ATÉ O FIM DO VERÃO, DE ABBY JIMENEZ, E O ROMANCE QUE TRANSFORMA UMA MALDIÇÃO EM SEGUNDA CHANCE


 Em Até o Fim do Verão, Abby Jimenez parte de uma premissa inusitada para construir uma comédia romântica que equilibra leveza e densidade emocional com habilidade. A história acompanha Emma, uma enfermeira itinerante, e Justin, um engenheiro de software que se torna viral após relatar na internet um padrão curioso: todas as mulheres com quem ele se envolve acabam encontrando o “amor da vida” logo depois do término. O que poderia soar apenas como um recurso cômico se transforma em ponto de partida para uma reflexão mais profunda sobre destino, repetição de padrões afetivos e o medo de nunca ser escolhido.

A narrativa alterna os pontos de vista de Emma e Justin, o que permite ao leitor compreender as inseguranças e expectativas de ambos. O primeiro contato acontece por meio de uma troca de mensagens online, quando Emma se identifica com a “maldição” descrita por Justin. A partir daí, a autora constrói um diálogo espirituoso, marcado por ironia, timing cômico e vulnerabilidade gradual. O humor é um dos grandes trunfos do romance, especialmente nas cenas que envolvem o famoso outdoor que atormenta Justin ou o cachorro adotado como forma de vingança simbólica contra o amigo.

“É um dom – respondi. – Não pra mim, mas meus ex-namorados estão felizes.” (p. 19) 

A frase acima, dita por Emma, sintetiza o tom agridoce que permeia o livro. Há um reconhecimento bem-humorado da própria frustração amorosa, mas também uma ponta de melancolia. A autora demonstra domínio ao trabalhar essa dualidade: rir da própria desgraça sentimental é uma estratégia de sobrevivência, mas não apaga o desejo legítimo de viver um amor duradouro.

Embora a premissa gire em torno de uma suposta “maldição”, o romance não envereda por caminhos sobrenaturais. O foco está na psicologia dos personagens e na repetição de escolhas afetivas. Justin questiona se nunca sentiu o “impacto de caminhão” descrito pelo amigo ao se apaixonar, enquanto Emma carrega um histórico familiar complexo, marcado pela instabilidade da mãe. A “maldição” passa a funcionar como metáfora para o medo de intimidade e para a sensação de sempre ser etapa de transição na vida do outro.

“Você já sentiu que alguém era a pessoa certa? Tipo, que tem o suficiente ali pra você dar uma chance, mas de repente tudo desmorona?” (p. 41) 

Essa pergunta, feita por Justin, desloca o romance da esfera do acaso para o território das expectativas frustradas. Jimenez sugere que talvez não se trate de destino, mas de conexões incompletas, de timing errado ou de pessoas que se aproximam quando ainda não estão prontas para permanecer.

Outro ponto forte do livro é a construção de Emma. Longe de ser apenas a contraparte romântica de Justin, ela carrega conflitos próprios, especialmente relacionados à mãe, Amber, uma figura instável que desaparece e reaparece ao longo da vida da filha. O passado de Emma adiciona camadas dramáticas à trama e impede que a narrativa se restrinja ao campo da comédia. A profissão de enfermeira, aliás, não é mero detalhe: reforça seu perfil cuidador e resiliente, moldado por anos de responsabilidade precoce.

“Tenho o temperamento certo para o trabalho. Sou paciente. Não fico irritada ou enjoada com facilidade. Sei lidar bem com o estresse…” (p. 48) 

A fala revela não apenas sua vocação profissional, mas também a forma como aprendeu a sobreviver emocionalmente. Emma é alguém que suporta, que administra crises, que cuida — muitas vezes sem ser cuidada. Nesse sentido, o romance também dialoga com o tema da exaustão emocional e da dificuldade de se permitir vulnerável.

Justin, por sua vez, representa o homem que aparenta estabilidade, mas se sente deslocado no próprio círculo social. Seus melhores amigos estão em relacionamentos consolidados, enquanto ele permanece no papel de “amuleto da sorte”. A viralização de sua história nas redes sociais amplia esse sentimento de caricatura: ele se torna piada, curiosidade, quase um experimento romântico. A autora aproveita essa exposição para criticar, de forma sutil, a cultura de espetacularização das experiências pessoais na internet.

“Porque todo mundo quer saber quem é o cara que pode garantir um final feliz.” (p. 29) 

Ao tratar o amor como fórmula replicável, a sociedade transforma Justin em ferramenta narrativa alheia. O romance, no entanto, devolve a ele a complexidade humana, mostrando que por trás do meme existe alguém que também quer ser escolhido, não apenas servir de ponte para a felicidade de terceiros.

A ambientação em Minnesota e as constantes mudanças de cidade de Emma reforçam a ideia de trânsito e impermanência. O contraste entre a vida fixa de Justin e o nomadismo profissional de Emma cria tensão adicional: como construir algo duradouro quando um dos dois está sempre de partida? A questão geográfica funciona como obstáculo concreto para um romance que já nasce sob o signo da dúvida.

Jimenez também aborda temas sensíveis, como ansiedade, traumas e relações familiares tóxicas, conforme alertado na nota ao leitor no início da obra. Essa escolha confere profundidade ao enredo e amplia o alcance emocional da narrativa. O romance não ignora que o amor, por si só, não resolve traumas acumulados; ele pode ser catalisador de mudança, mas não substitui processos internos de cura.

No aspecto estilístico, a escrita é ágil, marcada por diálogos naturais e ritmo cinematográfico. As trocas de mensagens, ligações e fotos enviadas em tempo real aproximam o leitor da experiência contemporânea do flerte. A autora compreende a linguagem digital sem torná-la artificial, o que contribui para a verossimilhança do relacionamento em construção.

Até o Fim do Verão se destaca, portanto, por equilibrar humor e introspecção. A “maldição” funciona como motor narrativo, mas o que realmente sustenta a trama é a vulnerabilidade dos protagonistas e a coragem de tentar novamente. O título sugere transitoriedade — algo que dura apenas uma estação —, mas a história questiona se determinados encontros, ainda que breves, não são capazes de alterar trajetórias inteiras.

Ao final, Abby Jimenez entrega um romance que diverte sem subestimar a inteligência emocional do leitor. Entre piadas sobre cotonetes, cachorros “feios” e outdoors constrangedores, emergem discussões sobre destino, escolha e merecimento afetivo. Mais do que saber se a maldição será quebrada, o que importa é acompanhar dois personagens que decidem, pela primeira vez, desafiar o ciclo e apostar em si mesmos.

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