Em O cozer das pedras, o roer dos ossos, Patrick Torres constrói um romance que mergulha o leitor na aridez física e simbólica do sertão brasileiro para tratar de temas universais: violência doméstica, desejo, culpa, fé, amor e pertencimento. Longe de qualquer idealização regionalista, a obra expõe a vida em sua forma mais crua, em que sobreviver é um ato diário de resistência e, por vezes, de brutalidade. O título já anuncia a tensão permanente entre o que endurece e o que corrói — pedra e osso — elementos que estruturam tanto a paisagem quanto os sujeitos que a habitam.

O romance se inicia com a morte de Mirtão, figura paradoxal que encarna simultaneamente o herói e o vilão de sua comunidade. A cena do velório, realizada sob o sol impiedoso, estabelece o tom narrativo: uma religiosidade popular atravessada por medo, miséria e resignação. O trecho inicial sintetiza a atmosfera do livro:

“‘Pai nosso que estais no céu, santificado seja o Vosso nome, venha a nós o Vosso reino, seja feita a Vossa vontade, assim na Terra como no céu…’, rezava em coro aquele pobre povo que velava a céu aberto o corpo de Mirtão.” (p. 13)

A oração coletiva contrasta com a ambiguidade moral do morto. Mirtão matou o próprio pai para defender a mãe dos abusos, gesto que o transforma em salvador e pecador. Desde o princípio, Torres recusa respostas simples. Seus personagens são atravessados por contradições que refletem uma sociedade marcada por carências estruturais e afetivas.

A narrativa recua no tempo para acompanhar a infância de Mirto, protagonista cuja trajetória é moldada pela violência do pai alcoólatra e pela resignação quase mística da mãe, Dona Hermina. A figura materna é um dos pilares emocionais da obra: mulher negra, devota, subjugada, que encontra na limpeza obsessiva da casa um ritual de sobrevivência. Sua fé, contudo, é constantemente atravessada pela dúvida. Num dos momentos mais expressivos, o narrador revela o sussurro amargo da personagem:

“Esquecida por Deus. Mirto via aquilo, lacônico, e pensava: esquecida por quem nunca nem de ti se lembrou, mulher? Ora! Ninguém se esquece do que nunca se lembrou!” (p. 18)

Essa reflexão, ainda que silenciosa, revela o embrião do ceticismo do protagonista. A fé, no romance, é menos uma convicção e mais um recurso simbólico para suportar o insuportável. Deus aparece como explicação automática para fenômenos naturais e injustiças sociais, mas também como ausência gritante.

A violência doméstica é tratada com crueza e repetição quase ritualística. Germão, o pai, representa a masculinidade brutalizada pelo álcool e pela frustração. Seu retorno diário ao lar é sempre prenúncio de agressão. A descrição do vômito no chão e da ordem para que Hermina limpe a sujeira é exemplar do ciclo degradante que estrutura aquela família. Não há melodrama; há um realismo quase documental, que transforma o cotidiano em denúncia.

Paralelamente, o romance introduz outras figuras masculinas que tensionam o modelo hegemônico de masculinidade. Toninho, jovem que aprende a ler e escrever na cidade vizinha, vive um romance com o comerciante Abdias. Sua morte por suicídio marca profundamente a comunidade e, sobretudo, Mirto. A carta deixada pelo rapaz sintetiza a tragédia do amor interdito:

“Mãe, eu amo a senhora e nada disso é sua culpa. Eu amo quem não posso amar, estou indo porque já morri do coração, só estou vivo por fora.” (p. 28)

O amor, aqui, não é redenção, mas sentença. A frase “já morri do coração” ecoa como síntese da impossibilidade de existir plenamente quando o desejo é condenado. O suicídio de Toninho inaugura no protagonista uma inquietação sobre o que significa amar e sobre os riscos que esse sentimento implica.

Outro personagem fundamental é Roberval, o homem letrado que vive à margem da comunidade, amado pelas mulheres e alvo de desconfiança religiosa. Sua morte delirante, coroada por imagens quase míticas — como a aparição da “coroa de penas douradas” — insere na narrativa uma dimensão simbólica que beira o fantástico. Torres dialoga com a tradição do realismo mágico latino-americano, mas mantém os pés firmes na materialidade do sertão. O delírio não rompe com a realidade; ele a intensifica.

A linguagem é um dos grandes trunfos do romance. Patrick Torres trabalha com uma oralidade sofisticada, preservando marcas regionais sem cair na caricatura. Expressões como “maldita hora em que nasci” ou “num sei” conferem autenticidade às vozes, enquanto a narração mantém densidade literária. O contraste entre fala popular e reflexão filosófica cria um efeito potente: o sertão não é apenas espaço geográfico, mas território de pensamento.

Ao longo da primeira parte do livro, a construção de Mirto é gradual e cuidadosa. O menino que manca por causa do dedo quebrado carrega uma dor que vai além do corpo. A mutilação física funciona como metáfora da condição existencial do personagem — sempre faltando algo, sempre incompleto. Sua percepção de que “amor não deixa ninguém vivo” revela a internalização das tragédias que testemunhou. Amar, naquele universo, parece sinônimo de perda.

Quando, já jovem, Mirto é enviado pela mãe para buscar o pai no bar da cidade, o romance atinge um ponto de virada. A caminhada noturna simboliza a travessia da infância para a maturidade. O medo que o acompanha é menos do pai e mais do que pode se tornar. A cidade, iluminada artificialmente, surge como promessa e ameaça. O novo e o velho se confrontam no percurso solitário do protagonista.

“O cozer das pedras” sugere o processo lento de endurecimento imposto pelas circunstâncias; “o roer dos ossos” indica a corrosão íntima que consome por dentro. Ao longo da narrativa, Mirto é submetido a ambos os movimentos. A violência que o cerca o endurece, mas o desejo e a dúvida corroem suas certezas.

Patrick Torres entrega um romance que, embora ambientado num sertão específico, dialoga com dilemas universais. A obra trata da formação de um homem em meio a ruínas afetivas e sociais, questionando o que resta quando a fé falha, o amor fere e a família oprime. Ao final, fica a sensação de que o autor não busca respostas, mas expõe as camadas de uma realidade em que sobreviver já é um ato de resistência poética.

O cozer das pedras, o roer dos ossos é, acima de tudo, um romance sobre permanência. Permanecer vivo, permanecer sensível, permanecer humano. Entre pedras que cozinham ao sol e ossos que rangem sob o peso do mundo, Patrick Torres constrói uma narrativa que dói — e, justamente por isso, permanece.

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