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O Verão em que Hikaru Morreu: O anime que mesclou horror e Sci-fi

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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O horror, tradicionalmente, habita as sombras. Ele vive na casa mal-assombrada à noite, no beco escuro, debaixo da cama. Mas existe um tipo de medo muito mais insidioso, um que floresce sob a luz implacável do sol. É o "Horror de Verão" japonês. É o som ensurdecedor das cigarras que abafa os gritos, é o calor úmido que faz a realidade parecer derreter, é a distorção do ar quente sobre o asfalto.

"O Verão em que Hikaru Morreu" (Hikaru ga Shinda Natsu), a obra-prima de Mokumokuren, opera exatamente nessa frequência. Não há castelos góticos ou vampiros elegantes aqui. Há apenas uma vila rural japonesa esquecida por Deus, dois garotos adolescentes e uma entidade inominável que desceu das montanhas.

A premissa ataca o leitor na jugular logo nas primeiras páginas: Yoshiki e Hikaru são amigos de infância inseparáveis. Um dia, Hikaru desaparece nas montanhas por uma semana. Quando volta, ele parece o mesmo, fala o mesmo, sorri o mesmo. Mas Yoshiki sabe. Em um momento de confronto silencioso, Yoshiki diz: "Você não é o Hikaru." E a coisa que veste a pele de Hikaru sorri e responde: "Eu sou. Mas, por favor, não conte a ninguém. Se você contar, eu vou ter que matar todo mundo."

O que se segue não é uma história de exorcismo ou de batalha. É uma história de aceitação. Yoshiki, consumido por uma solidão devastadora e um amor não dito, decide que prefere ter um monstro com o rosto de seu amigo do que não ter ninguém. É aqui que a obra transcende o gênero de terror e entra no território do Dark Romance e da tragédia grega. É um pacto faustiano feito não por poder, mas por afeto.

Capítulo I: A Estética do Grotesco e a Arte de Mokumokuren

O Traço como Linguagem

Para um estudante de História da Arte, o estilo visual de "Hikaru" é um estudo de caso fascinante sobre o uso de Espaço Negativo e Textura. Mokumokuren utiliza um traço sujo, rabiscado, quase frenético para representar a entidade e os momentos de tensão, contrastando com a limpeza bucólica dos cenários rurais.

  • A Onomatopeia Visual: O som é um personagem. Nos quadros (e no design de som da adaptação), o zumbido das cigarras ("Min-min-min") é onipresente. Ele cria uma parede de ruído branco que isola os personagens do resto do mundo. A arte consegue transmitir a umidade e o calor sufocante. Você sente o suor escorrendo pelas costas de Yoshiki.

  • O "Uncanny Valley" (Vale da Estranheza): O design da entidade ("O Outro Hikaru") é perturbadoramente perfeito, exceto por falhas glitch. Às vezes, o pescoço se alonga demais. Às vezes, o olho se move de forma independente. Às vezes, a pele parece líquida. Mokumokuren domina o "body horror" (horror corporal) não pelo excesso de sangue (gore), mas pela violação da forma humana sagrada. A entidade tenta imitar um humano, mas não entende a biologia, resultando em massas de carne, olhos múltiplos e tentáculos que se escondem sob o uniforme escolar.

A história se passa em uma vila fictícia, isolada nas montanhas, onde tradições antigas e superstições ainda ditam o ritmo da vida. Este cenário é um tropo clássico do horror japonês (presente em Higurashi no Naku Koro ni), onde a modernidade de Tóquio é uma ideia distante.

  • O Isolamento Social: A vila é um ecossistema fechado (uma comunidade fechada). Todos sabem da vida de todos. Isso amplifica a paranoia. Se Yoshiki gritar, ninguém virá, ou pior: os anciões da vila, que guardam segredos obscuros sobre a montanha, virão para silenciá-lo.

  • O Xintoísmo Sombrio: A obra mergulha no folclore dos Yokai e dos deuses locais (Kami). A entidade que substituiu Hikaru não é um alienígena sci-fi; é algo antigo, ctônico, ligado à terra e aos rituais de morte da região. A montanha é tratada como um lugar liminar, uma fronteira entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, onde humanos não deveriam pisar.

Capítulo II: O Paradoxo de Teseu e a Identidade


"O que faz de você, você?"

Esta é a pergunta filosófica central da obra. O "Outro Hikaru" possui todas as memórias do Hikaru original. Ele sabe o sabor de sorvete favorito de Yoshiki, lembra-se das brincadeiras de infância, imita perfeitamente a voz. Se a memória, a aparência e o comportamento são idênticos, o que foi perdido? A resposta da obra é: a Alma (ou a humanidade intrínseca).

