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A Explosão do "Dark Romance" na Era do Cancelamento

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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Se a reportagem anterior nos mostrou um mercado editorial obcecado em limpar as "manchas" morais do passado, a lista dos livros mais vendidos da Amazon e as tendências do TikTok nos mostram uma realidade paralela desconcertante. Enquanto editores discutem se a palavra "gordo" deve ser removida de livros infantis de 1960, milhões de leitoras (o público é majoritariamente feminino) estão devorando histórias contemporâneas onde o sequestro é uma linguagem do amor, o consentimento é uma "zona cinzenta" e os protagonistas são, por definição, vilões irremediáveis.

Bem-vindos à era do Dark Romance.

Este é o paradoxo cultural mais fascinante de 2024: vivemos o auge do policiamento da linguagem e, simultaneamente, o auge do consumo de ficção transgressora. Como explicar que, na mesma sociedade que "cancela" autores por tweets antigos, um livro sobre um stalker apaixonado que invade a casa da protagonista (como o viral Haunting Adeline, de H.D. Carlton) se torne um best-seller global?

A resposta exige que olhemos para além do choque moralista e encaremos o que a psicanálise e o mercado já descobriram: a repressão pública gera uma compulsão privada.

Para quem está fora da bolha do "BookTok" (a comunidade literária do TikTok), o Dark Romance pode parecer apenas uma variação mais picante dos romances eróticos que explodiram com Cinquenta Tons de Cinza há uma década. Mas a distinção é crucial.

"No romance erótico tradicional, a fantasia é sobre prazer e libertação. No Dark Romance, a fantasia flerta com o medo, o controle e a sobrevivência", explica Lorena Bastos, editora que recentemente inaugurou um selo dedicado ao gênero no Brasil. "Aqui, o 'felizes para sempre' acontece, mas o caminho até ele é pavimentado por vidros quebrados. Temos temas de máfia, sequestro, bullying pesado, stalking e o que chamamos de 'dub-con' (consentimento duvidoso)."

O que define o gênero não é apenas o sexo explícito, mas a "Moralidade Cinza" (Morally Grey). O mocinho não é um herói incompreendido que no fundo é bom; ele muitas vezes é um assassino, um chefe do crime ou um sociopata funcional. E a heroína não o "conserta". Ela desce ao inferno com ele.

O sucesso é numérico e estrondoso. Hashtags como #DarkRomance somam bilhões de visualizações. No Brasil, autoras nacionais que publicam de forma independente no Kindle Unlimited (KU) dominam o ranking geral da Amazon com capas escuras e títulos sugestivos, muitas vezes superando best-sellers globais de autoajuda e finanças. É um mercado subterrâneo que se tornou mainstream, operando à margem da crítica literária tradicional, que muitas vezes torce o nariz ou ignora o fenômeno.

A Reação à Higienização

RDNE Stock project / pexels

Existe uma correlação direta entre a assepsia da cultura pop e a ascensão desse gênero. Quanto mais a literatura "oficial" (a que é premiada, a que vai para as escolas, a que é discutida nos cadernos de cultura) se torna segura, pedagógica e higienizada, mais o leitor busca, no submundo da autopublicação, a experiência da transgressão.

"Estamos vivendo um efeito rebote", analisa o sociólogo e pesquisador de cultura digital, Dr. Felipe Arantes. "A ficção higienizada, que remove conflitos desconfortáveis e adjetivos ofensivos, acaba se tornando estéril. Ela não oferece catarse. O ser humano tem impulsos agressivos, sombrios e contraditórios. Se a literatura mainstream diz 'isso é feio, não olhe', a literatura de nicho diz 'venha cá, vamos olhar para isso bem de perto'."

O Dark Romance funciona, portanto, como uma válvula de escape para uma geração exausta de ser "moralmente correta" o tempo todo. Em um mundo onde cada passo nas redes sociais é vigiado e julgado, ler sobre uma relação tóxica e perigosa na segurança do seu quarto, sabendo que é ficção, torna-se o último refúgio de liberdade absoluta. No livro, ninguém pode te cancelar pelo que você sente.

"Eu Posso Consertá-lo": A Fantasia Controlada

cottonbro studio / pexels

A crítica mais comum ao gênero vem de vertentes feministas que argumentam que essas histórias romantizam o abuso e ensinam mulheres jovens a aceitar comportamentos predatórios. É uma preocupação válida, mas que muitas vezes subestima a inteligência da leitora e a natureza da fantasia feminina.

Em entrevistas com leitoras ávidas do gênero em um evento literário na Bienal de São Paulo, a distinção entre realidade e ficção apareceu de forma nítida.

