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artigos literatura

A Onda de Conforto: Por que a "Healing Fiction" Asiática Virou o Calmante Literário do Brasil

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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Caminhando pela seção de "Mais Vendidos" de qualquer grande livraria brasileira nesta semana, você notará uma ruptura visual. Entre as capas escuras dos thrillers policiais e as cores berrantes da autoajuda financeira, existe agora um oásis em tons pastéis. São capas que invariavelmente retratam uma cena bucólica: uma pequena loja de esquina, um gato observando a chuva, uma xícara de café fumegante ou uma biblioteca acolhedora iluminada por uma luz amarela.

Não há sangue, não há erotismo, não há grandes conspirações políticas. Os títulos são quase sussurrados: Bem-vindos à Livraria Hyunam-dong, A Biblioteca da Meia-Noite (embora ocidental, bebe da fonte), Antes que o Café Esfrie, A Inconveniente Loja de Conveniência.

Bem-vindos à era da Healing Fiction (Ficção de Cura). Enquanto o Ocidente nos oferece narrativas de colapso, guerra e distopia, o Extremo Oriente — liderado pela Coreia do Sul e pelo Japão — está vendendo ao Brasil algo que se tornou nosso recurso mais escasso: a paz.

O Fenômeno da "Literatura Sem Conflito"

Para o leitor brasileiro, acostumado à tradição do drama, da tragédia e do "Herói contra o Mundo", a estrutura desses livros pode parecer estranha à primeira vista. Nada "grande" acontece. Não há um vilão querendo destruir o mundo. O clímax não é uma batalha épica.

"São livros sobre a extraordinária beleza do cotidiano banal", define Cláudia Hideo, editora especializada em ficção asiática. "A trama gira em torno de uma mulher que largou o emprego corporativo tóxico para abrir uma livraria, ou de um homem que conversa com um gato que lhe dá conselhos filosóficos. O conflito é interno: o cansaço, a solidão, a busca por propósito. E a resolução é sempre gentil."

Esse subgênero, que explodiu globalmente nos últimos dois anos, encontrou terreno fértil no Brasil por um motivo triste, mas óbvio: somos, segundo a OMS, o país mais ansioso do mundo.

Depois de anos de polarização política, pandemia e crises econômicas, o leitor brasileiro médio está exausto. Ele não tem energia emocional para torcer por um herói que sofre tortura. Ele quer ler sobre alguém tomando um chá quente e reorganizando estantes de livros. A Healing Fiction funciona como um ansiolítico literário, um "lugar seguro" onde você sabe que, na página 200, nada de terrível terá acontecido.

A Ponte Construída pelos Doramas e pelo K-Pop

Este boom literário não aconteceu no vácuo. Ele surfou na onda gigante da cultura pop coreana (Hallyu) que inunda o Brasil há uma década.

Uma geração inteira foi educada sentimentalmente pelos K-dramas (novelas coreanas) da Netflix e pelas letras introspectivas de grupos de K-Pop como o BTS. O público já estava familiarizado com a estética, com os valores confucionistas de respeito e comunidade, e com o ritmo narrativo mais lento e contemplativo da Ásia.

"Quando a editora Intrínseca ou a Rocco trazem um best-seller coreano, metade do marketing já foi feito pela Netflix", explica o analista de tendências digitais Ricardo Mello. "O leitor vê aquela capa com estética de anime ou ilustração flat e associa imediatamente ao conforto que ele sente assistindo Uma Advogada Extraordinária. É uma extensão da experiência do dorama, mas em papel."

A Estética da Solidão Acolhedora

Um ponto crucial desse fenômeno é a ressignificação da solidão. Na literatura ocidental, a solidão costuma ser um problema a ser resolvido (o personagem precisa encontrar um par romântico para ser feliz). Na Healing Fiction, a solidão é frequentemente apresentada como um espaço de cura e autoconhecimento.

Os protagonistas muitas vezes são pessoas que "falharam" no sistema tradicional de sucesso. São dropouts da corrida dos ratos de Seul ou Tóquio. Eles não querem ficar ricos; eles querem ficar tranquilos.

Essa mensagem ressoa profundamente com a Geração Z e os Millennials brasileiros, que enfrentam um mercado de trabalho brutal e a sensação de que nunca alcançarão o padrão de vida de seus pais. Ler sobre uma personagem que decide viver com pouco dinheiro, mas com muita paz mental, trabalhando em uma loja de conveniência à noite, valida o desejo secreto de muitos jovens de "desistir" da ambição tóxica.