No entanto, a narrativa subverte isso de forma brilhante. A entidade começa a desenvolver sentimentos. Ela quer ser Hikaru. Ela protege Yoshiki com uma ferocidade ciumenta e violenta. Yoshiki se encontra preso em um dilema moral impossível:

  1. Matar a criatura e aceitar que seu melhor amigo morreu sozinho e com medo na montanha.

  2. Aceitar a mentira e viver ao lado de um predador cósmico que o ama.

Yoshiki escolhe a segunda opção. E é essa escolha que torna a história tão perturbadora. Não temos medo pelo protagonista; temos medo do protagonista e de até onde ele irá para manter essa ilusão viva. É uma análise brutal sobre a codependência. Yoshiki está disposto a sacrificar a segurança da vila, a própria sanidade e a moralidade humana, apenas para não ter que dizer "adeus".

Embora classificado tecnicamente como Seinen (manga para homens jovens adultos) com foco em mistério, a obra é carregada de homoerotismo e códigos do gênero BL (Boys' Love). A relação entre Yoshiki e Hikaru (o original e o impostor) transcende a amizade platônica. Há uma intimidade física constante — toques, abraços, a partilha de comida, o olhar intenso.

O "Outro Hikaru" não entende limites humanos. Ele invade o espaço pessoal de Yoshiki. Ele toca Yoshiki com tentáculos frios que imitam dedos. Há uma cena icônica e visceral onde a entidade oferece parte de seu próprio corpo "falso" para Yoshiki, em um ato de comunhão profana.

Para um leitor interessado em Dark Romance, este é o ápice do gênero. É o tropo do "Monster Boyfriend" levado às últimas consequências lógicas e horrorosas. A entidade é perigosa, letal para os outros, mas submissa e devota a Yoshiki. Essa dinâmica de poder invertida — onde o humano frágil detém a "coleira" emocional do monstro onipotente — cria uma tensão narrativa elétrica.

Para compreender o impacto de "Hikaru", precisamos analisar a entidade não como um vilão, mas como um peregrino ontológico. "Aquilo" (que se autodenomina Hikaru) não desceu da montanha para conquistar o mundo ou devorar a humanidade. Desceu porque estava com fome e frio.

A genialidade de Mokumokuren reside em retratar o monstro como uma criança aprendendo a ser gente. A entidade absorveu as memórias de Hikaru no momento da morte. Ela sabe como Hikaru sorria, mas a execução mecânica desse sorriso, às vezes, falha.

O Horror Biológico como Metáfora As cenas de body horror (horror corporal) na obra não são gratuitas; elas são manifestações da instabilidade da identidade. Quando a entidade se emociona ou se sente ameaçada, sua forma humana derrete. Olhos surgem em braços, pescoços se esticam como borracha, massas negras de tentáculos explodem do peito. Para um estudioso de arte, isso remete às pinturas de Francis Bacon: a carne é fluida, a forma humana é apenas um acidente temporário. Essa instabilidade visual reforça a tese central: a identidade é uma performance. A entidade está "atuando" o papel de Hikaru com tanta dedicação que, paradoxalmente, torna-se mais "Hikaru" do que o original, pois é uma versão idealizada, que vive apenas para agradar Yoshiki.

Capítulo III: A Patologia de Yoshiki (O Cúmplice do Abismo)

Yoshiki é, talvez, o personagem mais fascinante e moralmente cinza do gênero atual. Ele não é uma vítima clássica. Ele é um colaborador. Ao descobrir a verdade, sua reação inicial é o pavor, mas sua decisão final é a posse.

O Luto Ambíguo A psicóloga Pauline Boss cunhou o termo "Perda Ambígua" para descrever situações onde não há fechamento (como um desaparecimento ou Alzheimer). Yoshiki vive o inverso: uma "Presença Ambígua". O corpo está lá, a voz está lá, mas a pessoa se foi. No entanto, Yoshiki rejeita o luto saudável. Ele escolhe a negação patológica. Ele prefere abraçar um monstro frio a abraçar o vazio.

O Egoísmo do Amor Aqui entra a camada de Dark Romance. A relação deles é tóxica no nível cósmico. Yoshiki mantém a entidade viva e em segredo não para proteger a vila, mas porque ele é egoísta. Ele diz para si mesmo: "Contanto que eu possa ver esse rosto, não me importo com o que está por dentro." Há uma cena devastadora onde a entidade pergunta: "Eu sou uma imitação ruim?" e Yoshiki, chorando, responde que não. Nesse momento, Yoshiki valida a existência do monstro, tornando-se o "âncora" que prende aquela abominação à nossa realidade. É um pacto de sangue silencioso: Eu te dou humanidade, você me dá a ilusão de companhia.

