A cidade de Nova Arcádia não dormia; ela apodrecia em um estado de vigília febril. Sob o céu de chumbo, que parecia pairar a poucos metros dos telhados pontiagudos, a fumaça das fábricas de sebo desenhava arabescos de um cinza doentio. Eu, um observador das sombras por profissão e um hipocondríaco da alma por natureza, encontrava-me diante do Edifício Malakoff — uma estrutura de ferro e tijolos enegrecidos que se erguia como um dedo acusador contra o firmamento. Dizer que o prédio era sinistro seria um eufemismo que insultaria a própria natureza do horror. Suas janelas eram como olhos leitosos de um cadáver, e o som que emanava de suas profundezas... ah, aquele som. Era um sussurro metálico, uma fricção rítmica que lembrava o amolar de facas em couro curtido, ecoando pelo beco úmido. Minha missão era simples em sua descrição, mas vil em sua essência. O Sr. Valdemar, um colecionador de raridades anatômicas cujo rosto era uma máscara de pergaminho esticado sobre ossos frágeis, havia me c...
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Vitor Zindacta
A MAQUINA DE OSSOS QUEBRADOS
O convite chegou em um envelope sem remetente, o papel de um branco fúnebre e a caligrafia tão precisa que parecia impressa. Dentro, uma única frase: "A perfeição aguarda." Não havia endereço, apenas a menção de um ateliê no distrito industrial, um lugar esquecido onde o cheiro de metal enferrujado e sonhos desfeitos impregnava o ar. Eu era uma artesã de porcelanas, e a busca pela perfeição era a minha própria maldição silenciosa. Meu trabalho era de uma delicadeza quase doentia, cada curva, cada esmalte, uma tentativa de capturar a efemeridade da beleza antes que ela se desintegrasse. Mas eu sentia que faltava algo, um toque final, uma alma que eu nunca conseguia infundir em minhas peças. No dia marcado, o táxi me deixou em frente a um galpão de tijolos escuros, sem janelas, a única indicação de vida uma porta de aço pesado com um interfone quase invisível. A voz que respondeu era masculina, rouca, mas com uma estranha melodia. "Bem-vinda. A perfeição aguarda." A p...
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Vitor Zindacta
POSSESSÃO
É um erro comum supor que o mal se manifesta com o cheiro de enxofre ou o retinir de correntes forjadas no abismo. Para mim, ele chegou com o som do silêncio — um silêncio absoluto e cortante que se instalou em meu crânio no auge de uma tarde de domingo, enquanto o sol de verão atravessava os vitrais da paróquia, projetando sombras alongadas e distorcidas sobre o mármore frio. Eu tinha dezessete anos, e a pureza era meu único escudo. Ou assim eu acreditava, antes de descobrir que o corpo humano não é um templo, mas uma carcaça vulnerável à invasão de pensamentos que não nos pertencem. Não sou louca. A loucura implica uma desordem, um caos de sentidos. O que sinto é de uma ordem geométrica, uma precisão matemática de ódio que reside exatamente dois centímetros atrás do meu globo ocular esquerdo. Ele não fala com cordas vocais; ele vibra na medula. Ele se apresenta como o Adversário, o Caído, o acusador que conhece cada fresta da minha alma. E ele quer o sangue daqueles que compartilham ...
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