"Eu sei que na vida real, se um cara me seguisse na rua, eu chamaria a polícia e teria um ataque de pânico", diz Beatriz, 24 anos, designer. "Mas no livro, eu controlo o medo. Eu sei que ele é obcecado por ela e que, no final, ele queimaria o mundo por ela. Na vida real, os homens são medíocres, decepcionam, traem por banalidades. No Dark Romance, o vilão é intenso. A toxicidade dele é, paradoxalmente, uma prova de devoção absoluta."

Essa é a chave da psicologia do "Moralmente Cinza": a intensidade. Em uma era de relacionamentos líquidos, ghosting e desinteresse programado dos aplicativos de namoro, a figura do "vilão obcecado" oferece uma fantasia de permanência e desejo incontrolável.

Além disso, há o aspecto da "Hibristofilia Ficciona" — a atração por quem comete crimes ou quebra regras. O Dark Romance permite que mulheres explorem a atração pelo perigo em um ambiente controlado (o livro), onde o risco de dano físico real é zero. É como uma montanha-russa: simulamos a queda para sentir a adrenalina, mas sabemos que o cinto de segurança está lá.

O Mercado Tradicional Tenta (Desajeitadamente) Entrar na Festa

Durante anos, grandes editoras brasileiras ignoraram esse nicho, deixando-o reinar absoluto no Kindle Direct Publishing (KDP). Autoras independentes construíram impérios digitais sem precisar de uma única livraria física. No entanto, o dinheiro falou mais alto.

Ao verem os números astronômicos, editoras tradicionais começaram uma corrida para contratar essas autoras ou traduzir os grandes hits internacionais do gênero. Mas o encontro entre o establishment editorial e o Dark Romance tem sido tenso.

O problema reside nos "Gatilhos" (Trigger Warnings). Enquanto na autopublicação a liberdade é total — a autora coloca uma lista de avisos no início e o leitor prossegue por sua conta e risco —, as grandes editoras temem a reação pública. Como publicar um livro que contém cenas de violência explícita entre o casal e, ao mesmo tempo, manter a imagem de uma empresa socialmente responsável e alinhada com pautas progressistas?

"É uma linha tênue", admite um editor comercial que pediu anonimato. "Queremos o público do Dark Romance, porque é um público que compra muito, que faz o livro viralizar. Mas morremos de medo de sermos acusados de promover misoginia. Então tentamos embalar o livro com uma estética 'pop', colocamos avisos gigantescos, mas no fundo, estamos lucrando com a mesma 'sujeira' que criticamos em outros contextos."

Essa hipocrisia mercadológica será o foco da nossa segunda parte, onde analisaremos como as capas "fofas" de desenho animado estão sendo usadas para esconder conteúdos pesados, a guerra interna entre leitores sobre os limites da ficção e o que o futuro reserva para um gênero que cresce nas sombras da moralidade pública.

Se você entrou em uma livraria recentemente e viu uma mesa repleta de livros com capas coloridas, ilustrações vetoriais fofas de casais se olhando e títulos em fontes arredondadas, provavelmente assumiu que se tratavam de comédias românticas leves, no estilo "Sessão da Tarde". Um engano perigoso.

Em uma estratégia de marketing que beira o "Cavalo de Troia", o mercado editorial descobriu que a melhor forma de vender o "proibido" para o grande público é embalá-lo como se fosse inofensivo.

A Estética do Engano: Capas Fofas, Conteúdo Pesado

Kader D. Kahraman  // Pexels

Essa tendência, apelidada nos Estados Unidos de Cartoon Covers, criou uma dissonância cognitiva nas prateleiras. O leitor desavisado compra um livro atraído pela estética vibrante e "instagramável", esperando um romance doce, e se depara com cenas de violência explícita, manipulação psicológica e BDSM não consensual logo no terceiro capítulo.

"É uma camuflagem necessária e, ao mesmo tempo, um problema de defesa do consumidor", argumenta a crítica literária digital Sofia Martins. "As plataformas de anúncio, como Meta e TikTok, bloqueiam imagens muito sensuais ou sombrias. Para o livro rodar no algoritmo, ele precisa parecer 'seguro'. A capa fofa é o passaporte para o mainstream. O problema é quando essa embalagem engana quem não tem estômago para o conteúdo."

Essa tática gerou uma crise de confiança. Leitores começaram a relatar nas redes sociais experiências traumáticas ao serem pegos de surpresa por gatilhos pesados em livros que pareciam inofensivos. A resposta da comunidade, no entanto, não foi pedir a censura dos livros, mas sim a burocratização do aviso.