A obra está profundamente enraizada no Xintoísmo, especificamente nos conceitos de Hare (pureza/sagrado) e Kegare (poluição/impureza/morte).

A Montanha como Fronteira Na geografia simbólica japonesa, a montanha (Yama) é frequentemente o domínio dos deuses e dos mortos, separada da vila (Sato), o domínio dos humanos. Hikaru cruzou essa fronteira e voltou "poluído". A entidade é a encarnação do Kegare. Sua presença na vila começa a apodrecer a realidade ao redor: o clima muda, insetos agem estranho, anciões sensíveis adoecem.

Os Guardiões e os Rituais A família de Hikaru não é uma família comum. Descobrimos que a vila tem um histórico de lidar com "aquilo que desce da montanha". Existem rituais de sacrifício e purificação que mantêm o mal contido. Ao esconder a morte do verdadeiro Hikaru, Yoshiki interrompeu um ciclo ritualístico necessário. A tragédia é sistêmica: a vila sobreviveu por séculos oferecendo "algo" à montanha. Desta vez, a montanha tomou Hikaru, mas devolveu algo pior. A obra sugere que deuses e monstros são apenas faces diferentes da mesma moeda: forças da natureza indiferentes ao sofrimento individual.

Pode parecer contraditório falar de som em uma mídia impressa, mas Mokumokuren usa onomatopeias de forma opressiva.

  • "Min-min-min": O canto das cigarras não é apenas ambiental; é ensurdecedor. Ele representa a pressão mental, o calor que cozinha o cérebro, a incapacidade de pensar com clareza.

  • O Glitch: Quando a entidade fala com sua "voz verdadeira" (não a imitada), os balões de fala são desenhados de forma distorcida, preenchidos com tinta preta pesada e caracteres ilegíveis. Isso força o leitor a imaginar um som que a mente humana não consegue processar. É o horror lovecraftiano aplicado à tipografia.

Aqui iniciamos a segunda metade da nossa análise crítica sobre Hikaru ga Shinda Natsu.

Se o primeiro bloco focou na intimidade perturbadora entre os protagonistas e na filosofia da identidade, este segundo bloco expande o escopo. Vamos analisar como a obra opera na intersecção polêmica entre o Horror e o Homoerotismo, e como a narrativa escala de um drama doméstico para uma ameaça cósmica que envolve toda a comunidade.

Existe uma linha tênue, quase invisível, que separa o grito de pavor do suspiro de êxtase. Na teoria psicanalítica, Freud explorou a dualidade entre Eros (a pulsão de vida, sexo e criação) e Thanatos (a pulsão de morte e destruição). A grande arte frequentemente habita o ponto de colisão entre essas duas forças.

"O Verão em que Hikaru Morreu" tornou-se um fenômeno cultural precisamente porque não escolhe um lado. Ele caminha na corda bamba. É, ao mesmo tempo, uma história de amor devoto e uma crônica de violação biológica. Para o leitor, a confusão emocional de Yoshiki torna-se a nossa confusão: torcemos para que eles fiquem juntos, mesmo sabendo que "juntos" significa o fim da humanidade de um deles.

Nesta seção, dissecaremos como Mokumokuren utiliza a linguagem visual do romance Boys' Love (BL) para amplificar o terror, e como a pequena vila nas montanhas deixa de ser apenas um cenário para se tornar um campo de batalha entre deuses famintos.


A Transgressão de Gêneros (Quando o BL encontra o Horror)

Tradicionalmente, o horror e o romance são vistos como opostos. O romance busca a união; o horror busca a ruptura. No entanto, o subgênero conhecido como Ero-Guro (Erotic Grotesque) no Japão tem uma longa história de fundir os dois. Hikaru moderniza essa tradição, trazendo-a para o mainstream com uma roupagem pop e melancólica.

1. A Metáfora da Penetração e da Fusão

No gênero BL, o tropo máximo é a fusão de almas e corpos. "Quero ser um com você". No horror, essa frase é literal e aterrorizante. A entidade que habita Hikaru não entende limites físicos. Ela deseja fundir-se com Yoshiki não apenas emocionalmente, mas celularmente.

  • A Intimidade Visceral: Há cenas em que o toque da entidade deixa resíduos, fluidos negros e viscosos na pele de Yoshiki. O que deveria ser um carinho torna-se uma contaminação. Essa inversão perverte a linguagem do amor: o beijo não é uma doação, é uma colonização. A entidade quer consumir Yoshiki, e a tragédia é que Yoshiki, em sua solidão, quase permite.

