CRÍTICA: Tripla ameaça (2009)

O cinema de ação do final dos anos 2010 encontrou-se em uma encruzilhada peculiar. Por um lado, a dominação de super-heróis em CGI criava espetáculos grandiosos, mas frequentemente desprovidos de peso físico. Por outro, a necessidade de um retorno ao artesanato de combate corpo a corpo tornava-se cada vez mais evidente. É neste cenário que Tripla Ameaça (2019), dirigido por Jesse V. Johnson, emerge não apenas como um filme de gênero, mas como um manifesto em defesa do cinema de artes marciais raiz. Reunindo três dos maiores expoentes contemporâneos do gênero — Tony Jaa, Iko Uwais e Tiger Hu Chen — o filme tenta, com relativo sucesso, equilibrar o peso narrativo com a grandiosidade coreográfica, inserindo-se em uma linhagem de produções globais que celebram o multiculturalismo na violência cinematográfica.

A premissa de Tripla Ameaça é intencionalmente arquetípica, servindo mais como um esqueleto para a ação do que como uma obra de complexidade dramática. Acompanhamos Xiao Xian, filha de um bilionário chinês, que se torna alvo de um cartel criminoso internacional após decidir usar sua fortuna para combater o crime organizado em sua cidade. A narrativa a coloca no centro de uma guerra entre mercenários ocidentais, liderados pelo implacável Collins (Scott Adkins) e seu braço direito Joey (Michael Jai White), e um trio de protetores improváveis: Payu (Tony Jaa), Jaka (Iko Uwais) e Long Fei (Tiger Hu Chen).

O grande mérito estrutural de Tripla Ameaça é como ele introduz seus protagonistas. O filme não os coloca juntos imediatamente; em vez disso, estabelece o contexto de cada um no submundo sombrio da cidade de Marajá. Iko Uwais, conhecido pela intensidade bruta de The Raid, interpreta Jaka, um homem que busca uma vida pacífica, mas é tragado de volta à violência quando sua esposa é assassinada pelo cartel de Collins. O arco de Jaka é o mais emocionalmente carregado, servindo como a âncora moral da narrativa. A atuação de Uwais é contida, focada na dor interna que se transforma em fúria calculada.

Em contraste, Tony Jaa e Tiger Hu Chen interpretam Payu e Long Fei, dois mercenários traídos pelo grupo de Collins que buscam redenção e dinheiro. Jaa, eterno ícone de Ong-Bak, traz uma fisicalidade mais acrobática e direta, enquanto Chen adiciona um toque de alívio cômico e pragmatismo. A química entre os três é desenvolvida lentamente. Inicialmente rivais, eles se unem pela necessidade mútua de sobrevivência e vingança. A cena em que os três se enfrentam em um ringue de luta clandestino é um dos pontos altos do primeiro ato, funcionando como uma validação de suas habilidades antes de se tornarem aliados. Este momento é crucial para o espectador entender as nuances de cada estilo de luta: a força explosiva de Jaa, a técnica precisa de Uwais e a agilidade de Chen.

Jesse V. Johnson, um diretor experiente no circuito de filmes de ação diretos para vídeo, demonstra uma compreensão aguçada de como filmar lutas. Ao contrário da tendência moderna de cortes rápidos e câmera tremida que escondem a falta de habilidade dos atores, Johnson aposta em planos abertos e coreografias longas. Isso permite que o público aprecie a técnica de Jaa, Uwais e Chen. A câmera respeita a fisicalidade dos intérpretes.

A cinematografia utiliza uma paleta de cores frias para os momentos de conspiração do cartel e tons mais quentes e sujos para o submundo onde os heróis operam. O design de som é outro aspecto notável; o impacto de cada soco, chute e disparo é audível e pesado, aumentando a sensação de perigo real. O filme não foge da violência gráfica, mas ela nunca parece gratuita; ela pontua a gravidade do conflito.

Um filme de ação é tão bom quanto seu vilão, e Tripla Ameaça se destaca ao escalar Scott Adkins como Collins. Adkins, um mestre da atuação física, traz uma presença imponente e cínica ao papel. Seu Collins não é apenas um mercenário; ele é um sociopata que vê a guerra como um negócio. A dinâmica entre ele e Michael Jai White (como Joey) funciona como um espelho escuro dos protagonistas: uma dupla eficiente, mas sem lealdade moral.

A análise do arco de Collins revela um homem que subestima o trio de heróis até que seja tarde demais. Ele confia na força bruta e na tecnologia superior de sua equipe ocidental, ignorando a destreza técnica e a motivação pessoal de Payu, Jaka e Long Fei. O confronto final entre Collins e os heróis é um espetáculo de pura adrenalina, onde a fisicalidade de Adkins é testada ao limite contra a agilidade combinada dos três protagonistas.

Quando comparado a outras franquias de ação, Tripla Ameaça ocupa um lugar peculiar. Ele não tem a polidez narrativa de John Wick, nem a escala épica de Missão Impossível. No entanto, ele supera a maioria dos filmes de ação americanos contemporâneos na qualidade técnica das lutas corpo a corpo. O filme presta homenagem a clássicos do cinema de ação de Hong Kong dos anos 80 e 90, com coreografias que priorizam a criatividade em cenários limitados.

Em relação aos trabalhos anteriores dos próprios atores, o filme funciona como um 'Vingadores' do cinema de luta. Ele não tenta reinventar o estilo de The Raid, mas sim celebrá-lo. Para Jaa, representa um retorno a um papel mais sério após experimentos de Hollywood. Para Uwais, é a consolidação de sua imagem como estrela internacional capaz de carregar um filme ocidental.

Um momento decisivo na narrativa é a emboscada na delegacia. A cena funciona como um microcosmo do filme: caos controlado, estratégias mudando em tempo real e a necessidade de cooperação. É aqui que o arco de Jaka se fecha parcialmente, ao aceitar a ajuda de Payu e Long Fei, mudando de um vingador solitário para parte de uma equipe. Outro ponto crucial é o clímax no hotel, um cenário vertical que permite coreografias complexas envolvendo múltiplos andares, elevadores e corredores estreitos.

O arco da personagem Xiao Xian, embora secundário em termos de ação física, é fundamental para mover a trama. Ela evolui de uma vítima passiva para alguém que entende o custo da justiça, ganhando o respeito dos mercenários que a protegem. O final do filme, com a derrota do cartel e a promessa de uma nova aliança entre os três protagonistas, deixa um arco aberto para futuras aventuras, embora o filme funcione perfeitamente como uma narrativa fechada.

Tripla Ameaça não é um filme que busca profundidade psicológica ou inovação narrativa. Ele é, no entanto, um exercício técnico exemplar. Ele entende o que seu público deseja: coreografias bem executadas, atores talentosos que fazem suas próprias cenas de risco e um ritmo alucinante. Ao unir lendas da Ásia com astros do cinema de ação ocidental, Johnson criou uma obra que transcende barreiras linguísticas através da linguagem universal da luta física. É uma obra que respeita o passado do cinema de artes marciais enquanto tenta estabelecer um padrão para o seu futuro, provando que, no cinema de ação, o artesanato humano ainda é insubstituível.

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