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A Morte do Autor Solitário: Quando o Escritor Vira Refém do Algoritmo

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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Foto: Gemini

A imagem romântica do escritor, cristalizada no imaginário popular durante séculos, é a da reclusão. Imaginamos Clarice Lispector datilografando em meio à fumaça de cigarros em seu apartamento no Leme, ou J.D. Salinger escondido do mundo para proteger sua sanidade e sua arte. O silêncio era, até pouco tempo atrás, o insumo básico da literatura.

Corta para 2025. Em um estúdio improvisado na Zona Oeste de São Paulo, Mariana*, autora de dois romances aclamados pela crítica, não está escrevendo. Ela está há três horas tentando acertar a iluminação do ring light para gravar um vídeo de 15 segundos onde precisa dublar um áudio viral de um reality show, apontando para legendas flutuantes que explicam "5 Dicas para Criar um Vilão".

Mariana está exausta. Seu editor avisou: se o engajamento no Instagram não subir, o adiantamento para o terceiro livro será cortado pela metade. "Eu sinto que sou uma vendedora de Herbalife que, nas horas vagas, tenta escrever literatura", desabafa.

Bem-vindos à nova era do mercado editorial, onde o talento narrativo se tornou um detalhe secundário diante da tirania da "Plataforma". Nesta investigação, mergulhamos na crise de identidade que assola escritores brasileiros, forçados a trocar a caneta pelo celular e a profundidade pela performance.

O Novo Porteiro do Mercado: "Quantos Seguidores Você Tem?"

Durante décadas, o "porteiro" das grandes editoras era o editor — uma figura, muitas vezes intelectualizada, que lia manuscritos em busca de uma voz original. Hoje, o porteiro é o Social Media Manager do departamento de marketing.

Conversamos com editores de aquisição de três das maiores casas editoriais do país. A resposta, sob condição de anonimato, foi unânime e brutal. "Se chegar um manuscrito genial, digno de um Nobel, mas o autor tiver 200 seguidores e perfil fechado, é muito difícil aprovar a compra", admite um diretor comercial. "Por outro lado, se um influenciador do TikTok com 500 mil seguidores me entregar um arquivo de Word com 200 páginas de frases de efeito e erros de concordância, eu ofereço um contrato na hora. O texto a gente arruma na edição. A audiência, a gente não consegue comprar."

Essa lógica inverteu a cadeia de produção. Antes, publicava-se o livro para construir o público. Hoje, exige-se o público para justificar o livro. Isso criou uma barreira de entrada intransponível para autores tímidos, introvertidos ou avessos à exposição — ironicamente, traços de personalidade historicamente comuns entre grandes escritores.

"Estamos matando a próxima Clarice no berço porque ela se recusa a fazer dancinha", resume, amarga, a agente literária Patrícia Gomes.

Nas redes sociais, formou-se uma subcultura visualmente deslumbrante: o BookGram e o BookTok. Nesses espaços, a escrita é performada. Vemos vídeos de laptops abertos ao lado de xícaras de café fumegantes, velas aromáticas, janelas com vista para a chuva e trilhas sonoras de piano lo-fi. A legenda diz: "Dia produtivo de escrita ✨".

A realidade, no entanto, é bem menos "instagramável". Escrever é um ato feio. Envolve olhar para o nada, roer unhas, escrever parágrafos ruins, deletar tudo, sentir-se uma fraude e ter dor nas costas. Mas essa realidade não gera likes.

"Eu passo mais tempo montando o cenário para a foto do que escrevendo o capítulo", confessa Lucas, autor de fantasia independente. "Se eu posto que escrevi 2 mil palavras hoje, ninguém liga. Mas se eu posto um vídeo estético mostrando meu teclado mecânico colorido e uma frase motivacional, ganho 5 mil visualizações. O algoritmo me treinou para ser um cenógrafo, não um escritor."

Essa "fetichização" do processo criativo cria uma pressão psicológica perigosa. Jovens autores sentem que, se não tiverem o escritório perfeito e a rotina matinal produtiva das 5 da manhã, não são escritores de verdade. A literatura deixa de ser sobre o texto e passa a ser sobre o lifestyle do escritor. O produto não é mais o livro; é a persona.

O Burnout Criativo e a "Síndrome do Criador de Conteúdo"

O custo humano dessa demanda é o colapso mental. Autores são, por natureza, observadores. Eles precisam de tempo ocioso para processar o mundo e transformá-lo em arte. O ritmo das redes sociais, porém, é frenético e devora o tempo ocioso.