A Guerra das "Listas de Gatilhos"

Diferente dos clássicos higienizados, onde a palavra ofensiva é apagada, no Dark Romance a palavra permanece, mas ela vem precedida por uma bula de remédio. A "Nota da Autora" ou a lista de Trigger Warnings (Avisos de Gatilho) tornou-se a parte mais polêmica desses livros.

Para uns, a lista é uma ferramenta essencial de saúde mental e consentimento informado. Para outros, é um spoiler que arruína a experiência literária e infantiliza o leitor.

"Chegamos ao ponto de ver listas que avisam: 'contém cenas de vômito', 'contém traição', 'contém morte de peixinho dourado'", ironiza um editor sênior. "Estamos transformando a leitura, que deveria ser uma aventura de descoberta, em um contrato de seguro onde nada pode surpreender o leitor negativamente."

No entanto, para o público devoto do gênero, essa lista funciona paradoxalmente como um cardápio. Em grupos de WhatsApp e Telegram dedicados ao Dark Romance, leitoras compartilham prints das listas de gatilhos não para evitá-los, mas para procurá-los. "Alguém tem uma recomendação com stalking e age gap (diferença de idade)?", pede uma usuária. O que para o crítico cultural é um aviso de perigo, para o consumidor do nicho é uma promessa de intensidade.

O aspecto mais profundo desse fenômeno, contudo, é o que ele diz sobre a psique feminina contemporânea. Por que mulheres empoderadas, financeiramente independentes e socialmente conscientes estão consumindo ficção onde a mulher é, frequentemente, submetida?

A psicanálise sugere que o Dark Romance atua como um espaço seguro para a exploração da passividade. Em um mundo que exige que a mulher seja "Girl Boss", líder, mãe perfeita, ativista e moralmente irrepreensível 24 horas por dia, a fantasia de perder o controle — de ser "tomada" por alguém que assume todas as decisões, mesmo que de forma tóxica — oferece um descanso mental perverso, mas real.

"É a Sombra Junguiana em ação", explica a psicóloga analítica Dra. Helena Campos. "Nós higienizamos nossa persona pública. Somos educados, inclusivos e polidos no LinkedIn e no Instagram. Mas a psique humana tem porões. Quanto mais iluminada e limpa é a sala de estar (a cultura do cancelamento e da correção política), mais escuro e povoado fica o porão. O Dark Romance é a visita guiada a esse porão."

Nesse sentido, o gênero não é um retrocesso ao machismo, mas uma reação à pressão da perfeição feminista. É o direito da mulher de ter fantasias "erradas" sem que isso defina seu valor moral na vida real. É a separação definitiva entre o que excita na página e o que se aceita na vida.

CONCLUSÃO

Clem Onojeghuo / pexels

Ao final desta investigação em duas frentes — sobre os clássicos higienizados e a ascensão do romance sombrio —, emerge um retrato complexo do leitor moderno.

De um lado, temos o medo institucional de ofender, que leva editoras a lixar as arestas de Roald Dahl e Agatha Christie, tentando criar um passado que nunca existiu. Do outro, temos o desejo voraz e subterrâneo do público por histórias que machucam, assustam e transgridem, materializado no sucesso explosivo do Dark Romance.

Esses dois movimentos não são opostos; são complementares. Eles são sintomas de uma cultura que não sabe lidar com a ambiguidade. Tentamos purificar o espaço público da literatura clássica porque queremos acreditar que somos evoluídos, mas corremos para o espaço privado do Kindle para saciar nossa sede de conflito e escuridão.

Talvez a saúde literária de uma sociedade não venha da limpeza, mas da honestidade. Precisamos dos clássicos com todos os seus preconceitos preservados para lembrarmos de onde viemos e do que somos capazes de superar. E precisamos da ficção transgressora contemporânea para lembrarmos que, por baixo de toda a nossa civilidade, ainda somos criaturas complexas, movidas por instintos que nem sempre cabem nas regras de conduta das redes sociais.

A literatura, afinal, não existe para nos tornar pessoas melhores ou mais "limpas". Ela existe para nos mostrar quem realmente somos — luz e sombra, vítimas e vilões, tudo na mesma página.


Julie Holiday é jornalista especializada em cultura e mercado editorial, baseada em São Paulo.

SOBRE O SITE

O Post Literal é um portal de cultura e entretenimento focado na interseção entre literatura, cinema e cultura pop. Fundado e editado pelo escritor Vítor Zindacta, o site se propõe a investigar as artes não apenas como lazer, mas como reflexos do tempo atual. A plataforma oferece críticas, resenhas, análises aprofundadas e entrevistas, cobrindo desde clássicos literários e lançamentos do mercado editorial nacional até fenômenos do universo geek e cinematográfico.

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