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artigos literatura

A Crise Silenciosa da Tradução Literária na Era da IA

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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São três da manhã em um apartamento na Vila Buarque. A única luz vem da tela do computador, onde Marcos, um tradutor literário com vinte anos de carreira e mais de cinquenta obras publicadas, encara uma frase de William Faulkner. O café esfriou há horas. Ele não está lutando apenas contra o cansaço ou contra a complexidade sintática do modernismo americano. Ele está lutando contra uma notificação piscando na aba ao lado: um e-mail de uma editora oferecendo um novo projeto. O prazo é desumano, o valor por lauda é metade do que ele recebia em 2015, e a proposta vem com uma cláusula nova e assustadora: "Edição de tradução gerada por IA".

Marcos não é um caso isolado. Ele é o rosto de uma crise existencial que varre o mercado editorial global. Enquanto leitores debatem nas redes sociais sobre capas bonitas e personagens polêmicos, a infraestrutura invisível que permite que essas histórias cruzem fronteiras — os tradutores humanos — está sob cerco.

A promessa do Vale do Silício é sedutora: a quebra da Torre de Babel. Ferramentas como DeepL, ChatGPT e Gemini prometem traduzir qualquer texto, de qualquer língua, em segundos, por uma fração de centavos. Mas o que se perde quando a literatura, essa forma de arte que depende da imprecisão e da subjetividade humana, é processada por um algoritmo que opera na lógica da estatística e da probabilidade?

O Tradutor: O Fantasma da Ópera Literária


Para entender o tamanho da ameaça, primeiro precisamos entender quem é o tradutor. José Saramago dizia que "os escritores fazem a literatura nacional e os tradutores fazem a literatura universal". No entanto, a figura do tradutor historicamente habita as sombras.

"O melhor elogio que um tradutor pode receber, paradoxalmente, é a invisibilidade", diz Denise Bottmann, historiadora e tradutora renomada. "Se o leitor esquece que está lendo uma tradução e mergulha na história, fizemos nosso trabalho. Mas essa invisibilidade, que antes era uma virtude artística, tornou-se nossa maldição econômica."

No Brasil, a tradução literária sempre foi um trabalho de amor mal remunerado. Pagos por lauda (uma medida de 2.100 caracteres com espaços), tradutores não recebem royalties sobre as vendas do livro, exceto em casos raríssimos de grandes estrelas da área. Um best-seller que vende 100 mil cópias rende à editora e ao autor original milhões; o tradutor que escolheu cada palavra da versão brasileira recebeu uma taxa fixa, paga meses antes do lançamento, e nada mais.

Agora, essa precariedade encontra a automação. Editoras de médio e pequeno porte, pressionadas pelos custos do papel e da distribuição, começam a ver na Inteligência Artificial uma forma de cortar a "gordura" do orçamento. A lógica é brutal: por que pagar R$ 40,00 a lauda para um humano se posso pagar R$ 5,00 para um software e mais R$ 10,00 para um revisor humano "limpar" o texto?

Nasceu assim a figura do "Pós-Editor". Em vez de receber o livro original e criar a versão em português do zero — um processo criativo, intelectual e artístico —, o tradutor recebe um texto "pré-traduzido" pela máquina. Sua função deixa de ser a de escritor e passa a ser a de corretor de erros robóticos.

"É um trabalho alienante e exaustivo", desabafa Clara*, tradutora de romances contemporâneos. "A máquina acerta o vocabulário básico, mas erra o tom, o ritmo, a ironia. O texto vem 'morto'. As frases estão gramaticalmente corretas, mas não têm pulsação. Ler trezentas páginas de texto de máquina para tentar injetar vida nelas é mais cansativo do que traduzir do zero. Você passa o dia brigando com as escolhas medíocres do algoritmo."

O perigo real, alertam os especialistas, é o "efeito de ancoragem". Quando o tradutor lê a sugestão da máquina primeiro, seu cérebro tende a aceitar aquela solução como a base, limitando sua criatividade. A tradução final pode não ter erros gramaticais, mas torna-se padronizada, cinza, sem as nuances que fariam o leitor rir ou chorar. A literatura vira bula de remédio.


Os defensores da IA argumentam que a tecnologia evolui rápido e que logo será indistinguível da humana. Mas a literatura não é feita de dados; é feita de cultura.

Um exemplo clássico citado por tradutores é a palavra saudade. Uma IA pode traduzi-la como "missing" ou "longing", dependendo do contexto estatístico. Mas um tradutor humano sabe que, em determinada cena de um romance português ambientado no século XIX, saudade carrega um peso histórico de perdas marítimas e fatalismo que talvez exija uma reconstrução completa da frase em inglês para ser transmitida, e não apenas uma substituição de palavras.

Ou tomemos o humor. A ironia depende de dizer uma coisa querendo dizer o oposto. Modelos de linguagem (LLMs) são literais ou baseados em padrões. Se um personagem diz "Great job!" depois que outro derruba um prato, a máquina traduz como "Ótimo trabalho!". O tradutor humano traduz como "Parabéns, hein!", capturando o sarcasmo.

