada verbete contém informações detalhadas sobre o vocábulo italiano, incluindo categoria gramatical, equivalentes em português, exemplos de uso e observações semânticas.
Um dos aspectos mais interessantes da obra é a atenção dada à microestrutura dos verbetes. Sabino explica cuidadosamente os critérios utilizados para organizar as informações lexicais, incluindo a distinção entre sentidos exclusivos do italiano, sentidos afins entre as duas línguas e correspondentes italianos para os vocábulos portugueses semelhantes. Essa estrutura permite ao leitor compreender não apenas a tradução de uma palavra, mas também os contextos semânticos em que ela pode gerar equívocos. Como observa a autora, cada verbete apresenta “o vocábulo em italiano, sua categoria gramatical, equivalentes ou definições em português, exemplificações com tradução e eventuais expressões que alterem o sentido do termo” (Sabino, 2011, p.23).
Além da organização lexicográfica, a obra apresenta reflexão relevante sobre o papel dos dicionários bilíngues no processo de aprendizagem de línguas. Sabino critica a falta de sistematicidade de muitos dicionários gerais, que frequentemente deixam de indicar a presença de heterossemânticos — isto é, palavras semelhantes com significados distintos. Essa ausência de marcação pode induzir estudantes a interpretações errôneas. Como observa a autora, alguns dicionários traduzem diretamente certos verbos italianos por equivalentes portugueses formalmente semelhantes, sem indicar que seus significados são diferentes, o que pode gerar traduções equivocadas (Sabino, 2011, p.16).
Um exemplo particularmente elucidativo aparece na análise do verbo italiano attendere. Embora formalmente semelhante ao português atender, seu significado principal é “esperar” ou “aguardar”. A tradução literal pode, portanto, produzir frases semanticamente absurdas. Sabino observa que “o verbo attendere [italiano], embora seja um cognato enganoso em relação ao verbo atender [português], assumiu significados tão distintos que não comporta mais o sentido de atender” (Sabino, 2011, p.17). Essa observação demonstra a importância de uma análise semântica cuidadosa na elaboração de materiais didáticos e dicionários.
Outro aspecto relevante da obra é a classificação tipológica dos falsos cognatos e cognatos enganosos. Com base em estudos anteriores, a autora identifica quatro tipos principais de relações formais entre palavras semelhantes de línguas diferentes: homônimos, homógrafos, homófonos e parônimos. Essa tipologia permite compreender como diferentes níveis de semelhança fonológica ou gráfica podem gerar confusão semântica. Por exemplo, palavras como burro em italiano (manteiga) e burro em português (asno) representam homônimos com sentidos completamente diferentes (Sabino, 2011, p.20).
A relevância pedagógica do trabalho torna-se evidente quando a autora apresenta exemplos de frases que podem induzir aprendizes brasileiros a erros de interpretação. Expressões italianas aparentemente simples, como una torta di nozze, podem ser traduzidas erroneamente como “uma torta de nozes”, quando na verdade significam “bolo de casamento”. Do mesmo modo, un negozio di burro não significa “negócio de gente burra”, mas “loja onde se vende manteiga” (Sabino, 2011, p.30). Esses exemplos demonstram como a proximidade lexical entre idiomas neolatinos pode ser enganosa para estudantes iniciantes.
Sob a perspectiva da linguística aplicada, o livro também dialoga com questões mais amplas relacionadas ao ensino de línguas estrangeiras. Sabino argumenta que a identificação sistemática de falsos cognatos pode contribuir para reduzir erros de tradução e melhorar a compreensão textual. Além disso, a autora sugere que dicionários bilíngues deveriam incluir marcas específicas para indicar essas unidades lexicais problemáticas, funcionando como um alerta para o usuário.
Do ponto de vista científico, a obra apresenta mérito ao integrar teoria linguística e aplicação prática. A autora fundamenta suas análises em estudos de lexicologia, etimologia e semântica, mas evita excesso de tecnicismo, mantendo o texto acessível a leitores não especialistas. Essa abordagem híbrida reforça o caráter pedagógico do trabalho, tornando-o útil tanto para pesquisadores quanto para estudantes de italiano.
Outro aspecto digno de nota é a preocupação da autora com a clareza metodológica. Sabino reconhece que seu dicionário não pretende ser exaustivo, mas sim apresentar um corpus representativo de falsos cognatos entre italiano e português. A seleção das entradas baseou-se em listas de frequência lexical da língua italiana contemporânea, garantindo que os vocábulos descritos sejam relevantes para o uso real da língua.
Em síntese, Dicionário italiano-português de “falsos cognatos” e “cognatos enganosos” constitui obra de grande valor para a lexicografia pedagógica e para os estudos de linguística aplicada. Ao propor distinção conceitual rigorosa entre falsos cognatos e cognatos enganosos, Sabino contribui para clarificar um tema frequentemente tratado de forma superficial. Ao mesmo tempo, a elaboração de um dicionário especializado oferece instrumento prático para estudantes, tradutores e professores de italiano.
A relevância da obra ultrapassa o campo específico do italiano, pois o fenômeno dos falsos cognatos ocorre em diversas línguas e contextos de aprendizagem. Assim, o livro também serve como modelo metodológico para futuros estudos lexicográficos comparativos. Ao articular teoria linguística, análise etimológica e aplicação pedagógica, Sabino demonstra como a lexicografia pode contribuir de maneira concreta para o ensino de línguas estrangeiras.
Biografia da autora
Marilei Amadeu Sabino é linguista, professora universitária e pesquisadora brasileira especializada em lexicografia e ensino de línguas estrangeiras. Graduada em Letras/Tradução em francês e inglês pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de São José do Rio Preto, também possui licenciatura em Letras com habilitação em inglês e português. Obteve o título de mestre em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e doutorado em Linguística e Língua Portuguesa pela Unesp, campus de Araraquara, onde também realizou estágio de pós-doutorado. Atua como professora de língua italiana nos cursos de Letras e Tradução da Unesp em São José do Rio Preto. Suas pesquisas concentram-se principalmente nos estudos do léxico, na lexicografia pedagógica e na elaboração de materiais didáticos para o ensino de línguas estrangeiras, além de investigações sobre fraseologia e dicionários bilíngues especializados.

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