O algoritmo exige postagens diárias. Stories de manhã, Reels à tarde, interação nos comentários à noite. O escritor precisa ser seu próprio departamento de marketing, designer gráfico, editor de vídeo e gerente de comunidade.

"Eu não tenho mais ideias para livros, só tenho ideias para posts", diz Mariana. "Meu cérebro foi reformatado. Quando vejo uma cena bonita na rua, não penso 'como descrever isso em prosa?', penso 'que áudio viral combinaria com isso?'. A profundidade do meu pensamento encurtou. Eu sinto que estou ficando burra, criativamente falando."

Esse fenômeno, chamado por psicólogos de "fadiga de apresentação", está gerando uma onda de bloqueio criativo em massa. Autores que estouraram com o primeiro livro (muitas vezes impulsionados pelo hype inicial) se veem incapazes de escrever o segundo, pois gastaram toda a sua energia vital alimentando a besta insaciável do engajamento.

A consequência final dessa dinâmica não afeta apenas a saúde mental dos autores, mas a própria estrutura do texto literário. Para prender a atenção de um público viciado em dopamina rápida, a literatura está mudando.

Editores estão pedindo capítulos mais curtos ("para ler no ônibus"). Frases de abertura precisam ser chocantes ("hooks"). Parágrafos descritivos longos são cortados porque "o leitor moderno se entedia". E, principalmente, o texto precisa ser "citável".

"Hoje, eu escrevo pensando no quote que vai para o Card do Instagram", admite Lucas. "Eu preciso colocar frases de efeito a cada três páginas, algo que as pessoas possam grifar e repostar. Se a frase for muito complexa ou depender muito do contexto, ela não serve para a rede social. Então eu simplifico. Eu mastigo a reflexão."

Estamos vendo o surgimento da "Literatura Clickbait": livros projetados engenhosamente para viralizar, com tropos (clichês narrativos) populares como "enemies to lovers" (inimigos que se amam) ou "só tem uma cama", inseridos quase como hashtags dentro da narrativa. A história serve aos tropes, e não o contrário.

Na segunda parte desta reportagem, investigaremos o lado financeiro dessa equação (vale a pena se humilhar por royalties?), a ascensão dos "escritores fantasmas" para influenciadores que não têm tempo de escrever, e a resistência silenciosa de autores que decidiram sumir das redes — e se isso é suicídio profissional ou a única salvação possível.

Se na primeira parte desta investigação expusemos o custo psicológico e criativo de transformar escritores em "criadores de conteúdo", agora precisamos encarar o aspecto mais pragmático e cruel dessa equação: o financeiro. A promessa implícita do mercado é que, se o autor se humilhar o suficiente no TikTok, se fizer as dancinhas e expuser sua vida privada nos stories, a recompensa virá em vendas de livros e independência financeira.

A realidade, porém, é uma conta que não fecha. E para muitos talentos literários do Brasil, a descoberta de que o "influenciador" paga as contas do "escritor" é o golpe final na autoestima artística.

A Matemática da Miséria: Royalties vs. "Publis"

Vamos aos números. Um autor iniciante ou de médio porte no Brasil recebe, em média, 10% do preço de capa do livro físico. Se o livro custa R$ 50,00, ele ganha R$ 5,00 por exemplar. Para ganhar um salário mínimo (atualmente em torno de R$ 1.640,00 em nossa projeção de 2025), ele precisaria vender 328 livros todos os meses. No mercado nacional, vender 3 mil livros no total é considerado um sucesso. Vender 300 por mês de forma consistente é uma proeza rara.

Por outro lado, uma conta literária no Instagram com 50 mil seguidores engajados pode cobrar entre R$ 1.500,00 e R$ 3.000,00 por um único post patrocinado (a famosa "publi") de uma marca de café, de um clube de assinatura ou de uma papelaria.

"Aconteceu algo bizarro comigo ano passado", conta Roberto*, cronista e poeta. "Passei dois anos escrevendo um romance. Ganhei, no total de royalties do primeiro ano, cerca de quatro mil reais. No mesmo ano, fechei uma parceria com uma marca de cadernos para fazer três reels no meu perfil de autor. Ganhei cinco mil reais. Ou seja: ganhei mais fingindo que escrevia num caderno bonito do que efetivamente escrevendo a obra da minha vida."

Essa distorção econômica cria um incentivo perverso. O escritor percebe que o "produto" livro é apenas um acessório de legitimidade para sua carreira real: a de influenciador. O livro vira o cartão de visitas para vender cursos, mentorias e publis. A literatura torna-se um loss leader (produto vendido com prejuízo para atrair clientes) na empresa "Eu S.A.".