"A máquina não entende o subtexto porque ela não tem experiência de vida", explica Caetano Galindo, tradutor de James Joyce e professor da UFPR. "Ela nunca sentiu frio, nunca teve o coração partido, nunca sentiu o cheiro de chuva. A literatura é a transmissão dessas experiências sensoriais através da linguagem. Sem a sensibilidade biológica, a tradução é apenas um exercício de dicionário sofisticado."

O Tsunami de Lixo no Domínio Público

Se nas grandes editoras a IA entra silenciosamente via "pós-edição", no mercado independente e no domínio público — tema da nossa primeira reportagem — ela entra arrombando a porta.

A Amazon e outras plataformas digitais estão sendo inundadas por obras clássicas traduzidas inteiramente por IA. Basta jogar um PDF de Moby Dick no tradutor, gerar uma capa genérica no Canva e colocar à venda por R$ 1,99.

Essas "traduções fantasmas" poluem o ecossistema. O leitor desavisado compra, encontra um texto truncado onde "Chest" (baú) vira "Peito" e "Bank" (margem de rio) vira "Banco financeiro", e assume que o livro é ruim.

"Eu vi uma edição de Orgulho e Preconceito onde o tratamento formal 'Mr.' foi traduzido aleatoriamente como 'Senhor', 'Seu' e até 'Mister' na mesma página", conta Marcos. "Isso destrói a caracterização social da Inglaterra regencial que Jane Austen construiu com tanto cuidado. É vandalismo cultural."

Esse fenômeno cria uma concorrência desleal. O tradutor humano, que leva seis meses para traduzir Austen pesquisando o vocabulário da época, não consegue competir no preço final com a versão feita em dez minutos. O resultado é a expulsão dos profissionais qualificados do mercado e a entrega do patrimônio literário à mediocridade algorítmica.

A Questão Ética: Quem é o Dono da Voz?

Além da qualidade e da economia, há uma questão ética profunda. A tradução literária é protegida por direitos autorais como uma obra derivada. O tradutor é um autor. Quando usamos uma IA treinada em milhões de textos protegidos para gerar tradução, estamos, segundo muitos sindicatos de escritores, cometendo um plágio sofisticado em escala industrial.

As IAs não "aprenderam" português do nada. Elas foram alimentadas com o trabalho de milhares de tradutores humanos — o próprio Marcos, Clara, Galindo, Denise — sem que eles recebessem um centavo por isso. Agora, essas mesmas máquinas são vendidas de volta para as editoras para substituir os profissionais que as ensinaram.

"É o canibalismo final", resume Clara. "Estamos sendo forçados a treinar a máquina que vai nos demitir. Cada vez que aceito um trabalho de pós-edição e corrijo o erro da IA, estou ensinando a ela como não errar da próxima vez. Estou cavando minha própria cova profissional."

Na segunda parte desta reportagem, mergulharemos no contra-ataque: o movimento dos leitores que exigem saber quem traduziu seus livros, a valorização das "edições artesanais" como produto de luxo e a neurociência da leitura que explica por que nosso cérebro rejeita, instintivamente, a frieza do texto sintético.

Se a primeira parte desta investigação expôs a precarização do ofício e a invasão algorítmica, a conclusão nos leva a um território talvez mais esperançoso, mas inegavelmente elitizado: a valorização do humano como artigo de luxo. Assim como o fast food não acabou com a alta gastronomia — pelo contrário, fez com que valorizássemos ainda mais o ingrediente fresco e o chef autoral —, a literatura traduzida caminha para uma bifurcação dramática.

De um lado, o "conteúdo" processado, barato e infinito. Do outro, a "arte" artesanal, cara e humana.

O Vale da Estranheza Textual

Para entender por que a tradução humana ainda resiste, precisamos recorrer não à tecnologia, mas à neurociência. Leitores vorazes frequentemente relatam uma sensação de desconforto ao ler textos gerados por IA, mesmo quando não há erros gramaticais óbvios. É o equivalente literário do "Vale da Estranheza" (Uncanny Valley) da robótica: algo que parece humano, soa quase humano, mas falta uma centelha vital.

"O cérebro humano é uma máquina de detectar padrões e intenções", explica a Dra. Lúcia Ferraz, pesquisadora de linguística cognitiva. "Quando lemos Dostoiévski traduzido por Paulo Bezerra, nosso cérebro não está apenas decodificando palavras; ele está se conectando com a escolha de Paulo. Sentimos que houve uma mente que hesitou entre duas palavras e escolheu a melhor para nos causar impacto. Na IA, sentimos o vazio. O texto é liso, médio, previsível. Ele não tem atrito, não tem o 'erro feliz' ou a ousadia estilística."