"Esses livros não julgam o leitor por estar cansado", diz a psicóloga e leitora ávida, Beatriz Lima. "Eles dizem: 'Tudo bem parar. Tudo bem tomar um café e olhar para a chuva por uma hora'. É uma permissão cultural para o descanso que a nossa sociedade ocidental, focada em produtividade, nos nega."

Mas seria essa literatura apenas uma forma de alienação bonitinha? Uma maneira de romantizar a precariedade da vida moderna com capas fofas e gatos falantes? Na segunda parte desta reportagem, investigaremos a crítica por trás da fofura, a padronização das capas que transformou as livrarias em galerias de arte k-style, e se a Healing Fiction é uma cura real ou apenas um placebo caro.

Se a primeira parte desta investigação explorou o porquê de estarmos sedentos por histórias gentis, a segunda parte precisa encarar o elefante na sala — ou melhor, o gato na livraria. Ao transformar o conforto em uma indústria multimilionária, o mercado editorial corre o risco de transformar a literatura de cura em um mero placebo estético?

A padronização visual e narrativa desses livros levanta uma questão incômoda: estamos lendo obras literárias únicas ou consumindo variações de um mesmo produto farmacêutico projetado para baixar nossa pressão arterial?

A Ditadura da Capa "Cozy"

Foto: Penguin Random House

É impossível ignorar a homogeneidade visual. Se você colocar A Biblioteca dos Sonhos Secretos, A Inconveniente Loja de Conveniência e Bem-vindos à Livraria Hyunam-dong lado a lado, eles parecem irmãos gêmeos separados no nascimento. A paleta de cores é sempre suave (lilás, turquesa, amarelo manteiga), a ilustração é vetorial e bidimensional, e a tipografia é arredondada e inofensiva.

"Existe uma ciência de marketing rigorosa por trás dessas capas", revela Mariana Sales, diretora de arte editorial. "O leitor desse gênero não quer surpresas. A capa funciona como uma embalagem de ansiolítico: ela precisa comunicar, em milissegundos, que aquele livro não vai te machucar. Se a capa for muito experimental ou agressiva, o público-alvo foge. Criamos uma semiótica da inofensividade."

Essa padronização transformou as seções de ficção estrangeira em galerias de arte lo-fi. O livro deixa de ser apenas uma leitura e vira um objeto de decoração de estilo de vida ("lifestyle prop"). Ele precisa combinar com a xícara de cerâmica artesanal e a manta de tricô para a foto do Instagram. A estética "cozy" (aconchegante) tornou-se, ironicamente, uma imposição rígida.

O Grito de Socorro Disfarçado de Sussurro

Mas o que existe por trás dessa fachada pastel? Críticos culturais apontam que a explosão da Healing Fiction na Coreia do Sul e no Japão é um sintoma de sociedades profundamente adoecidas.

Na Coreia do Sul, o termo "Hell Joseon" (Inferno Joseon) é usado pelos jovens para descrever uma sociedade marcada por competição brutal, desemprego, hierarquia sufocante e altas taxas de suicídio. Nesse contexto, a literatura de cura não é apenas "fofura"; é uma literatura de sobrevivência.

"Esses livros são fantasias de fuga", analisa o sociólogo especializado em Ásia, Dr. Hélio K. "No livro, o personagem larga o emprego na Samsung para abrir uma pequena livraria no interior. Na vida real, isso seria suicídio financeiro em Seul. O livro oferece a utopia que o capitalismo tardio asiático nega: a possibilidade de uma vida lenta. É um grito de socorro abafado por um travesseiro de plumas."

Portanto, quando o leitor brasileiro consome essas histórias, ele está consumindo a reação a uma distopia de produtividade que também ressoa aqui. A "cura" oferecida é paliativa. O livro não propõe derrubar o sistema que causa a ansiedade; ele propõe uma pausa individual, um refúgio temporário dentro do sistema. É a "Soma" de Admirável Mundo Novo, mas sabor chá verde.

A Industrialização da Empatia

Como tudo que faz sucesso no capitalismo, a Healing Fiction virou fórmula. O mercado agora está saturado de imitações que seguem um checklist narrativo previsível:

  1. Um protagonista exausto da cidade grande.

  2. Um local mágico ou pitoresco (livraria, café, lavanderia, loja de conveniência).

  3. Um personagem secundário excêntrico e sábio.

  4. Um elemento levemente fantástico ou realismo mágico (viagem no tempo limitada, gatos que falam, fantasmas gentis).

  5. Uma lição final sobre aceitar suas imperfeições.

"Estamos vendo a 'McDonaldização' da emoção", critica a resenhista literária Paula Diniz. "Muitos desses novos lançamentos parecem ter sido escritos por IA seguindo um prompt de 'livro conforto'. A prosa é simples demais, os conflitos são resolvidos com facilidade irritante e a sabedoria é de biscoito da sorte. Perdemos a nuance cultural em troca da digestão fácil."

