Em Todo mundo aqui vai morrer um dia, Emily Austin constrói um romance que equilibra, com precisão rara, humor ácido e vulnerabilidade extrema. A protagonista, Gilda, é uma jovem lésbica consumida por crises de ansiedade, obsessões com a morte e um sentimento constante de inadequação social. A partir de um acidente de carro aparentemente banal, a narrativa mergulha no fluxo mental fragmentado da personagem, revelando uma consciência que oscila entre o cômico e o trágico com naturalidade perturbadora.

“Sou algo vivo, algo que respira, que um dia vai morrer.” (p. 13)

A frase sintetiza o eixo temático do romance: a consciência da mortalidade como motor da ansiedade. Austin transforma esse temor existencial em matéria-prima narrativa, explorando o modo como Gilda interpreta o mundo sob a lente do catastrofismo. Um simples atraso, uma dor no peito ou uma notícia lida ao acaso se tornam provas de que a morte é iminente. O humor emerge justamente dessa amplificação absurda do cotidiano, sem jamais deslegitimar a dor da personagem.

A estrutura do romance acompanha o pensamento de Gilda em blocos quase episódicos, refletindo sua mente dispersa. O acidente de carro que abre a história é menos um evento físico e mais um gatilho psicológico. A protagonista, em vez de reagir com pânico ao impacto, preocupa-se em não chorar em público, em parecer inconveniente, em interpretar corretamente os códigos sociais. A ironia está no contraste entre a gravidade da situação e o foco deslocado de sua atenção.

“Poderia sufocar com uma uva. Poderia ser alérgica a abelhas; sou tão impermanente que um mísero inseto poderia dar um pulinho de uma margarida para o meu braço, me picar, e eu seria eliminada.” (p. 14)

Austin demonstra domínio absoluto do ritmo ao alternar reflexões filosóficas com situações constrangedoras. A protagonista frequenta o pronto-socorro com tanta regularidade que passa a ser reconhecida pelos funcionários, mas, ao mesmo tempo, recusa-se a aceitar que suas dores no peito possam ser crises de ansiedade. Há aqui uma crítica delicada à dificuldade contemporânea de lidar com a saúde mental, especialmente quando os sintomas físicos parecem mais legítimos do que os emocionais.

O romance também aborda o peso da identidade. Gilda é lésbica, ateia e socialmente deslocada, mas aceita um emprego como recepcionista em uma igreja católica após um mal-entendido. A ironia da situação não é apenas cômica; ela expõe a tensão entre sobrevivência econômica e coerência pessoal. Ao mentir sobre sua fé, Gilda não busca conversão, mas estabilidade financeira. A precariedade molda suas escolhas.

“Sou” (p. 41)

A resposta simples à pergunta “Você é católica, é claro?” carrega uma carga dramática intensa. A mentira é breve, quase automática, e revela a disposição de Gilda em representar papéis para se encaixar. Austin não a julga; antes, mostra como o medo — do desemprego, da rejeição, da morte — conduz suas decisões.

O livro também dedica atenção às relações familiares. A mãe pragmática, o pai rígido e o irmão Eli compõem um cenário doméstico marcado por expectativas frustradas. As conversas à mesa alternam banalidades e cobranças veladas. O passado escolar de Gilda, com notas que despencam ao longo dos anos, sugere que sua ansiedade não é recente, mas parte de um processo gradual de retraimento.

“Gilda é socialmente retraída.” (p. 44)

O contraste entre a criança considerada curiosa e promissora e a jovem adulta desanimada reforça a sensação de deslocamento identitário. Em vários momentos, Gilda questiona se foi a mesma pessoa ao longo da vida, como se a continuidade do eu fosse apenas uma ilusão. Essa fragmentação dialoga com o título do livro, que aponta para a inevitabilidade da morte como única certeza estável.

A obsessão de Gilda com notícias bizarras de mortes acidentais, recordes do Guinness e estatísticas médicas funciona como uma tentativa de domesticar o medo. Se a morte puder ser catalogada, enumerada, racionalizada, talvez deixe de ser tão ameaçadora. Contudo, quanto mais ela busca informações, mais amplia o pânico. O romance capta com precisão o ciclo vicioso da ansiedade: a tentativa de controle que resulta em maior descontrole.

“Como consigo saber se é um ataque cardíaco ou um ataque de pânico?” (p. 28)

A pergunta dirigida ao serviço de TeleSaúde é emblemática. Ela sintetiza a ambiguidade central da narrativa: o corpo e a mente se confundem, e a protagonista não sabe mais distinguir ameaça real de projeção imaginária. Austin descreve as crises de pânico com realismo físico — falta de ar, taquicardia, sensação de esmagamento no peito — sem recorrer a melodrama. A escrita é contida, quase clínica, o que paradoxalmente intensifica o impacto.

Ao mesmo tempo, o humor nunca abandona a cena. Há algo profundamente humano na forma como Gilda interpreta mal comentários, exagera consequências e cria narrativas internas absurdas. A autora transforma a vergonha social em matéria literária, aproximando o leitor da protagonista. Rimos com ela, não dela.

A questão religiosa acrescenta outra camada à narrativa. O emprego na igreja coloca Gilda diante de símbolos que a desconcertam, mas também lhe oferecem uma estrutura. O padre Jeff, com sua ingenuidade e entusiasmo, representa uma figura inesperadamente acolhedora. A igreja, inicialmente percebida como armadilha ideológica, torna-se um espaço de rotina e propósito.

“Qual o seu nome, querida?” (p. 51)

O esquecimento do nome de Gilda pelo padre não é apenas cômico; ele sublinha a ideia de recomeço. Ao dizer “Gilda”, ela reafirma uma identidade que parece constantemente em risco de dissolução. O trabalho na igreja não resolve suas crises, mas introduz a possibilidade de conexão humana.

Todo mundo aqui vai morrer um dia é, acima de tudo, um romance sobre sobrevivência emocional. A morte é inevitável, mas a narrativa insiste na continuidade da vida apesar do medo. Emily Austin não oferece respostas fáceis nem cura milagrosa. Em vez disso, constrói uma protagonista falha, ansiosa e profundamente consciente de sua própria fragilidade — e é justamente nessa fragilidade que reside sua força literária.

O título, aparentemente niilista, revela-se quase libertador. Se todos morreremos um dia, talvez possamos aceitar a imperfeição do presente. Entre consultas médicas, buscas por um gato desaparecido e pilhas de louça suja, Gilda continua respirando. E, ao acompanhar sua jornada, o leitor também aprende a rir do absurdo da própria condição humana.

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