Em Jogando por Controle, primeiro volume da série Sobre gelo fino, Peyton Corinne constrói um romance contemporâneo que vai além da fórmula esportiva e mergulha com intensidade nas fragilidades emocionais de seus protagonistas. Publicado no Brasil pela Editora Arqueiro em 2025, o livro apresenta a história de Rhys Koteskiy, promissor jogador de hóquei universitário, e Sadie, jovem patinadora artística que equilibra sonhos competitivos com o peso esmagador de responsabilidades familiares.
A narrativa se inicia com um prólogo impactante, ambientado três meses antes dos acontecimentos centrais. Rhys está caído no gelo após um acidente durante uma partida. O trecho é direto, sufocante, quase claustrofóbico, reproduzindo a confusão física e mental do personagem: “Não consigo ver – digo com esforço. – Não consigo ver.” (p. 17). A repetição do desespero e a percepção da escuridão instauram o trauma que irá nortear todo o desenvolvimento da obra. Mais do que uma lesão esportiva, o que se instala ali é a perda da identidade.
No presente, Rhys retorna ao gelo, mas não como o atleta seguro e dominante que costumava ser. Ele convive com crises de pânico, insônia e um sentimento constante de vazio. Em determinado momento, descreve sua própria condição com brutal honestidade: “Não sei o que tem de errado comigo” (p. 40). O romance acompanha, então, a luta silenciosa de um jovem cuja vida sempre esteve definida pelo desempenho esportivo e que, subitamente, se vê incapaz de confiar no próprio corpo e na própria mente.
Sadie surge como contraponto e espelho. Se Rhys parece paralisado pelo trauma, ela vive em estado permanente de tensão. Responsável pelos dois irmãos mais novos e pela administração de uma casa marcada pelo alcoolismo do pai e pela instabilidade emocional da mãe, Sadie carrega sobre si o peso de ser adulta antes do tempo. Em um dos momentos mais reveladores de seu ponto de vista, ela sintetiza sua realidade ao lidar com o pai: “Meu pai até pode amar a gente lá no fundo, mas sempre vai amar mais os vícios dele” (p. 33). A frase expõe a maturidade forçada da personagem e o desencanto que molda sua personalidade defensiva.
O encontro entre Rhys e Sadie não é suave nem romântico à primeira vista. Ele a conhece durante um programa social ligado ao hóquei, no qual ajuda crianças a patinar, e se depara com a postura combativa da jovem. O primeiro embate entre os dois revela a dinâmica que sustentará a tensão narrativa: ele, acostumado ao reconhecimento e à validação; ela, impermeável ao charme fácil e pronta para confrontá-lo. A atração é imediata, mas atravessada por irritação e orgulho.
Corinne constrói essa relação com base em diálogos rápidos, carregados de ironia e vulnerabilidade. Quando Rhys sofre uma crise de pânico no gelo e Sadie o encontra, a dinâmica se inverte. O “craque” vulnerável é quem precisa ser amparado. Ela reconhece o que está acontecendo e conduz a situação com firmeza: “Você consegue respirar” (p. 37). O cuidado que oferece não é melodramático; é prático, quase brusco. Essa postura reforça o perfil de Sadie como alguém que aprendeu a agir antes de sentir.
A autora também trabalha com habilidade a temática da saúde mental no universo esportivo. Rhys representa o arquétipo do atleta pressionado pela herança familiar — filho de um ex-jogador lendário — e pela expectativa constante de desempenho. Em um diálogo com o pai, ele insiste: “Eu quero jogar. Tô pronto pra jogar de novo” (p. 21). A afirmação, que soa como mantra ensaiado, revela mais negação do que convicção. O medo de decepcionar e a dificuldade de admitir fragilidade tornam sua jornada particularmente convincente.
Já Sadie enfrenta um conflito diferente, mas igualmente devastador: o medo de falhar com aqueles que dependem dela. Sua patinação artística não é apenas um sonho; é uma possível rota de fuga. No entanto, cada treino é atravessado pela culpa de deixar os irmãos em casa, pela ansiedade financeira e pela constante sensação de que tudo pode ruir a qualquer momento. A autora desenha essa tensão sem romantizar o sacrifício, mostrando o cansaço acumulado e as pequenas explosões emocionais que escapam em forma de sarcasmo.
