Querida tia: os silêncios, os segredos e a segunda morte de Colette Septembre



Em Querida tia, Valérie Perrin constrói um romance que começa como enigma policial, atravessa a memória íntima de uma família e desemboca numa reflexão delicada sobre identidade, pertencimento e os silêncios que moldam uma vida. A narrativa se inicia com um telefonema que fratura a realidade da protagonista: sua tia Colette, enterrada havia três anos, acaba de morrer novamente. A partir desse ponto de ruptura, a autora desenvolve uma trama que alterna passado e presente, costurando a infância rural dos irmãos Septembre à investigação emocional de Agnès, cineasta que retorna à pequena cidade de Gueugnon para reconhecer o corpo da tia.

O impacto inicial do romance está na precisão com que Perrin captura o absurdo do acontecimento. A cena do telefonema, seca e burocrática, instaura a dúvida que sustentará todo o livro. A polícia informa a morte de Colette Septembre, mas Agnès insiste que a tia já está enterrada. O diálogo revela o choque entre memória e fato:

“— Faz três anos que minha tia Colette está enterrada no cemitério de Gueugnon. E ela morava na rua Pasteur.” (p. 15) 

A partir dessa contradição, a narrativa se transforma em uma investigação íntima. Não se trata apenas de descobrir quem foi enterrado três anos antes, mas de entender quem foi Colette — e por que ela escolheu desaparecer do mundo, inclusive da própria sobrinha. Perrin trabalha com habilidade a ideia de “remorrer”, conceito que Agnès formula ao perceber o absurdo da situação. “Essa palavra não existe. Não existe remorrer.” (p. 20). A frase condensa o sentimento de deslocamento que atravessa a protagonista: a morte, aqui, não encerra nada; ao contrário, reabre tudo.

O romance se estrutura em camadas temporais. No presente, Agnès revisita Gueugnon, reencontra amigos de infância e percorre os espaços da memória — a sapataria, o estádio, o hotel. No passado, acompanhamos a infância de Colette e Jean, criados em uma fazenda marcada por dureza e silêncio. Esses capítulos retroativos revelam a origem da personalidade reservada de Colette, seu amor incondicional pelo irmão e sua capacidade de suportar perdas sem alarde. A menina que ajuda os pais no campo e conta histórias para o irmão antes de dormir é a mesma mulher que, décadas depois, guarda segredos como quem protege um tesouro.

Há, na infância de Colette, uma sensibilidade que contrasta com o ambiente árido. O cuidado com Jean é descrito com ternura, sobretudo nas cenas em que ela narra a história do piano que cresce e acompanha o menino pelo mundo. A passagem é emblemática porque antecipa o talento musical de Jean e sugere que Colette sempre acreditou em destinos maiores do que o da própria vida. A dedicação da irmã, silenciosa e absoluta, explica por que a morte de Jean ocupa “o espaço todo” de sua existência. O luto, em Colette, não é um evento; é um modo de viver.

No presente, Agnès descobre que pouco sabia sobre a tia. A visita à casa da rua Fredins, onde Colette viveu reclusa, expõe essa ignorância. A casa é organizada, limpa, quase ascética, mas guarda vestígios de uma vida secreta. Entre caixas, cadernos e objetos retirados do próprio túmulo simbólico, Agnès confronta a extensão da farsa que sustentou por três anos. O momento do reconhecimento no necrotério é um dos mais fortes do livro:

“Ela emagreceu um pouco. Ela envelheceu. Ela morreu. Ela esfriou. Seus olhos estão fechados. Sua bela pele é apenas uma máscara de cera.” (p. 28) 

A descrição direta, quase clínica, reforça o contraste entre o corpo inerte e a complexidade da mulher que foi Colette. Perrin evita sentimentalismos excessivos; a emoção surge da constatação de que Agnès não conhecia verdadeiramente aquela que a criou em boa parte da infância. A revelação de que a coleção de recortes do time de futebol e os discos da família não estavam no túmulo original evidencia que algo estava errado desde o início. A negligência da sobrinha — que não percebeu a ausência desses objetos — se transforma em culpa.

Outro eixo importante da narrativa é a relação entre memória e identidade. Agnès é cineasta, habituada a construir narrativas e manipular imagens. Ao retornar à cidade natal, ela se vê obrigada a encarar uma história que não controla. O romance sugere que todos somos editores de nossas próprias lembranças, mas que a verdade insiste em sobreviver, mesmo que enterrada sob camadas de silêncio. Quando Agnès admite no necrotério: “Sou uma idiota.” (p. 29), não se trata apenas de autocrítica; é o reconhecimento de que preferiu não ver os sinais.

A cidade de Gueugnon também assume papel central. Pequena, industrial, marcada pelo futebol e pela usina, ela funciona como cenário e personagem. É um espaço onde as notícias circulam rapidamente, mas onde também se preservam segredos. Perrin descreve com precisão jornalística as transformações urbanas, as vitrines substituídas por bancos e seguradoras, a sirene que ecoa desde a Segunda Guerra. Esse detalhamento confere verossimilhança ao enredo e ancora a trama em um contexto social concreto.

O futebol, por sua vez, é mais do que pano de fundo. Para Colette, o FC Gueugnon é quase religião. O estádio é o lugar onde ela expressa emoções que não verbaliza em casa. A imagem da tia que não grita, mas sorri discretamente diante da vitória, revela uma personalidade contida, que sente intensamente sem se expor. O esporte funciona como metáfora de pertencimento: mesmo reclusa, Colette permanece ligada à comunidade por meio do time.

À medida que a investigação avança, surgem novas perguntas: quem foi enterrado no lugar de Colette? Quem sabia da farsa? Por que Louis Berthéol, amigo íntimo, desaparece? Perrin conduz essas questões com ritmo calculado, alternando revelações e suspensões. O suspense não é apenas factual; é emocional. A cada descoberta, Agnès precisa reorganizar sua própria narrativa familiar.

O romance também dialoga com temas contemporâneos, como o isolamento nas pequenas cidades e a invisibilidade social. A ideia de que alguém pode morrer sem que os vizinhos saibam realmente quem era ecoa em uma das reflexões mais inquietantes do livro: a dificuldade de enxergar o outro quando já o consideramos morto. A frase inicial que situa o ano de 2010 — “2010 é o ano em que minha tia morreu pela segunda vez.” (p. 13) — sintetiza essa percepção de que a morte é também narrativa, construída pela memória e pela linguagem.

Em termos estilísticos, Perrin mantém um tom contido, quase jornalístico, que combina com a proposta de reconstrução dos fatos. A alternância de tempos verbais e perspectivas amplia o alcance da história, permitindo que o leitor compreenda Colette tanto como menina quanto como mulher idosa. A prosa é clara, direta, mas pontuada por imagens delicadas que humanizam os personagens.

Querida tia é, em última instância, um romance sobre o que não se diz. Sobre cartas não enviadas, telefonemas não feitos, despedidas adiadas. A segunda morte de Colette obriga Agnès a revisitar não apenas a cidade natal, mas também as próprias ausências — o pai perdido, o casamento fracassado, a distância da filha. Ao final, o enigma policial cede espaço a uma compreensão mais ampla: conhecer alguém é tarefa sempre inacabada.

Valérie Perrin entrega uma obra que equilibra mistério e emoção, memória e investigação, vida rural e reflexão contemporânea. Ao transformar a morte em ponto de partida, a autora reafirma que as histórias mais importantes começam justamente quando acreditamos que tudo terminou.

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