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Caminhar pelos corredores de uma grande livraria na Avenida Paulista, em 2024, é uma experiência visualmente distinta daquela de uma década atrás. Onde antes se viam lombadas sóbrias e padronizadas, hoje há uma explosão de cores, texturas e designs arrojados. Clássicos como 1984, de George Orwell, ou O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, não ocupam mais um único espaço na prateleira; eles dominam seções inteiras, apresentados em dez, quinze edições diferentes. De capas duras com fitilhos de seda a versões de bolso vendidas a preços populares em bancas de jornal, a literatura clássica vive um renascimento comercial sem precedentes.
No entanto, por trás das capas instagramáveis e do novo fervor editorial, desenrola-se uma guerra cultural e ética silenciosa. De um lado, o "eldorado" do domínio público, que democratizou o acesso a obras-primas; do outro, a crescente tendência de reescrever o passado para adequá-lo à sensibilidade moral do presente. Entre o lucro e a ética, entre a preservação histórica e a inclusão contemporânea, o livro — esse artefato antigo de transferência de consciência — tornou-se o campo de batalha mais improvável do século XXI.
A Corrida do Ouro Editorial
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Para entender o cenário atual, é preciso compreender a mecânica legal que o impulsiona. No Brasil, assim como na maioria dos países signatários da Convenção de Berna, uma obra entra em domínio público no dia 1º de janeiro do ano subsequente aos 70 anos da morte do autor. Nesse momento, os direitos patrimoniais expiram. Não é mais necessário pagar royalties aos herdeiros ou pedir autorização para publicar, traduzir ou adaptar o texto.
"É o momento em que a obra deixa de pertencer à família e passa a pertencer à humanidade", explica Ricardo Salles, editor sênior especializado em clássicos. "Mas, comercialmente, é como se soasse um tiro de largada. Editoras que nunca publicaram ficção científica correm para lançar H.G. Wells; selos de autoajuda lançam edições de O Pequeno Príncipe."
O fenômeno ficou evidente em 2021, quando a obra de George Orwell entrou em domínio público. Em questão de meses, o mercado brasileiro foi inundado por novas traduções de A Revolução dos Bichos e 1984. O resultado foi uma saturação que beneficiou o consumidor pelo preço, mas criou um labirinto de qualidade. Enquanto editoras de prestígio, como a Companhia das Letras (através do selo Penguin) e a Antofágica, investiram em novas traduções diretas do original e textos de apoio robustos, dezenas de editoras menores lançaram versões baseadas em traduções antigas, muitas vezes de domínio público em si (traduções portuguesas da década de 40), ou traduções apressadas feitas por softwares, sem o devido rigor editorial.
Essa "comoditização" do clássico transformou o livro em objeto de fetiche. A competição deixou de ser apenas pelo texto — que agora é livre — e passou a ser pelo objeto. "O leitor de clássicos hoje busca a experiência", afirma Mariana Cortez, designer gráfica do setor editorial. "Ele quer a capa dura, o corte colorido, a ilustração exclusiva. O texto de Machado de Assis é o mesmo em todas as edições, então por que pagar R$ 80,00 em uma e R$ 15,00 na outra? A resposta é a curadoria e o design."
As Várias Faces de um Mesmo Texto
A multiplicidade de edições levanta uma questão fundamental sobre a integridade da obra. Um clássico não é um monólito; ele é um organismo vivo que respira através da tradução e da edição. Uma versão de Crime e Castigo traduzida do francês (prática comum no Brasil até os anos 80) é substancialmente diferente de uma tradução direta do russo feita por nomes como Paulo Bezerra ou Rubens Figueiredo.
O perigo, contudo, reside nas edições "facilitadas". Em uma tentativa de capturar o público jovem ou leitores desacostumados à linguagem arcaica, algumas editoras começaram a apostar em "adaptações" que não se anunciam como tal. Parágrafos descritivos de Victor Hugo são condensados; o vocabulário rococó de José de Alencar é modernizado. Embora existam coleções explicitamente adaptadas para o uso escolar, a linha tênue se dissolve quando edições integrais supostamente "atualizadas" chegam às prateleiras sem avisos claros.
"Estamos criando uma geração que diz ter lido Dom Quixote, mas que na verdade leu um resumo glorificado", alerta a professora de Teoria Literária da USP, Cláudia Mattos. "A dificuldade do texto clássico não é um defeito, é uma característica. A sintaxe de um autor do século XIX carrega em si a forma de pensar daquela época. Quando você moderniza a sintaxe, você não está apenas facilitando a leitura; está alterando a arquitetura do pensamento do autor."