Os Fantasmas de Aluguel: Quem Escreve de Verdade?

Esse cenário alimenta uma indústria subterrânea e cínica: o ghostwriting (escrita fantasma). Como o mercado exige que influenciadores lancem livros para monetizar sua audiência, mas esses influenciadores não têm tempo (ou habilidade) para escrever, eles contratam justamente os escritores "reais" que não conseguiram furar a bolha do algoritmo.

É a ironia suprema. O escritor talentoso, que se recusa a fazer dancinhas, acaba escrevendo o livro do influenciador que faz dancinhas, para que o influenciador leve o crédito e o dinheiro, pagando ao escritor uma taxa fixa.

"Eu escrevi a biografia de uma ex-BBB e um romance 'inspirador' para uma coach financeira", revela Cláudia*, uma romancista premiada em concursos literários menores, mas desconhecida do grande público. "O nome delas está na capa em letras douradas. O meu não aparece em lugar nenhum. Com o dinheiro que ganhei, comprei tempo para escrever meu próprio romance, que provavelmente ninguém vai ler porque não tenho seguidores. É um ciclo de humilhação remunerada."

O público, na maioria das vezes, não sabe. Compra o livro acreditando estar consumindo a intimidade e o pensamento daquela celebridade digital, sem saber que aquela voz foi arquitetada por um profissional invisível, pago para mimetizar autenticidade.

A Resistência: O Êxodo para o E-mail

Diante desse cenário distópico, começa a surgir um movimento de resistência. Autores cansados da roda de hamster das redes sociais estão migrando para terrenos mais calmos e controlados: as Newsletters.

Plataformas como Substack e Ghost viraram o novo refúgio da intelectualidade. Ali, não há algoritmo decidindo quem vê o quê. Se você tem mil assinantes, seu texto chega na caixa de entrada de mil pessoas. Não é preciso postar foto, não é preciso usar áudio viral, não é preciso ser bonito. É apenas texto.

"Foi a minha salvação", diz Mariana, a autora citada na primeira parte, que recentemente abandonou o Instagram. "No começo, senti um pânico de desaparecer. Mas percebi que os 50 mil seguidores do Instagram não compravam meus livros. Eram 'voyeurs'. Agora tenho 3 mil assinantes na newsletter. Quando lanço um livro, vendo 500 cópias em um dia. A conversão é real porque a relação é real, baseada na palavra, não na imagem."

Esse movimento sinaliza um retorno ao "Slow Content". Leitores, também exaustos da velocidade frenética do feed, estão dispostos a ler textos longos, reflexivos e pessoais que chegam no domingo de manhã por e-mail. É o resgate da correspondência, da intimidade entre autor e leitor sem a interferência do Mark Zuckerberg.

O Direito à Opacidade

No encerramento desta investigação, fica claro que a literatura brasileira está numa encruzilhada. Podemos continuar exigindo que nossos escritores sejam palhaços de circo digital, performando uma caricatura de criatividade para saciar algoritmos, ou podemos devolver a eles o direito fundamental de qualquer artista: o direito à opacidade.

Grandes obras nascem do mistério. Elena Ferrante, a autora italiana que ninguém sabe quem é, prova que é possível ser um fenômeno mundial sem nunca ter postado uma selfie. Cormac McCarthy e J.D. Salinger provaram que o silêncio gera mais fascínio do que a superexposição.

Precisamos parar de cobrar que escritores sejam "acessíveis" e "relatáveis" o tempo todo. Se quisermos livros que realmente toquem a alma, que decifrem a complexidade do mundo e que durem mais do que um story de 24 horas, precisamos permitir que os escritores voltem para suas cavernas, para o tédio, para o silêncio e para o trabalho feio, difícil e solitário de escrever.

Porque, no final das contas, quando fechamos um grande livro, não queremos saber qual café o autor bebeu ou qual filtro ele usou. Queremos saber o que ele descobriu sobre a vida que nós ainda não sabíamos. E isso não cabe em 15 segundos.

SOBRE O SITE

O Post Literal é um portal de cultura e entretenimento focado na interseção entre literatura, cinema e cultura pop. Fundado e editado pelo escritor Vítor Zindacta, o site se propõe a investigar as artes não apenas como lazer, mas como reflexos do tempo atual. A plataforma oferece críticas, resenhas, análises aprofundadas e entrevistas, cobrindo desde clássicos literários e lançamentos do mercado editorial nacional até fenômenos do universo geek e cinematográfico.

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