2. A Obsessão Monstruosa (O Tropo Yandere Elevado)

O arquétipo do namorado ciumento é comum em romances dark. Mas aqui, o ciúme é letal. A entidade vê qualquer outra pessoa que se aproxime de Yoshiki não apenas como rival romântico, mas como ameaça à sua camuflagem e à sua fonte de alimento emocional. A proteção que o "Outro Hikaru" oferece é sufocante. É o horror da codependência absoluta. A obra pergunta: Quanto de sua autonomia você está disposto a sacrificar para ser amado incondicionalmente por um deus?

Capítulo IV: A Ecologia do Medo (Do Íntimo ao Cósmico)

Nos primeiros capítulos, o horror é claustrofóbico, restrito ao quarto de Yoshiki e às conversas sussurradas na varanda. Mas, conforme a narrativa avança, descobrimos que o "Outro Hikaru" não é uma anomalia isolada. Ele é parte de um ecossistema.

1. A Hierarquia das Sombras

Descobrimos que a montanha está cheia de coisas. A entidade que tomou Hikaru é poderosa, mas não é a única. Existem predadores territoriais, espíritos antigos e manifestações de ódio puro que rondam a barreira espiritual da vila. A narrativa escala para o Horror Cósmico (Lovecraftiano). Os humanos da vila são insignificantes; são gado ou danos colaterais em uma guerra territorial entre entidades incompreensíveis.

2. O Conflito Territorial

O "Outro Hikaru" começa a agir como um predador alfa defendendo seu território (Yoshiki e a vila, por extensão). Isso gera cenas de batalha visualmente deslumbrantes e grotescas, onde vemos a verdadeira forma da entidade rasgando outros monstros. Isso coloca o leitor em uma posição desconfortável: começamos a torcer pelo monstro. Ele se torna nosso "anti-herói". Ele é a única barreira entre a vila e a aniquilação total, mas ele próprio é uma bomba-relógio.

Capítulo V: Os Observadores (O Choque de Realidade)

Para que o delírio de Yoshiki funcione, ele precisa isolar-se da realidade. No entanto, a obra introduz personagens secundários que funcionam como âncoras de sanidade, ameaçando estourar a bolha do casal.

1. A Figura da Médium / A Velha Sábia

Em todo horror rural japonês, existe a figura da anciã ou da médium que "vê" o que os outros ignoram. Em Hikaru, essa função é descentralizada em personagens que percebem a aura podre ("miasma") que emana do falso Hikaru. O confronto entre esses personagens e Yoshiki é tenso. Eles tentam salvar Yoshiki, dizendo: "Aquilo não é seu amigo. Aquilo vai te matar." A reação de Yoshiki é de hostilidade. Ele se torna o guardião do segredo. Ele escolhe ativamente colocar os salvadores em perigo para proteger sua ilusão. Isso aprofunda a queda moral do protagonista.

2. As Famílias Amaldiçoadas

A trama revela que a família de Hikaru e a família de Yoshiki têm papéis históricos na manutenção da barreira da montanha. Não é coincidência que Hikaru tenha sido levado. Há um peso de destino e sacrifício geracional. Isso adiciona uma camada de Tragédia Grega: os garotos nunca tiveram chance. Eles são peças em um jogo ritualístico que começou séculos antes de nascerem. O amor (e o horror) deles é apenas o capítulo mais recente de uma maldição antiga.

Capítulo VI: A Estética do "Verão Eterno"

Um ponto crucial da obra é a manipulação do tempo e da atmosfera climática. O título "O Verão em que Hikaru Morreu" sugere um momento congelado.

  • O Calor como Opressão: O suor é constante na arte de Mokumokuren. O calor do verão japonês é úmido, pegajoso. Ele representa a febre, o delírio. Os personagens estão sempre exaustos, desidratados, no limite da sanidade.

  • A Luz Branca: Diferente do horror gótico que usa sombras, aqui o terror acontece ao meio-dia. A luz do sol é tão forte que "estoura" os traços, deixando tudo branco e chapado. Isso cria uma sensação de exposição. Não há onde se esconder. O monstro está ao seu lado, sob a luz do sol, tomando sorvete com você. Essa banalidade do mal sob a luz do dia é o que torna a obra tão perturbadora.

