Leia Também
livros resenhas

Entre Homens e Insetos: A Mutação como Reflexo da Falência Institucional

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
| |

Foto: Arte digital

A literatura contemporânea brasileira ganha, em 2025, uma obra que desafia as fronteiras entre o realismo visceral e o horror metafórico: "Homens e Insetos", do escritor Silvio Costta. Publicado pela editora Laranja Original , o livro mergulha nas entranhas de uma periferia que transita entre o esgoto e o palácio, utilizando uma linguagem de precisão cirúrgica para narrar a ascensão de figuras arquetípicas em um sistema em decomposição. Através de personagens como a Repórter, o Homem da Bicicleta e o Investigador, a trama tece uma crítica mordaz ao espetáculo político e à desumanização urbana, transformando a "quebrada" no epicentro de uma metamorfose sombria e inevitável. Esta análise técnica disseca a arquitetura narrativa de um dos títulos mais impactantes da atualidade, onde a violência e o lirismo se encontram em um tubo de esgoto que serve como útero para uma nova e inquietante realidade.

A narrativa de Silvio Costta em "Homens e Insetos" opera como um mecanismo de precisão técnica que disseca a anatomia da exclusão social sob uma lente de realismo visceral e fantástico. O enredo transgride a crônica urbana tradicional ao introduzir uma mutação biológica e metafísica que nasce diretamente do "miserável esgoto de periferia". A escrita é caracterizada por uma economia verbal rigorosa, onde frases curtas e diretas impulsionam o ritmo, simulando a urgência das ruas e a fatalidade de uma "tragédia anunciada". Esta primeira etapa da análise foca na premissa disruptiva: o encontro entre a vulnerabilidade extrema e o inexplicável, representado pela "mulher velha e cega" que, ao recolher um bebê abandonado na grama, inadvertidamente acolhe uma entidade que subverte as leis da física e da biologia.

A construção do bebê como um ser de "pele líquida" e sem orifícios faciais convencionais é um triunfo da alegoria somática. O autor utiliza a deformidade não como um elemento de choque gratuito, mas como uma representação da "miséria alienígena" que habita as franjas da sociedade. A interação entre a criança e os "meninos" — jovens criminosos que transitam entre o roubo de rádios e a submissão a uma força que os faz "levitar" — estabelece uma dinâmica de poder que foge ao controle das instituições tradicionais. Há uma assepsia jornalística na descrição dos fenômenos, como a luz que emana do caixote ou a paralisia dos invasores, o que confere ao fantástico uma credibilidade documental perturbadora.

A linguagem de Costta é tátil e olfativa, forçando o leitor a experienciar o "cheiro de fio queimado" das câmeras que falham e a "calmaria" magnética que o bebê impõe ao ambiente. O autor estabelece um contraste absoluto entre a pureza disforme da criança e a corrupção estrutural do mundo exterior, representado pela "Repórter" e pelo "Investigador". Esta dualidade é o motor que move a narrativa para além do gênero policial, transformando a busca por um rádio roubado ou o rastro de um "presunto na viela" em uma investigação sobre a própria essência da desumanização.A eficácia do enredo reside na forma como o autor costura a micro-história da velha cega com a macro-política da cidade caótica.

Quando a protagonista utiliza seus novos sentidos para "ver o que cada um tem por dentro", a obra atinge um patamar de crítica social aguda: a cegueira física é superada por uma visão transcendental que revela uma sociedade composta por "gente translúcida", desprovida de segredos diante da verdade nua da periferia. Este início de obra não apenas apresenta personagens; ele instaura um universo onde a "quebrada" é o centro de uma transformação cósmica.

O autor demonstra uma maestria ímpar ao dissecar o "complexo de espetáculo" que sustenta a ascensão da Repórter, personagem que transita da mediação jornalística para o exercício do poder estatal. A narrativa revela como a "Política Franca" é, na verdade, uma construção estética meticulosa, onde a miséria e o misticismo da "velha cega" são convertidos em capital eleitoral e audiência exponencial. Esta transição é descrita com uma frieza cirúrgica, evidenciando que, no universo de Costta, o "fanatismo se alimenta de mentiras" e a verdade é apenas uma variável da montagem cênica.

Através de um flashback datado de 1997, o autor expõe a natureza predatória das relações de poder dentro do aparato policial. A eliminação de "Boquinha Branca" — o parceiro arrogante cuja "boca espumava chantilly de ódio" — não é retratada como um crime passional, mas como um rito de passagem burocrático, um "contrato feito" com as sombras do sistema. A precisão de Costta ao descrever o disparo — "A arma estava enganchada no queixo. Questão resolvida" — sintetiza a estética da violência seca que permeia a obra, onde a vida humana possui o peso de um "papel úmido de suor".

