FONTERADA, Marisa Trench de Oliveira.
Ciranda de sons: práticas criativas em educação musical.
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ed. São Paulo: Editora Unesp Digital, 2015.
Recurso digital (ePub).
ISBN: 978-85-68334-60-7.
A obra Ciranda de sons: práticas criativas em educação musical, de Marisa Trench de Oliveira Fonterrada, constitui um estudo abrangente sobre as transformações contemporâneas no ensino de música e sobre o papel da criatividade na formação musical. Publicado pela Editora Unesp, o livro articula investigação acadêmica, reflexão pedagógica e experiência prática, apresentando um panorama detalhado das chamadas práticas criativas em educação musical, campo que ganhou relevância sobretudo a partir da segunda metade do século XX.
Desde as primeiras páginas, a autora deixa evidente o problema central que motiva sua investigação: a predominância de métodos tradicionais de ensino musical baseados na reprodução técnica e na interpretação de repertório consagrado, em detrimento da experimentação criativa e da improvisação. Segundo Fonterrada, o ensino musical consolidou-se historicamente em torno de um paradigma técnico-instrumental que privilegia a execução correta da obra musical, frequentemente limitando o espaço para a invenção sonora e a expressão autoral dos estudantes.
A autora observa que, em muitos contextos educacionais, a formação musical permanece estruturada em torno da performance técnica, enquanto as atividades criativas ocupam uma posição marginal. Como ela própria afirma, “a tradição de ensino e aprendizagem de música [...] tem por objetivo preparar seus alunos para tocar um instrumento musical ou cantar, o que demanda muito trabalho técnico-instrumental” (p.16)
Nesse contexto, Ciranda de sons propõe um deslocamento epistemológico importante: compreender a educação musical não apenas como treinamento técnico, mas como um espaço de experimentação estética, expressão individual e construção coletiva do conhecimento musical. Para isso, a autora analisa diferentes experiências pedagógicas que incorporam improvisação, criação sonora e processos colaborativos na aprendizagem da música.
A investigação conduzida por Fonterrada tem caráter abrangente e combina diferentes metodologias. O estudo inclui levantamento bibliográfico, análise de produção acadêmica, entrevistas com especialistas e aplicação de questionários a educadores musicais. Trata-se, portanto, de uma pesquisa que busca mapear o estado da arte das práticas criativas em educação musical no Brasil.
De acordo com a autora, esse tipo de pesquisa tem como objetivo compreender como determinado tema vem sendo abordado na produção acadêmica. Conforme ela explica, as pesquisas de “estado da arte” procuram “mapear e discutir uma certa produção acadêmica em diferentes campos do conhecimento” (p.20)
Um dos aspectos mais relevantes da obra é o diálogo que estabelece entre diferentes tradições pedagógicas da educação musical. Fonterrada recupera a contribuição de importantes educadores do século XX — como Émile Jaques-Dalcroze, Zoltán Kodály, Carl Orff e Shinichi Suzuki — destacando que, embora suas propostas tenham introduzido inovações metodológicas, muitas delas permaneceram centradas no ensino musical em si, e não necessariamente na criatividade do aluno.
Ao discutir a evolução das abordagens pedagógicas, a autora observa que apenas a partir da década de 1960 surgiu um conjunto mais consistente de propostas voltadas explicitamente à criação musical. Entre os educadores que contribuíram para essa mudança de paradigma estão nomes como John Paynter, Murray Schafer e Boris Porena, cujas metodologias enfatizam a composição coletiva, a improvisação e a escuta ativa como elementos fundamentais da formação musical.
Nesse sentido, Fonterrada destaca que essas abordagens propõem uma concepção ampliada da aprendizagem musical, na qual o estudante é encorajado a experimentar sons, explorar timbres e desenvolver autonomia criativa. Como a autora argumenta, tais propostas buscam “colocar alunos de diferentes faixas etárias em contato direto com práticas criativas” (p.17)
A pesquisa apresentada no livro também examina o desenvolvimento dessas práticas no Brasil. Fonterrada mostra que iniciativas voltadas à criação musical começaram a surgir no país nas décadas de 1960 e 1970, especialmente em contextos universitários e em oficinas experimentais de música. Entre os pioneiros dessas experiências estão músicos e educadores ligados ao Instituto Villa-Lobos e à Universidade de Brasília.
Apesar dessas iniciativas inovadoras, a autora argumenta que a presença de práticas criativas no ensino musical brasileiro ainda permanece limitada. Muitos conservatórios e escolas de música continuam estruturados em torno de modelos pedagógicos tradicionais, centrados na execução instrumental e na interpretação do repertório clássico.
Essa tensão entre tradição e inovação constitui um dos eixos centrais da análise desenvolvida em Ciranda de sons. Para Fonterrada, o desafio contemporâneo da educação musical consiste justamente em equilibrar o domínio técnico com a liberdade criativa. A formação musical, nesse sentido, deve promover tanto a competência instrumental quanto a capacidade de invenção artística.