A Era da "Higienização" Literária
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Se a adaptação estilística já causava debates acadêmicos, a recente onda de revisões de conteúdo por motivos morais — fenômeno conhecido pejorativamente como "higienização" ou, em inglês, bowdlerization — trouxe a discussão para as manchetes dos jornais e para as redes sociais.
O termo bowdlerization vem de Thomas Bowdler, que em 1818 publicou uma versão da obra de Shakespeare destinada à família, removendo tudo o que considerava indecente ou impuro. Duzentos anos depois, a prática retornou com uma nova roupagem: a sensibilidade e a inclusão.
O caso mais emblemático ocorreu em 2023, quando a Puffin Books, detentora dos direitos de Roald Dahl (autor de A Fantástica Fábrica de Chocolate e Matilda), anunciou centenas de alterações nos textos originais. O personagem Augustus Gloop deixou de ser "enormemente gordo" para ser apenas "enorme". Os Oompa-Loompas, descritos originalmente como "homens pequenos", tornaram-se "pessoas pequenas". Palavras como "feia", "louco" e "negro" (mesmo quando usado como descritor de cor de um objeto, em alguns casos) foram sistematicamente removidas ou substituídas.
A justificativa da editora e da Roald Dahl Story Company foi a de garantir que "as maravilhosas histórias e personagens de Dahl continuem sendo desfrutadas por todas as crianças hoje". Para isso, contrataram "leitores sensíveis" (sensitivity readers) — profissionais especializados em identificar conteúdos que possam ser considerados ofensivos para minorias, grupos étnicos, ou que reforcem estereótipos de gênero e corpo.
O movimento não parou em Dahl. As obras de Ian Fleming, criador de James Bond, passaram por revisões para remover termos racistas referentes a personagens negros. Os romances de Agatha Christie tiveram passagens sobre a aparência de personagens não-europeus alteradas ou cortadas.
O Argumento da Inclusão
Os defensores dessas alterações argumentam que a literatura, especialmente a infantil, deve ser um lugar seguro. Para um pai moderno, ler para seu filho uma passagem que ridiculariza a obesidade ou que usa termos racistas pode ser uma experiência desconfortável e pedagógica e moralmente contraproducente.
"A sociedade evoluiu, e a linguagem que usamos para descrever o outro também", defende Lucas Andrade, pedagogo e consultor de diversidade. "Manter termos pejorativos em livros que são vendidos na seção infantil, sem qualquer contextualização, é perpetuar o preconceito sob o disfarce de tradição. Não estamos falando de queimar livros, mas de adaptá-los para que uma criança negra ou gorda não se sinta agredida ao ler uma história de aventura."
Sob essa ótica, a higienização é vista como uma ferramenta de mercado necessária para manter a relevância comercial da obra. Se os clássicos se tornarem "intocáveis" a ponto de se tornarem socialmente radioativos, eles deixarão de ser comprados e lidos. A adaptação, portanto, seria uma forma de sobrevivência. Editoras argumentam que, ao remover as "asperezas" datadas, permitem que a trama e os personagens brilhem sem as distrações do preconceito de épocas passadas.
O Espectro da Censura e o Paternalismo
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"É um ato de narcisismo temporal", argumenta a crítica literária Helena Berto. "Nós queremos olhar para o espelho do passado e ver o nosso próprio reflexo moralmente superior. Mas a literatura não serve para nos validar; ela serve para nos confrontar. Quando limpamos Agatha Christie, estamos fingindo que o colonialismo britânico foi mais gentil do que a realidade."
Além disso, críticos apontam para o perigo do precedente. Se começamos removendo adjetivos ofensivos, onde paramos? Ideias políticas "erradas"? Filosofias "perigosas"? A literatura clássica é repleta de personagens e narradores que são pessoas horríveis, falhas e produtos de seu tempo. Raskolnikov é um assassino; Humbert Humbert é um pedófilo; Iago é um manipulador sociopata. A "assepsia" literária corre o risco de transformar a biblioteca mundial em uma coleção de parábolas morais inofensivas, destituídas da complexidade humana que as tornou clássicas em primeiro lugar.