Essa previsibilidade é fatal para a literatura. A arte depende da surpresa, da quebra de expectativa. A IA, sendo uma máquina de probabilidade estatística, tende sempre a escolher a palavra mais comum, a construção frasal mais média. Ela achata a curva da criatividade. O resultado é um texto que flui, mas não marca.

A Ascensão da "Tradução de Autor"

Em resposta a essa massificação insossa, surge um movimento de resistência liderado por editoras independentes e de prestígio no Brasil. Casas como Antofágica, Todavia, Editora 34 e Ubu têm adotado uma política agressiva de valorização do tradutor.

Antes escondido na folha de rosto em letras minúsculas, o nome do tradutor agora ganha destaque na capa, muitas vezes com a mesma fonte e tamanho do nome do autor original. É um selo de qualidade.

"Quando colocamos 'Tradução de Rubens Figueiredo' ou 'Tradução de Caetano W. Galindo' na capa, estamos dizendo ao leitor: 'Este livro não foi processado; ele foi esculpido'", afirma um diretor editorial de uma dessas casas. "O leitor brasileiro amadureceu. Ele sabe que ler a Odisseia traduzida por um poeta é uma experiência diferente de ler uma versão em prosa escolar. A tradução virou um argumento de venda."

Esse movimento transforma o livro físico em um objeto de fetiche e resistência. Comprar uma edição de capa dura, com notas de rodapé, prefácio e uma tradução assinada é um ato político. É uma rejeição da efemeridade digital e um investimento na curadoria humana.

No entanto, essa "gourmetização" da tradução cria um abismo de classe. Teremos uma elite cultural lendo traduções humanas primorosas, pagando R$ 80,00 ou R$ 100,00 por livro, enquanto a massa de leitores, que não pode arcar com esses custos, será servida com "ração literária" traduzida por máquinas e vendida a preços módicos em marketplaces.

Para combater a desinformação, sindicatos de tradutores na Europa e nos EUA já começam a discutir a implementação de selos de certificação, similares aos selos de "Orgânico" ou "Livre de Transgênicos" na indústria alimentícia. A ideia é que o livro traga um selo "Tradução 100% Humana" ou "Sem uso de IA Generativa".

"O consumidor tem o direito de saber se está consumindo a voz de um artista ou o output de um servidor", argumenta Clara, a tradutora que entrevistamos na primeira parte. "Se eu pago por um livro, eu quero a garantia de que houve sofrimento, alegria e suor humano naquelas páginas. Eu quero pagar pela subjetividade de alguém."

A Última Fronteira: A Empatia

No fim das contas, a batalha da tradução é uma batalha sobre a solidão. Lemos para saber que não estamos sozinhos. Lemos para ouvir uma voz que atravessa séculos e oceanos para sussurrar no nosso ouvido: "eu também senti isso".

Uma máquina pode simular essa voz. Ela pode, com o prompt certo, imitar o estilo de Hemingway ou de Clarice Lispector. Mas ela não sente. Quando uma IA traduz uma cena de luto, ela não está acessando a memória da perda; ela está acessando um banco de dados de palavras frequentemente associadas à morte.

Há uma diferença metafísica intransponível aí. A tradução literária é, em sua essência, um ato de empatia profunda. O tradutor precisa "encarnar" o autor, sentir o que ele sentiu, e depois reencenar esse sentimento em outra língua para que o leitor sinta também. É uma cadeia de transmissão de humanidade.

Se removermos o elo humano do meio dessa corrente, a transmissão se quebra. Ficamos com a informação, mas perdemos a comunhão.

O Futuro do Texto

O futuro próximo será barulhento e confuso. Veremos escândalos de editoras usando IA escondida, processos judiciais sobre direitos autorais e uma enxurrada de livros medíocres. Mas, paradoxalmente, a presença da máquina talvez seja o que finalmente nos fará enxergar o tradutor.

Ao nos depararmos com a frieza do texto sintético, aprenderemos a valorizar, como nunca antes, o calor, a imperfeição e a genialidade da mão humana. A tradução literária não vai morrer, mas deixará de ser uma commodity para se tornar o que sempre deveria ter sido: uma arte maior, celebrada e reconhecida.

Até lá, cada vez que você abrir um livro e sentir que as palavras dançam, que a frase tem um ritmo que faz seu coração acelerar, pare por um segundo. Vá até a folha de rosto. Procure o nome logo abaixo do autor. E agradeça. Ali, naquela linha discreta, existe um ser humano que dedicou meses de vida para garantir que você não estivesse sozinho.


Julie Holiday é jornalista especializada em cultura e mercado editorial, baseada em São Paulo.

SOBRE O SITE

O Post Literal é um portal de cultura e entretenimento focado na interseção entre literatura, cinema e cultura pop. Fundado e editado pelo escritor Vítor Zindacta, o site se propõe a investigar as artes não apenas como lazer, mas como reflexos do tempo atual. A plataforma oferece críticas, resenhas, análises aprofundadas e entrevistas, cobrindo desde clássicos literários e lançamentos do mercado editorial nacional até fenômenos do universo geek e cinematográfico.

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