Outro aspecto importante abordado pela autora diz respeito à relação entre educação musical e outras linguagens artísticas. Ao longo do livro, Fonterrada argumenta que a criação musical pode ser enriquecida pelo diálogo com áreas como teatro, dança e artes visuais. Esse caráter interdisciplinar amplia as possibilidades expressivas dos estudantes e contribui para uma formação estética mais abrangente.
A autora também discute experiências concretas de práticas criativas desenvolvidas em contextos acadêmicos e pedagógicos. Um exemplo significativo é o seminário de improvisação livre realizado no Instituto de Artes da Unesp com a participação da musicista espanhola Chefa Alonso. Essa iniciativa explorou técnicas de improvisação coletiva, nas quais os participantes eram estimulados a explorar timbres, criar atmosferas sonoras e interagir musicalmente em tempo real.
Segundo Fonterrada, a improvisação livre constitui um modelo pedagógico particularmente fértil, pois incentiva a escuta atenta, a tomada de decisões e a interação entre os músicos. Nesse tipo de prática, não há estruturas musicais previamente definidas; a obra emerge do diálogo entre os participantes e de suas escolhas sonoras no momento da execução.
Essa abordagem enfatiza a dimensão coletiva da criação musical. Como destaca a autora, a improvisação permite que cada participante contribua com sua própria linguagem sonora, ao mesmo tempo em que se integra a um processo criativo compartilhado. Assim, o grupo torna-se um organismo musical dinâmico, capaz de produzir formas sonoras imprevisíveis e inovadoras.
Outro mérito da obra é a forma como articula teoria e prática. Fonterrada não se limita a discutir conceitos pedagógicos abstratos; ao contrário, apresenta exemplos concretos de atividades, exercícios e metodologias que podem ser aplicados no ensino musical. Essa característica torna o livro particularmente útil para professores, pesquisadores e estudantes da área de educação musical.
Do ponto de vista acadêmico, Ciranda de sons também se destaca pela amplitude de seu levantamento bibliográfico e pela diversidade de fontes analisadas. A autora examina teses, dissertações, artigos científicos e relatos de experiência, oferecendo um panorama detalhado da produção acadêmica relacionada ao tema das práticas criativas.
Essa dimensão investigativa reforça o caráter científico da obra, que se insere no campo das pesquisas em educação musical e pedagogia das artes. Ao mapear a presença dessas práticas no Brasil e no exterior, Fonterrada contribui para consolidar uma área de estudo ainda relativamente recente na literatura acadêmica.
Em termos críticos, pode-se afirmar que o principal valor do livro reside em sua capacidade de problematizar os modelos tradicionais de ensino musical e de propor alternativas pedagógicas mais abertas à experimentação. Ao enfatizar a importância da criatividade, da improvisação e da escuta sensível, a autora aponta caminhos para uma educação musical mais democrática e inclusiva.
Além disso, a obra dialoga com debates contemporâneos sobre a função da arte na educação. Em um contexto marcado pela crescente padronização curricular e pela valorização de competências técnicas, a defesa da criatividade artística assume um significado particularmente relevante.
Nesse sentido, Ciranda de sons reafirma a importância da educação musical como espaço de formação estética, expressão subjetiva e desenvolvimento crítico. A música, nesse contexto, não é apenas um conjunto de técnicas ou conhecimentos especializados, mas uma linguagem capaz de ampliar a sensibilidade e a imaginação dos indivíduos.
Ao final da leitura, torna-se evidente que o livro de Marisa Fonterrada representa uma contribuição significativa para o campo da educação musical no Brasil. Sua análise rigorosa, aliada à experiência pedagógica da autora, oferece subsídios valiosos para repensar práticas de ensino e promover uma formação musical mais criativa e participativa.
Biografia da autora
Marisa Trench de Oliveira Fonterrada é uma das principais pesquisadoras brasileiras na área de educação musical. Doutora em educação e professora do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a autora dedicou grande parte de sua carreira ao estudo da pedagogia musical, da criatividade sonora e das metodologias de ensino de música.
Ao longo de sua trajetória acadêmica, Fonterrada coordenou o Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Musical (GEPEM), responsável por diversas investigações sobre processos criativos na aprendizagem musical. Seu trabalho também envolve colaboração com pesquisadores internacionais e participação em projetos voltados à inovação pedagógica no ensino de música.
Além de Ciranda de sons, a autora publicou diversos livros e artigos científicos sobre educação musical, improvisação e criatividade artística, tornando-se referência no debate sobre a renovação das práticas pedagógicas no campo da música.
Seu trabalho contribuiu significativamente para a consolidação da educação musical como área de pesquisa no Brasil e para a difusão de metodologias que valorizam a experimentação, a escuta ativa e a criação coletiva no ensino das artes.

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