Há também uma crítica sobre a subestimação do leitor, especialmente da criança. A higienização pressupõe que o leitor é incapaz de entender o contexto ou de processar a diferença entre a visão do autor e a realidade atual. "As crianças são muito mais espertas do que os 'leitores sensíveis' imaginam", diz Berto. "Elas conseguem entender que 'naquela época as pessoas falavam assim e hoje sabemos que isso é feio'. Essa conversa é educativa. Apagar a palavra é apenas esconder a sujeira debaixo do tapete."
Este embate, entretanto, é apenas a ponta do iceberg. À medida que avançamos para a segunda metade desta análise, examinaremos as consequências a longo prazo da deturpação dos clássicos, o papel crucial das notas de rodapé e da educação, e por que, em um mundo cada vez mais volátil, a leitura dos textos originais — com todas as suas feridas e imperfeições — é mais vital do que nunca.
O que acontece com uma sociedade que decide polir as arestas de sua própria história cultural? E, em um mercado inundado por versões conflitantes de uma mesma obra, qual é o impacto real da deturpação dos clássicos na formação do leitor contemporâneo?
A discussão sobre remover termos ofensivos de Roald Dahl ou Agatha Christie é apenas a ponta visível de um iceberg muito maior: a crise da integridade textual na era da reprodução digital desenfreada.
O Perigo da Deturpação Silenciosa
Enquanto os debates no Twitter se inflamam sobre a censura moral, um perigo mais insidioso e menos noticiado corrói o legado literário: a deturpação por negligência e a ascensão das "traduções fantasmas".
Com a facilidade de publicação via Amazon KDP (Kindle Direct Publishing) e outras plataformas de autopublicação, o domínio público tornou-se um terreno fértil para oportunistas. Uma busca rápida por "A Metamorfose" de Kafka ou "Orgulho e Preconceito" de Jane Austen em grandes varejistas online revela dezenas de edições sem editora clara, vendidas por preços irrisórios.
Muitas dessas edições são, na verdade, textos traduzidos automaticamente por inteligência artificial a partir de versões em inglês, sem qualquer revisão humana, ou cópias de traduções antigas com a linguagem "modernizada" por algoritmos para escapar de detecção de plágio. O resultado são clássicos "quebrados". Frases que perdem o duplo sentido, ironias que se transformam em afirmações literais e a prosa estilística de autores como Virginia Woolf sendo reduzida a um texto burocrático e sem alma.
"Comprei uma edição digital de O Morro dos Ventos Uivantes por três reais e, no meio da leitura, percebi que os nomes dos personagens mudavam de grafia e frases inteiras não faziam sentido", relata a estudante de Letras Amanda Soares. "Era como ler um documento técnico mal traduzido, não uma obra-prima do romantismo gótico."
Essa deturpação não é apenas um problema de defesa do consumidor; é um problema cultural. Quando um leitor de primeira viagem pega uma dessas versões "bastardas" e acha o texto ruim, confuso ou simplório, ele não culpa a tradução ou a edição; ele culpa o autor. "Machado de Assis é chato", "Dostoiévski escreve mal". O dano à reputação do cânone é muitas vezes irreversível na mente desse leitor, que abandona o clássico para nunca mais voltar.
O Contexto como Antídoto à Censura
Diante do dilema entre a obra ofensiva original e a versão higienizada, acadêmicos e editores responsáveis apontam para uma terceira via: a contextualização. É a abordagem que museus adotam diante de artefatos controversos e que estúdios de cinema como a Warner Bros. usaram em seus desenhos antigos.
A famosa ressalva apresentada antes de animações clássicas resume bem essa filosofia: "Os desenhos que você está prestes a ver são produtos de seu tempo. Eles podem retratar preconceitos étnicos e raciais que eram comuns na sociedade americana. Esses retratos estavam errados na época e estão errados hoje. Se não os mostrássemos, estaríamos afirmando que esses preconceitos nunca existiram."
No mundo dos livros, isso se traduz em edições críticas robustas. Editoras como a Antofágica e a Ubu têm apostado alto nesse modelo. Seus clássicos vêm cercados de "muros de proteção" intelectual: prefácios, posfácios, notas de rodapé abundantes e ensaios de especialistas que explicam, sem desculpar, o racismo de Monteiro Lobato ou o antisemitismo presente em obras de autores europeus do século XIX.