A ambientação no gelo não é mero cenário, mas extensão simbólica dos personagens. O rinque representa tanto o lugar de realização quanto o espaço do trauma. Rhys associa o gelo ao acidente, à queda, ao momento em que perdeu o controle. Sadie, por outro lado, vê nele a possibilidade de redenção, de disciplina e transcendência. Quando Rhys a descreve como “a patinadora artística que parece em chamas” (p. 39), a metáfora sintetiza o contraste entre a frieza do gelo e a intensidade que ela imprime à própria movimentação.
Outro ponto forte da obra é o cuidado com os personagens secundários. Os irmãos de Sadie, especialmente Liam e Oliver, não são apenas coadjuvantes funcionais; são motores emocionais da trama. A relação entre os três irmãos é construída com delicadeza, alternando humor e tensão. A responsabilidade precoce de Sadie ganha densidade justamente por meio dessas interações domésticas.
Narrativamente, Jogando por Controle alterna os pontos de vista de Rhys e Sadie, o que permite ao leitor compreender os mal-entendidos e as defesas que cada um ergue. A escrita de Corinne privilegia a intensidade emocional, com descrições sensoriais que aproximam o leitor das crises de pânico, da exaustão física e da ansiedade constante. Em vez de soluções rápidas, a autora aposta em um processo gradual de aproximação e reconhecimento mútuo.
O romance, portanto, não é apenas sobre paixão entre atletas. É sobre controle — ou a ilusão dele. Rhys precisa aceitar que não domina tudo, que o corpo pode falhar e que pedir ajuda não o diminui. Sadie precisa entender que não pode sustentar o mundo sozinha, que também merece ser cuidada. O título se revela, assim, duplamente significativo: jogar por controle é tanto estratégia esportiva quanto metáfora emocional.
Com diálogos afiados, personagens marcados por cicatrizes reais e uma abordagem sensível da saúde mental, Jogando por Controle consolida Peyton Corinne como uma autora que sabe transitar entre o romance esportivo e o drama psicológico. O livro equilibra tensão romântica, crítica social e introspecção, oferecendo uma narrativa envolvente e, ao mesmo tempo, humana.
Ao final, o que permanece não é apenas a expectativa pelo desfecho do casal, mas a sensação de ter acompanhado dois jovens tentando reconstruir a própria identidade sobre uma superfície escorregadia. No gelo — e na vida — o equilíbrio é sempre instável. E é justamente nessa instabilidade que Corinne encontra a força de sua história.
Em Jogando por Controle, primeiro volume da série Sobre gelo fino, Peyton Corinne constrói um romance contemporâneo que vai além da fórmula esportiva e mergulha com intensidade nas fragilidades emocionais de seus protagonistas. Publicado no Brasil pela Editora Arqueiro em 2025, o livro apresenta a história de Rhys Koteskiy, promissor jogador de hóquei universitário, e Sadie, jovem patinadora artística que equilibra sonhos competitivos com o peso esmagador de responsabilidades familiares.
A narrativa se inicia com um prólogo impactante, ambientado três meses antes dos acontecimentos centrais. Rhys está caído no gelo após um acidente durante uma partida. O trecho é direto, sufocante, quase claustrofóbico, reproduzindo a confusão física e mental do personagem: “Não consigo ver – digo com esforço. – Não consigo ver.” (p. 17). A repetição do desespero e a percepção da escuridão instauram o trauma que irá nortear todo o desenvolvimento da obra. Mais do que uma lesão esportiva, o que se instala ali é a perda da identidade.
No presente, Rhys retorna ao gelo, mas não como o atleta seguro e dominante que costumava ser. Ele convive com crises de pânico, insônia e um sentimento constante de vazio. Em determinado momento, descreve sua própria condição com brutal honestidade: “Não sei o que tem de errado comigo” (p. 40). O romance acompanha, então, a luta silenciosa de um jovem cuja vida sempre esteve definida pelo desempenho esportivo e que, subitamente, se vê incapaz de confiar no próprio corpo e na própria mente.
Sadie surge como contraponto e espelho. Se Rhys parece paralisado pelo trauma, ela vive em estado permanente de tensão. Responsável pelos dois irmãos mais novos e pela administração de uma casa marcada pelo alcoolismo do pai e pela instabilidade emocional da mãe, Sadie carrega sobre si o peso de ser adulta antes do tempo. Em um dos momentos mais reveladores de seu ponto de vista, ela sintetiza sua realidade ao lidar com o pai: “Meu pai até pode amar a gente lá no fundo, mas sempre vai amar mais os vícios dele” (p. 33). A frase expõe a maturidade forçada da personagem e o desencanto que molda sua personalidade defensiva.