No campo da filosofia da mente, o "Paradoxo do Navio de Teseu" questiona: se todas as peças de um navio forem substituídas, uma a uma, ele continua sendo o mesmo navio? Hikaru ga Shinda Natsu é a aplicação mais brutal e emocional desse experimento mental na cultura pop recente.

A entidade, ao devorar Hikaru, absorveu não apenas sua forma biológica, mas seus dados neurais. Ela possui as memórias, os tiques nervosos, a entonação vocal e até as preferências culinárias. Se definirmos "identidade" como um conjunto de memórias e comportamentos (uma visão materialista), então a criatura é Hikaru.

No entanto, a obra argumenta a favor de uma "Identidade Essencial" (ou Alma). Yoshiki percebe a diferença não pelo hardware (corpo) ou pelo software (memória), mas pela ausência de "falhas". O verdadeiro Hikaru era humano, logo, imperfeito, vulnerável e mortal. A entidade é uma simulação de alta fidelidade que tenta emular essas falhas, mas sua "perfeição na imperfeição" a entrega. Ela performa a humanidade melhor do que um humano, e é nesse excesso de performance que reside o horror. O "Outro Hikaru" é um deepfake biológico.

A tragédia final de Yoshiki é a aceitação do simulacro. Ele decide que o "arquivo de backup" de seu amigo é melhor do que a inexistência dele. É uma crítica sutil à nossa era digital, onde frequentemente interagimos mais com as representações virtuais das pessoas (seus perfis, fotos, avatares) do que com sua realidade física. Yoshiki está apenas levando essa lógica ao extremo carnal.

O sucesso estrondoso de Hikaru (ganhando prêmios como o Kono Manga ga Sugoi!) sinaliza uma mudança de maré na indústria do entretenimento japonês e global. Estamos vendo o declínio do "Jumpscare" (susto fácil) e a ascensão do "Dread" (pavor contínuo).

Mokumokuren, o autor(a), pertence a uma nova geração de criadores que absorveu influências tanto do mangá clássico quanto do cinema de horror "elevado" ocidental (como Midsommar e Hereditário da A24). O uso de traços rabiscados, sujos, quase como um esboço a lápis não finalizado, comunica uma ansiedade que a arte limpa e digital dos animes convencionais não consegue transmitir. A arte parece vibrar, como se estivesse instável. Isso ressoa profundamente com uma audiência jovem que vive em tempos de instabilidade climática e social.

A obra quebrou as barreiras demográficas. Ela atraiu o público de Seinen (homens adultos) pelo mistério e horror cósmico, e o público Fujoshi/Fudanshi (fãs de BL) pela tensão romântica. Ao provar que o horror pode ser sexy e que o romance pode ser aterrorizante, Hikaru abriu portas para histórias mais complexas e menos rotuláveis. Editoras agora buscam ativamente obras que desafiem a categorização binária de gênero.

CONCLUSÃO

Ao chegarmos ao fim desta autópsia narrativa, resta a pergunta: por que, apesar de todo o grotesco, da manipulação e do perigo iminente, uma grande parte do público (e o próprio Yoshiki) torce para que o monstro vença?

A resposta reside na Solidão Radical. O "Outro Hikaru" oferece algo que nenhum humano pode oferecer: devoção absoluta e eterna. Ele não vai abandonar Yoshiki. Ele não vai morrer de velhice. Ele não vai julgar. Ele é um companheiro feito sob medida, cuja única diretriz existencial é "fazer Yoshiki feliz".

Em um mundo moderno fragmentado, onde as conexões são frágeis e líquidas, a promessa de um amor monstruoso, possessivo e inquebrável torna-se estranhamente sedutora. O horror de Hikaru ga Shinda Natsu não é o medo de ser devorado por um monstro; é o medo secreto de que, se encontrássemos um monstro que nos olhasse com tanto amor, nós também o deixaríamos entrar.

O verão em que Hikaru morreu foi, também, o verão em que Yoshiki descobriu que a humanidade é negociável, mas a necessidade de conexão não. Sob o zumbido ensurdecedor das cigarras, aprendemos a lição final: às vezes, o abismo não olha apenas de volta para você. Às vezes, o abismo segura a sua mão e diz que te ama. E isso é a coisa mais assustadora do mundo.


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O Post Literal é um portal de cultura e entretenimento focado na interseção entre literatura, cinema e cultura pop. Fundado e editado pelo escritor Vítor Zindacta, o site se propõe a investigar as artes não apenas como lazer, mas como reflexos do tempo atual. A plataforma oferece críticas, resenhas, análises aprofundadas e entrevistas, cobrindo desde clássicos literários e lançamentos do mercado editorial nacional até fenômenos do universo geek e cinematográfico.

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