Essa saturação pode levar ao desgaste rápido do gênero. Leitores mais exigentes já começam a reclamar que "leu um, leu todos". A repetição da fórmula ameaça esvaziar o poder genuíno que obras pioneiras, como Antes que o Café Esfrie (de Toshikazu Kawaguchi), tiveram ao introduzir esse olhar contemplativo.

Conclusão: O Direito ao Descanso

Apesar das críticas sobre a mercantilização e a simplicidade, seria elitista descartar o valor desses livros. Em um mundo que nos bombardeia com notícias de guerras, crises climáticas e violência urbana 24 horas por dia, a busca por uma literatura "segura" é um mecanismo de defesa legítimo.

A Healing Fiction nos lembra de olhar para o micro: o sabor da comida, a textura da chuva, a importância de ouvir o vizinho. Ela reeduca o olhar viciado no macro-caos para apreciar a micro-beleza.

Talvez esses livros não sejam a "alta literatura" que desafia o intelecto e revoluciona a linguagem. Mas eles cumprem uma função social vital: são hospitais de campanha para a alma. E num mundo em guerra constante pela nossa atenção e sanidade, um lugar seguro para descansar a mente — mesmo que seja uma livraria fictícia em Seul com capa pastel — vale mais do que ouro.

Como escreveu um leitor em uma resenha viral: "Este livro não mudou minha vida. Mas ele me ajudou a sobreviver à minha semana". E talvez, em 2025, isso seja o máximo que podemos pedir da arte.


A Mulher que Não Existe: Uma Conversa Franca com a "Ghostwriter" Mais Disputada do Brasil

Aqui está uma entrevista exclusiva conduzida por Julie Holiday.


A Mulher que Não Existe: Uma Conversa Franca com a "Ghostwriter" Mais Disputada do Brasil

Por Julie Holiday, São Paulo - SP

Ela entra no café na Vila Madalena usando óculos escuros, embora o dia esteja nublado. Pede que seu nome real não seja usado, nem o nome de qualquer cliente. Se uma única cláusula do seu contrato de confidencialidade (NDA) for quebrada, a multa pode ultrapassar os R$ 100 mil.

Vamos chamá-la de Helena.

Aos 34 anos, Helena tem três romances literários premiados na gaveta e uma conta bancária que só saiu do vermelho quando ela parou de assinar o que escrevia. Nos últimos quatro anos, ela escreveu cinco best-sellers que figuraram na lista da revista Veja. Dois deles são biografias de influenciadores digitais com milhões de seguidores; um é um livro de autoajuda financeira assinado por um "guru" do Instagram; e os outros dois são romances juvenis assinados por uma ex-participante de reality show.

Helena é um fantasma. Ela vende sua voz, sua alma e sua sintaxe para que celebridades pareçam inteligentes na estante. Nesta conversa exclusiva, ela nos leva para os bastidores do submundo mais lucrativo e secreto do mercado editorial brasileiro.


Julie Holiday: Vamos começar pelo básico. Quando você entra em uma livraria e vê a pilha de livros que você escreveu com o rosto de outra pessoa na capa, o que você sente? Orgulho ou raiva?

Helena: No começo, era raiva. Eu sentia uma náusea física. Lembro da primeira vez: vi uma fila de adolescentes chorando para pegar um autógrafo da "autora" (uma YouTuber de 20 anos) no livro que eu tinha virado noites escrevendo. Ela nem tinha lido o livro todo, eu tinha certeza. Ela estava assinando o meu trabalho, recebendo os elogios pelas minhas metáforas. Mas hoje? Hoje eu sinto alívio.

JH: Alívio?

Helena: Sim. Porque se o livro for cancelado no Twitter, o problema é dela. Se a crítica disser que é ruim, a vergonha é dela. Eu sou uma mercenária, Julie. Eu recebi meu cheque à vista. O ego é um luxo que eu troquei por boletos pagos.

JH: Como funciona o processo? O cliente senta com você e conta a história?

Helena: (Riso seco) Raramente. O cliente "guru" geralmente me manda áudios de WhatsApp. Áudios de dois minutos, desconexos, enquanto dirige. "Ô Helena, escreve aí um capítulo sobre resiliência, tipo aquela vez que quebrei a perna, mas coloca mais emoção, tá ligado?". Minha função é pegar esse lixo cognitivo e transformar em literatura. Eu preciso inventar uma voz para quem não tem voz. No caso da biografia da influenciadora, ela me deu uma entrevista de duas horas via Zoom e disse: "O resto você inventa, só me deixa parecer empoderada".