O encontro entre Rhys e Sadie não é suave nem romântico à primeira vista. Ele a conhece durante um programa social ligado ao hóquei, no qual ajuda crianças a patinar, e se depara com a postura combativa da jovem. O primeiro embate entre os dois revela a dinâmica que sustentará a tensão narrativa: ele, acostumado ao reconhecimento e à validação; ela, impermeável ao charme fácil e pronta para confrontá-lo. A atração é imediata, mas atravessada por irritação e orgulho.
Corinne constrói essa relação com base em diálogos rápidos, carregados de ironia e vulnerabilidade. Quando Rhys sofre uma crise de pânico no gelo e Sadie o encontra, a dinâmica se inverte. O “craque” vulnerável é quem precisa ser amparado. Ela reconhece o que está acontecendo e conduz a situação com firmeza: “Você consegue respirar” (p. 37). O cuidado que oferece não é melodramático; é prático, quase brusco. Essa postura reforça o perfil de Sadie como alguém que aprendeu a agir antes de sentir.
A autora também trabalha com habilidade a temática da saúde mental no universo esportivo. Rhys representa o arquétipo do atleta pressionado pela herança familiar — filho de um ex-jogador lendário — e pela expectativa constante de desempenho. Em um diálogo com o pai, ele insiste: “Eu quero jogar. Tô pronto pra jogar de novo” (p. 21). A afirmação, que soa como mantra ensaiado, revela mais negação do que convicção. O medo de decepcionar e a dificuldade de admitir fragilidade tornam sua jornada particularmente convincente.
Já Sadie enfrenta um conflito diferente, mas igualmente devastador: o medo de falhar com aqueles que dependem dela. Sua patinação artística não é apenas um sonho; é uma possível rota de fuga. No entanto, cada treino é atravessado pela culpa de deixar os irmãos em casa, pela ansiedade financeira e pela constante sensação de que tudo pode ruir a qualquer momento. A autora desenha essa tensão sem romantizar o sacrifício, mostrando o cansaço acumulado e as pequenas explosões emocionais que escapam em forma de sarcasmo.
A ambientação no gelo não é mero cenário, mas extensão simbólica dos personagens. O rinque representa tanto o lugar de realização quanto o espaço do trauma. Rhys associa o gelo ao acidente, à queda, ao momento em que perdeu o controle. Sadie, por outro lado, vê nele a possibilidade de redenção, de disciplina e transcendência. Quando Rhys a descreve como “a patinadora artística que parece em chamas” (p. 39), a metáfora sintetiza o contraste entre a frieza do gelo e a intensidade que ela imprime à própria movimentação.
Outro ponto forte da obra é o cuidado com os personagens secundários. Os irmãos de Sadie, especialmente Liam e Oliver, não são apenas coadjuvantes funcionais; são motores emocionais da trama. A relação entre os três irmãos é construída com delicadeza, alternando humor e tensão. A responsabilidade precoce de Sadie ganha densidade justamente por meio dessas interações domésticas.
Narrativamente, Jogando por Controle alterna os pontos de vista de Rhys e Sadie, o que permite ao leitor compreender os mal-entendidos e as defesas que cada um ergue. A escrita de Corinne privilegia a intensidade emocional, com descrições sensoriais que aproximam o leitor das crises de pânico, da exaustão física e da ansiedade constante. Em vez de soluções rápidas, a autora aposta em um processo gradual de aproximação e reconhecimento mútuo.
O romance, portanto, não é apenas sobre paixão entre atletas. É sobre controle — ou a ilusão dele. Rhys precisa aceitar que não domina tudo, que o corpo pode falhar e que pedir ajuda não o diminui. Sadie precisa entender que não pode sustentar o mundo sozinha, que também merece ser cuidada. O título se revela, assim, duplamente significativo: jogar por controle é tanto estratégia esportiva quanto metáfora emocional.
Com diálogos afiados, personagens marcados por cicatrizes reais e uma abordagem sensível da saúde mental, Jogando por Controle consolida Peyton Corinne como uma autora que sabe transitar entre o romance esportivo e o drama psicológico. O livro equilibra tensão romântica, crítica social e introspecção, oferecendo uma narrativa envolvente e, ao mesmo tempo, humana.
Ao final, o que permanece não é apenas a expectativa pelo desfecho do casal, mas a sensação de ter acompanhado dois jovens tentando reconstruir a própria identidade sobre uma superfície escorregadia. No gelo — e na vida — o equilíbrio é sempre instável. E é justamente nessa instabilidade que Corinne encontra a força de sua história.
Comentários
Postar um comentário