A discussão sobre o papel da música na formação escolar brasileira ganhou novo impulso nas últimas décadas, especialmente após mudanças legislativas que recolocaram a educação musical no centro do debate educacional. Nesse cenário, o livro A educação musical em cursos de Pedagogia do estado de São Paulo, de Wasti Silvério Ciszevski Henriques, surge como uma investigação acadêmica consistente e profundamente documentada sobre um tema que permanece decisivo para o desenvolvimento cultural e pedagógico do país. Publicada pela Editora UNESP em 2013, a obra examina a presença da música na formação inicial de professores que atuarão nas séries iniciais da educação básica, investigando como os cursos de Pedagogia paulistas incorporam – ou negligenciam – o ensino musical em seus currículos. O estudo revela que a qualidade da educação musical nas escolas depende, em grande medida, do modo como os futuros pedagogos são preparados durante sua formação universitária, o que torna o livro não apenas um levantamento acadêmico, mas também um diagnóstico crítico das políticas educacionais brasileiras.
A relevância da obra torna-se ainda mais evidente quando se considera o contexto histórico em que foi produzida. A promulgação da Lei nº 11.769, em 2008, tornou obrigatório o ensino de música na educação básica brasileira, o que desencadeou uma série de debates sobre a formação de professores capazes de implementar essa mudança curricular. A pesquisa desenvolvida por Henriques nasce exatamente desse momento de transição, quando a sociedade educacional brasileira começou a questionar se existiam condições institucionais, pedagógicas e profissionais para cumprir aquilo que a legislação determinava.
HENRIQUES, Wasti Silvério Ciszevski. A educação musical em cursos de Pedagogia do estado de São Paulo. São Paulo: Editora UNESP, 2013. Recurso digital. ISBN 978-85-393-0485-1. Classificação: CDD 780.7; CDU 780.7. Assuntos: música – instrução e ensino; música e educação; prática de ensino; formação de professores.
Sinopse
O livro apresenta uma investigação sobre a presença da educação musical nos cursos de Pedagogia do estado de São Paulo. A autora analisa currículos universitários, observa aulas de música em cursos de formação docente e coleta depoimentos de alunos, professores e coordenadores. A pesquisa revela quais concepções pedagógicas orientam o ensino musical nesses cursos e examina como os futuros professores das séries iniciais são preparados para trabalhar com música na educação básica. Ao final, a obra apresenta reflexões críticas sobre a implementação da educação musical nas escolas brasileiras e sobre os desafios da formação docente nesse campo.
A introdução do livro estabelece imediatamente o tom crítico e analítico da obra ao situar o leitor no contexto das transformações recentes da educação musical no Brasil. Logo nas primeiras páginas, a autora afirma que o país vive um momento histórico marcado pela “volta da música” às escolas, expressão que se tornou recorrente após a promulgação da lei que tornou obrigatório o ensino musical na educação básica.
Contudo, Henriques observa que essa expressão não deve ser compreendida de maneira literal, pois diversos pesquisadores argumentam que a música jamais deixou completamente o espaço escolar. O que retorna, na verdade, é a preocupação institucional e acadêmica com as práticas musicais no ambiente educacional. Essa distinção é fundamental para compreender o problema central da obra: embora a música esteja presente de diversas maneiras na cultura escolar, sua institucionalização como disciplina curricular ainda enfrenta inúmeros obstáculos.
A autora cita estudos e debates realizados no âmbito da Associação Brasileira de Educação Musical (Abem) para demonstrar que a simples existência de uma lei não garante a presença efetiva da música nas escolas. Como afirma uma das especialistas mencionadas no livro, seria ingênuo acreditar que a legislação, por si só, resolveria o problema da educação musical no país.
Essa constatação conduz a uma das perguntas centrais da pesquisa: quem será responsável por ensinar música nas escolas brasileiras? O problema torna-se ainda mais complexo quando se considera que o número de licenciados em música no país é insuficiente para atender à demanda gerada pela nova legislação. O livro apresenta dados que ilustram essa realidade, indicando que o Brasil possui poucos cursos de licenciatura em música e que o número de formandos na área ainda é muito reduzido diante da necessidade das escolas.
Diante desse cenário, a autora propõe uma hipótese provocadora: os pedagogos que atuam nas séries iniciais da educação básica podem desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento musical das crianças. Como esses professores permanecem diariamente com os alunos durante as atividades escolares, eles possuem uma posição privilegiada para estimular experiências musicais no cotidiano da sala de aula.
Essa perspectiva representa uma mudança significativa na maneira tradicional de compreender a educação musical. Em vez de depender exclusivamente de especialistas em música, o sistema educacional poderia investir na formação musical dos próprios professores generalistas que já atuam nas escolas. A autora argumenta que essa estratégia permitiria ampliar significativamente o acesso das crianças à educação musical.
