A cidade nas artes: da Colônia ao Império, da arquiteta e historiadora Solange de Aragão, é uma obra dedicada a investigar a presença da cidade brasileira na produção artística entre os séculos XVI e XIX. A autora examina como literatura, pintura, fotografia e outras expressões culturais registraram e interpretaram a formação urbana do Brasil desde o período colonial até as décadas que antecedem a República. Ao reunir fontes literárias, visuais e históricas, o livro demonstra que a arte não apenas retrata a cidade, mas também constitui uma ferramenta essencial para compreender as transformações sociais, políticas e culturais do país.

Entre os muitos caminhos possíveis para compreender a história das cidades brasileiras, poucos são tão reveladores quanto o olhar da arte. Ao longo da formação histórica do Brasil, artistas, escritores, viajantes e fotógrafos registraram paisagens urbanas, costumes, conflitos sociais e transformações arquitetônicas que, muitas vezes, escapam aos documentos oficiais. É justamente essa dimensão estética e documental que fundamenta a obra A cidade nas artes, na qual Solange de Aragão propõe uma análise da cidade brasileira por meio das representações produzidas por diferentes linguagens artísticas.

O livro parte da premissa de que a cidade, quando representada artisticamente, deixa de ser apenas um espaço físico e torna-se também uma construção simbólica. Como observa a autora, “a cidade na arte é sempre uma representação – expressão dos vários olhares que convergem para a mesma paisagem” (p. 1)

 Essa observação revela o eixo central do estudo: compreender como diferentes perspectivas — europeias, coloniais, nacionais, religiosas ou literárias — moldaram a imagem das cidades brasileiras.

A análise percorre dois grandes momentos históricos: o período colonial e o Império. Cada um deles apresenta contextos culturais e políticos distintos que influenciam diretamente a produção artística. Ao articular literatura, pintura e fotografia, Aragão demonstra que a arte não apenas retrata a cidade, mas também participa da construção de sua memória histórica.

O principal mérito da obra de Solange de Aragão está na amplitude metodológica de sua abordagem. Ao invés de restringir o estudo a um único campo artístico, a autora reúne múltiplas fontes culturais para construir um panorama das representações urbanas no Brasil. Literatura, artes plásticas e fotografia são analisadas como registros complementares da experiência urbana.

Logo na introdução, Aragão estabelece a relevância dessas linguagens como fontes documentais para a história urbana. Segundo ela, “a literatura, a pintura e a fotografia são fontes documentais relevantes para a construção da história da cidade brasileira” (p. 1)

Essa afirmação orienta toda a obra, que busca demonstrar como a arte registra aspectos do espaço urbano que muitas vezes não aparecem em documentos administrativos ou registros oficiais.

A autora destaca, por exemplo, que durante o período colonial o interesse artístico da população brasileira era predominantemente religioso. Igrejas, capelas e manifestações sacras dominavam a produção cultural, enquanto representações urbanas eram raras. Esse contexto explica por que as primeiras imagens detalhadas das cidades brasileiras foram produzidas principalmente por viajantes estrangeiros.

Entre esses viajantes, destacam-se nomes importantes da pintura e da documentação visual do Brasil. A autora menciona artistas como Rugendas, Debret e Thomas Ender, cujas obras registraram cidades como Rio de Janeiro, Recife e Vila Rica. Esses artistas ajudaram a construir uma imagem visual do país que circulou amplamente na Europa.

O livro também mostra que a literatura desempenhou papel fundamental nesse processo. A cidade brasileira aparece inicialmente em cartas, relatos de viagem e textos descritivos, mas ganha maior presença na poesia e na prosa ao longo dos séculos XVII e XVIII. Um exemplo importante é o poeta barroco Gregório de Matos, cuja obra oferece uma crítica contundente à sociedade colonial.

Em um de seus poemas sobre Salvador, citado por Aragão, o autor descreve de forma satírica as tensões sociais da cidade:

“Em cada porta um bem frequente olheiro / Que a vida do vizinho e da vizinha / Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha / Para o levar à praça e ao terreiro” (p. 20)

Esses versos revelam uma cidade marcada pela vigilância social, pela desigualdade e pela presença de diferentes grupos sociais. A literatura, nesse sentido, funciona como uma espécie de retrato crítico da vida urbana colonial.

Outro aspecto importante abordado no livro é a transformação das cidades brasileiras durante o século XIX. Com a abertura dos portos, a chegada da corte portuguesa e a criação de instituições culturais, a produção artística passa a se intensificar. A cidade torna-se então um tema recorrente nas artes e na literatura.