JH: Você inventa fatos da vida deles?

Helena: Eu "dramatizo". Se ela diz que ficou triste quando o namorado terminou, eu escrevo três páginas descrevendo a chuva batendo na janela, a playlist que tocava, a sensação do vazio no peito. Eu empresto a minha dor para ela. Aquele capítulo que fez as fãs chorarem no Instagram? Aquilo não foi o término dela com o sertanejo famoso. Aquilo foi o meu divórcio em 2019. Eu canibalizo minha própria vida para dar profundidade a pessoas rasas.

JH: Isso soa quase prostituição intelectual.

Helena: E é. Mas o mercado editorial me deixou sem opção. Quando tentei publicar meu romance autoral, a editora disse que o texto era "sublime", mas que eu não tinha plataforma. Me ofereceram um adiantamento de R$ 2 mil. Para escrever o livro do guru financeiro, recebi R$ 40 mil de entrada mais um bônus de performance. Eu tenho aluguel para pagar. A literatura "séria" virou hobby de herdeiro. Quem precisa comer vira fantasma.

JH: Você mencionou que precisa criar a "voz" do cliente. Qual é o maior desafio técnico disso?

Helena: Emburrecer o texto. É sério. O meu maior trabalho é a contenção. Às vezes escrevo uma frase linda, complexa, cheia de orações subordinadas. Aí meu editor (que sabe que sou a fantasma) diz: "Corta. A Fulana nunca usaria a palavra 'inexorável'. O público dela não vai entender". Eu tenho que escrever mal de propósito. Tenho que usar gírias do TikTok, frases curtas, parágrafos de uma linha. É uma lobotomia estilística. Eu sou paga para simular autenticidade medíocre.

JH: Existe algum momento em que a máscara cai? O público desconfia?

Helena: O público quer acreditar. É o pacto da ficção, expandido para a realidade. Eles sabem que aquela menina de 19 anos que passa o dia fazendo dancinha não sentou a bunda na cadeira por seis meses para escrever 300 páginas. Mas eles compram a fantasia. O livro é um merch, igual a uma camiseta ou um batom. A diferença é que o livro confere um status de intelectualidade que o batom não dá. O livro diz: "Olha, eu penso". Mesmo que o pensamento seja meu, alugado.

JH: O que acontece quando você encontra outros escritores "sérios" em eventos? Existe um código de silêncio?

Helena: Ah, nós nos reconhecemos pelo olhar cansado. Em festas literárias, você vê o autor famoso da TV bebendo champanhe, e no canto, bebendo cerveja barata, está o verdadeiro autor do livro dele. A gente se cumprimenta com um aceno de cabeça. É uma maçonaria dos humilhados. Muitos jornalistas famosos também usam ghosts. Você ficaria chocada com os nomes.

JH: Você acha que um dia vai conseguir sair das sombras e publicar algo seu, com seu nome, e ter sucesso?

Helena: Eu tenho medo de que, quando esse dia chegar, eu não tenha mais nada meu para dizer. Tenho medo de ter vendido todas as minhas melhores histórias, todas as minhas melhores metáforas, para outras pessoas. Sabe a lenda de vender a alma ao diabo? O diabo não quer sua alma para levar para o inferno. Ele quer sua alma para colocar na prateleira da Saraiva com a foto de um ex-BBB na capa.

JH: Para encerrar: o que você diria para um leitor que está agora com um livro de celebridade na mão?

Helena: Leia. Mas saiba que você não está lendo a celebridade. Você está lendo uma mulher de 34 anos, sentada num apartamento pequeno na Santa Cecília, tomando café frio, tentando pagar o plano de saúde e sonhando em ser a próxima Clarice Lispector, enquanto digita emojis de foguinho para um coach quântico.


(Helena termina o café, coloca os óculos escuros e sai. Ela tem um prazo para entregar: precisa escrever um capítulo emocionante sobre a "maternidade real" para uma influenciadora que tem três babás e nunca trocou uma fralda.)


Julie Holiday é jornalista especializada em cultura e mercado editorial, baseada em São Paulo.

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O Post Literal é um portal de cultura e entretenimento focado na interseção entre literatura, cinema e cultura pop. Fundado e editado pelo escritor Vítor Zindacta, o site se propõe a investigar as artes não apenas como lazer, mas como reflexos do tempo atual. A plataforma oferece críticas, resenhas, análises aprofundadas e entrevistas, cobrindo desde clássicos literários e lançamentos do mercado editorial nacional até fenômenos do universo geek e cinematográfico.

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