O livro desenvolve essa discussão ao longo de quatro capítulos estruturados de maneira progressiva. O primeiro capítulo apresenta uma análise histórica do ensino superior e da formação de professores no Brasil, abordando o lugar das artes – e particularmente da música – nos cursos de Pedagogia. Nesse contexto, a autora dialoga com teóricos da educação como José Carlos Libâneo, que define a educação como uma prática social intencional voltada ao desenvolvimento humano por meio da transmissão e apropriação de conhecimentos e valores.
Essa fundamentação teórica permite compreender a formação docente como um processo que ultrapassa a simples transmissão de conteúdos. Trata-se de preparar profissionais capazes de intervir criativamente na realidade educacional e cultural da sociedade.
O segundo capítulo apresenta um levantamento detalhado dos cursos de Pedagogia no estado de São Paulo que oferecem ensino musical em seus currículos. A autora identifica vinte e sete instituições que incluem disciplinas relacionadas à música, analisando suas características gerais, estrutura curricular e perfil institucional. Esse levantamento constitui uma contribuição importante para a área, pois oferece um panorama sistemático da presença da música na formação pedagógica paulista.
No terceiro capítulo, a pesquisa assume uma dimensão mais empírica. A autora acompanha aulas de música em cinco cursos de Pedagogia, observando metodologias de ensino, conteúdos abordados e atividades práticas desenvolvidas com os estudantes. Esse trabalho de campo permite compreender como a educação musical é efetivamente ensinada dentro das universidades.
Henriques descreve, por exemplo, atividades que envolvem exploração sonora, práticas de canto, criação musical e utilização de instrumentos simples. Essas experiências pedagógicas revelam que o ensino musical pode ser incorporado ao cotidiano escolar de maneira acessível e criativa, mesmo quando os professores não possuem formação especializada em música.
O quarto capítulo apresenta os resultados de questionários aplicados a alunos, professores e coordenadores dos cursos investigados. Esses depoimentos revelam percepções diversas sobre a importância da música na formação docente. Muitos estudantes relatam que o contato com a disciplina musical ampliou sua compreensão sobre o papel da arte no desenvolvimento infantil e despertou interesse em utilizar atividades musicais em suas futuras práticas pedagógicas.
Ao mesmo tempo, a pesquisa identifica limitações estruturais que dificultam a expansão da educação musical nos cursos de Pedagogia. Entre essas dificuldades estão a escassez de carga horária dedicada à música, a falta de infraestrutura adequada e a ausência de professores especializados em educação musical.
A análise conduzida por Henriques revela uma contradição importante no sistema educacional brasileiro. Embora documentos oficiais reconheçam a importância das artes na formação docente, muitas instituições ainda tratam essas áreas como componentes secundários do currículo. Como resultado, a música frequentemente aparece de maneira marginal ou superficial nos cursos de Pedagogia.
Ao longo da obra, a autora demonstra que a formação musical dos professores das séries iniciais não deve ser vista como substituição do especialista em música, mas como uma complementação pedagógica necessária. Em um cenário ideal, pedagogos e educadores musicais poderiam atuar de maneira colaborativa, ampliando as possibilidades de aprendizagem artística nas escolas.
Esse argumento ganha força quando a autora cita estudos que demonstram como o contato cotidiano com experiências musicais pode estimular criatividade, sensibilidade estética e desenvolvimento cognitivo nas crianças. Assim, a presença da música na educação básica não deve ser compreendida apenas como formação artística, mas também como instrumento de desenvolvimento humano e social.
O livro encerra sua análise com uma reflexão crítica sobre o futuro da educação musical no Brasil. A autora argumenta que a implementação efetiva da música nas escolas dependerá de políticas educacionais consistentes, investimentos na formação docente e maior valorização das artes no currículo escolar.
Nesse sentido, A educação musical em cursos de Pedagogia do estado de São Paulo ultrapassa os limites de um estudo acadêmico específico e se transforma em uma reflexão ampla sobre os rumos da educação brasileira. Ao investigar a formação musical de professores, Henriques revela uma dimensão frequentemente negligenciada das políticas educacionais: a importância da cultura e da arte na construção de uma escola verdadeiramente democrática e humanista.
Minibiografia da autora
Wasti Silvério Ciszevski Henriques é pesquisadora e educadora brasileira dedicada ao campo da educação musical e da formação de professores. Mestre em Música pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp), desenvolveu pesquisas voltadas à presença da música na formação pedagógica e às práticas de ensino musical na educação básica. Sua produção acadêmica concentra-se na investigação das relações entre pedagogia, arte e políticas educacionais, com especial interesse na formação musical de professores que atuam nas séries iniciais da escola. Ao longo de sua carreira, Henriques tem contribuído para o debate sobre a democratização do ensino musical no Brasil, defendendo a ampliação da presença da música no currículo escolar e o fortalecimento da formação artística dos educadores.

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