A autora observa que nesse período ocorre um processo de mudança profunda no espaço urbano brasileiro. A cidade colonial começa a se transformar sob influência europeia, buscando adaptar-se a novos modelos de urbanização e modernidade. Como escreve Aragão:

“A cidade brasileira retratada pelos artistas do Oitocentos é, sob certos aspectos, a cidade colonial em transformação” (p. 12)

Essa transformação é registrada tanto nas pinturas quanto nos textos literários. No campo da literatura, autores do romantismo e do realismo passam a utilizar a cidade como cenário principal de suas narrativas.

Entre esses escritores, destacam-se Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar e Machado de Assis. Em suas obras, o Rio de Janeiro aparece como espaço de sociabilidade, palco de conflitos sociais e símbolo da vida urbana do Império. A cidade torna-se cenário de bailes, encontros, intrigas e transformações sociais.

Machado de Assis, por exemplo, retrata o Rio de Janeiro como um espaço carregado de memória e experiências pessoais. Em um trecho citado pela autora, o protagonista de Memórias Póstumas de Brás Cubas descreve o impacto de reencontrar sua cidade natal:

“Não era efeito da minha pátria política; era-o do lugar da infância, a rua, a torre, o chafariz da esquina” (p. 35)

Essa passagem revela como a cidade se torna também um território afetivo, ligado às memórias individuais e à experiência cotidiana.

Outro ponto interessante da obra é a análise da fotografia como instrumento de documentação urbana no século XIX. Com a invenção da fotografia em 1839, as representações das cidades brasileiras se multiplicaram. Fotógrafos como Marc Ferrez e Militão Augusto de Azevedo registraram ruas, edifícios e paisagens urbanas que hoje constituem importantes fontes históricas.

Essas imagens ajudam a compreender como as cidades brasileiras se transformaram ao longo do tempo. Ao mesmo tempo, revelam detalhes da vida cotidiana que dificilmente seriam registrados em documentos oficiais.

A obra de Aragão também destaca as contradições sociais presentes nas cidades do período colonial e imperial. A convivência entre senhores e escravos, entre elites urbanas e populações marginalizadas, aparece constantemente nas representações artísticas.

Como observa a autora, a cidade brasileira revelava em sua própria paisagem as desigualdades sociais do período:

“A cidade brasileira retratada por meio da arte revela as suas contradições sociais de senhores e escravos” (p. 12)

Essa dimensão social é um dos elementos mais importantes do livro, pois demonstra que a arte não apenas registra o espaço urbano, mas também revela as relações de poder e os conflitos presentes na sociedade.

Ao final da obra, Aragão reforça a importância da arte como instrumento de interpretação histórica. A análise de pinturas, textos literários e fotografias permite compreender a cidade brasileira de maneira mais complexa, articulando aspectos culturais, sociais e políticos.

O livro mostra que a história das cidades não se encontra apenas em mapas ou documentos administrativos, mas também nas imagens e narrativas produzidas por artistas e escritores. Nesse sentido, A cidade nas artes oferece uma contribuição significativa para os estudos de história urbana, história da arte e cultura brasileira.

ARAGÃO, Solange de.
A cidade nas artes: da Colônia ao Império. São Paulo: Editora Unesp, 2024.
Recurso eletrônico. Inclui bibliografia.
ISBN: 978-65-5714-554-8 (eBook).

Assuntos: História do Brasil; História do Brasil Colônia; História do Brasil Império; História da arte brasileira; História cultural; Arquitetura; Literatura; Artes plásticas.
CDD: 981
CDU: 94(81). 


A AUTORA

Solange de Aragão é arquiteta, urbanista e pesquisadora brasileira especializada em história urbana e história da arte. Possui mestrado e doutorado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), além de pós-doutorado em História do Brasil pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e em História da Arte pela própria FAU-USP. Atualmente atua como professora no curso de Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Presidente Prudente, e como professora colaboradora no programa de pós-graduação em Artes do Instituto de Artes da mesma universidade.

Ao longo de sua carreira acadêmica, Aragão tem se dedicado ao estudo das relações entre arquitetura, arte e cultura no Brasil. É autora de diversos trabalhos na área de história cultural e urbanismo, entre os quais se destacam Ensaio sobre o jardim (2007), obra vencedora do Concurso Nacional de Ensaios da Fundação Gilberto Freyre, e Ensaio sobre a casa brasileira (2011). Em A cidade nas artes, a autora consolida sua trajetória de pesquisa ao explorar a cidade brasileira como objeto de análise interdisciplinar, combinando história urbana, literatura e história da arte para compreender as múltiplas formas de representação do espaço urbano no Brasil.

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