"Não podemos proteger o leitor da história", afirma o historiador e editor Carlos Mendes. "Se Lovecraft era racista — e ele era profundamente racista —, apagar isso dos contos dele é impedir que o leitor entenda a base do medo do 'outro' que permeia toda a sua obra de horror cósmico. O horror dele vinha, em parte, da sua xenofobia. Ler Lovecraft higienizado é não entender Lovecraft. O papel da edição é dizer: 'Olha, isso aqui é fruto de uma mente doente de 1920. Leia com essa lente crítica'."
Essa abordagem trata o leitor como um ser adulto (ou uma criança em formação guiada) capaz de complexidade, e não como um consumidor frágil que precisa ser blindado de qualquer desconforto. Ela transforma o livro de um mero entretenimento em um documento histórico.
A Importância Vital dos Clássicos na Contemporaneidade
Mas por que insistir? Em um mundo de TikTok, inteligência artificial generativa e crises climáticas, por que ainda importa ler A Ilíada, Dom Casmurro ou Moby Dick? Por que lutar pela preservação desses textos antigos?
A resposta talvez esteja na própria natureza volátil do nosso tempo. Vivemos na era da "pós-verdade", das bolhas algorítmicas e da obsolescência programada das ideias. O conteúdo digital é feito para ser consumido e esquecido em 24 horas. O clássico é, por definição, aquilo que resiste.
Ítalo Calvino, em sua famosa definição, dizia que "um clássico é um livro que nunca terminou de dizer o que tinha para dizer". Na contemporaneidade, os clássicos funcionam como âncoras de realidade e humanidade.
1. O Espelho da Natureza Humana: A tecnologia muda, mas as paixões humanas permanecem estáticas. O ciúme destrutivo de Otelo é o mesmo ciúme visto nos crimes passionais de hoje. A ambição desmedida de Macbeth é a mesma dos CEOs de corporações modernas. Ler os clássicos é perceber que não somos os primeiros a sentir ansiedade, medo do futuro ou desilusão amorosa. Há um conforto profundo em saber que a angústia existencial de Hamlet é compartilhada por nós, quatro séculos depois. Eles nos tiram da solidão cronológica.
2. O Treino da Atenção e da Empatia: A leitura de um clássico exige um tipo de "musculatura" mental que estamos perdendo. Ela pede paciência. Pede que desaceleremos para entrar no ritmo de uma mente do século XVIII. Esse exercício de slow reading é um ato de resistência cognitiva contra a economia da atenção fragmentada. Além disso, a literatura é a tecnologia mais avançada já criada para a empatia. Ao habitar a mente de um personagem russo, nigeriano ou brasileiro de séculos passados, somos forçados a ver o mundo por olhos que não são os nossos, quebrando a bolha do narcisismo contemporâneo.
3. Ferramentas para Decifrar o Presente: É impossível entender a ascensão de regimes autoritários modernos sem ter passado pelas páginas de 1984 ou Admirável Mundo Novo. É difícil compreender as raízes do racismo estrutural no Brasil sem ler Casa-Grande & Senzala (com todas as críticas que a obra merece) ou a literatura abolicionista. Os clássicos nos dão o vocabulário e os arquétipos para nomear o que acontece ao nosso redor. Sem eles, somos politicamente e socialmente míopes.
O Futuro do Passado
Ao caminharmos para o final desta década, o mercado editorial enfrenta uma bifurcação. De um lado, a comoditização extrema: livros clássicos transformados em objetos decorativos, textos higienizados para não ofender sensibilidades e traduções feitas por máquinas para maximizar lucros. É o clássico como "produto".
Do outro, vemos um movimento de resistência: leitores buscando edições artesanais, clubes de leitura que se dedicam a discutir obras difíceis na íntegra, e editoras que investem na arqueologia literária para trazer o texto mais fiel possível. É o clássico como "legado".
A "higienização" pode parecer uma solução fácil para os desconfortos do presente, uma forma de tornar o passado mais palatável para a venda. Mas uma cultura que não consegue encarar seus monstros passados nos olhos está condenada a não reconhecê-los quando eles reaparecerem no futuro com novas roupagens.
Os livros em domínio público são um presente da história para nós. Eles são gratuitos, livres e pertencem a todos. Mas com essa liberdade vem a responsabilidade de mantê-los vivos, não como estátuas de mármore polidas e perfeitas, mas como árvores antigas, com raízes retorcidas, cascas grossas e cicatrizes visíveis — provas irrefutáveis de que sobreviveram às tempestades do tempo e que, se cuidarmos bem, continuarão de pé muito depois de nós.
Ler o original, com toda a sua sujeira e glória, é o ato final de liberdade intelectual.