Em contraponto à amoralidade institucional do Investigador, surge a figura mitológica do Homem da Bicicleta, cuja construção literária é um dos pontos mais altos do livro. O autor dedica páginas de intensa densidade psicológica para narrar o trauma original deste personagem: o espancamento brutal por policiais que transformaram seu sonho de infância em um "corpo de pernas limpas" em uma carcaça de "aro e sangue" amarrada a um poste. Esta sequência é fundamental para compreender a ética da vingança que move o enredo; o Homem da Bicicleta não é um criminoso comum, mas um "escultor de madeiras" e de destinos, que aprendeu a "diluir o ódio" no movimento das rodas e no silêncio das grades. Sua transformação em "braço direito do chefe" é a resposta orgânica de uma periferia que se organiza diante da "prisão fora da cadeia" imposta pelo Estado.

Imagem: Arte digital

A linguagem utilizada para descrever o submundo do "Coiso" e das "bocas de fumo" é impregnada de uma simbologia entomológica que eleva a obra ao patamar da alta literatura alegórica. Costta não descreve apenas traficantes, mas "homens-insetos" cujas "entranhas se contraem" e cujas "asas se abrem" sob o estímulo da violência. Esta fusão biológica sugere que a degradação social provocou uma mutação não apenas ética, mas física, nos habitantes do "esgoto de periferia". A eficácia do texto reside na capacidade de transitar entre o jargão das ruas e a descrição quase científica de uma "metamorfose" social que o sistema oficial prefere rotular apenas como "marginalidade".

A Repórter, agora elevada ao cargo de governadora, utiliza a retórica do "combate às drogas" para mascarar uma reconfiguração do crime organizado, onde o tráfico não acaba, mas "migra de poder". A narrativa expõe a simbiose entre o palanque e a milícia, demonstrando que a "caçadora de traficantes" é a mesma que, nos bastidores, pactua com o monstruoso para manter o "status quo". Silvio Costta entrega uma obra onde o espetáculo político é a forma mais refinada de ocultar o esgoto que corre por baixo das instituições, consolidando "Homens e Insetos" como um marco da crítica literária contemporânea.

O desfecho de "Homens e Insetos" consolida-se como uma peça de engenharia narrativa que sela a indissociabilidade entre o destino humano e a biologia da sobrevivência. Silvio Costta encerra o ciclo da tragédia ao promover o retorno do Homem da Bicicleta ao seu local de origem: o tubo de esgoto, que deixa de ser um símbolo de descarte para se tornar um "tubo-útero" de regeneração metafísica. A precisão técnica da conclusão reside na resolução do arco da vingança, onde o extermínio do Secretário de Segurança — o antigo soldado agressor — é executado com uma simetria poética cruel, utilizando o sangue da própria vítima para desenhar as suásticas que outrora representaram sua opressão.

A construção do desfecho técnico da obra opera sob uma lógica de entropia e metamorfose. A morte do Coiso na presença da Governadora não é apenas o fim de um líder criminoso, mas a prova física da fragilidade da "couraça" que sustenta o poder. A transformação do cadáver em um "pacote amorfo" que murcha até o tamanho de um bebê subverte a percepção do leitor sobre o que é monstruoso, transferindo a verdadeira repulsa para a figura da Repórter, que golpeia a criatura com um "rompante de ódio" para garantir sua estabilidade política. Esta cena é fundamental para a análise jornalística da obra, pois expõe o preço do poder: a necessidade de eliminar qualquer vestígio de uma verdade que não possa ser maquiada pelo espetáculo.

A linguagem atinge seu ápice lírico e sombrio nos parágrafos finais, onde a neblina da madrugada atua como um véu que equaliza o crime e a redenção. A imagem do Homem da Bicicleta, ferido mortalmente pelo Investigador — o traidor que utiliza a "bala de cruz" para encerrar o acordo —, entregando o corpo do Coiso à velha cega, estabelece um quadro de pietá periférica. A cicatrização dos ferimentos do gigante pelas mãos da velha de olhos brancos sugere que, no submundo de Costta, a cura não vem das instituições, mas da aceitação da própria natureza híbrida e da solidariedade entre os despossuídos.

Finalmente, a obra conclui-se com um diagnóstico rigoroso sobre a circularidade da violência e a permanência das estruturas de poder. O esgoto, "habitação de insetos", permanece como o depósito de uma humanidade que o sistema tenta, sem sucesso, ignorar. Silvio Costta entrega uma resenha final da condição brasileira: um ciclo onde "homens-insetos" governam enquanto a "quebrada" aguarda a próxima metamorfose. A narrativa de fôlego único termina com um "breu" que não representa o fim, mas a gestação de um novo capítulo de resistência e horror, confirmando a obra como um dos pilares da literatura contemporânea de choque e alegoria.

SOBRE O AUTOR


Silvio Costta; escritor, com 40 publicações e outras no prelo. Trabalha com temas diversos e literatura para todas as idades. Têm livros e juvenis, com destaque para temas sobre natureza, ética, filosofia e sociedade. Possui publicações de poesia, romances e pedagógicos. Em literatura adulta, publicou o romance; A arte de não ser definitivo (Amelie Editorial) e lança em 2026, seu segundo romance Homens e Insetos pela Editora Laranja Original. É formado em jornalismo e pós graduado em filosofia e Psicanálise nos contos de fada. Mora em São Paulo.

CURADORIA

ULTIMAS RESENHAS PUBLICADAS