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asia Cultura

O Significado das Cores: Como o simbolismo das cores na cultura chinesa influencia o cinema e a moda

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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A percepção das cores na China não é meramente uma escolha estética, mas uma extensão profunda da filosofia cósmica e da ordem social que rege o país há milênios. No cerne desse sistema está a Teoria dos Cinco Elementos (Wu Xing), que associa cores específicas a elementos da natureza, direções cardeais, estações do ano e até órgãos do corpo humano. Diferente do Ocidente, onde a cor pode ter significados subjetivos ou puramente emocionais, na cultura chinesa a cor é uma linguagem codificada. O vermelho, o amarelo, o preto, o branco e o azul-esverdeado formam a base desse alfabeto visual. Entender essa simbologia é essencial para decifrar a mensagem oculta em grandes produções cinematográficas e nas coleções de moda que buscam resgatar a identidade chinesa, pois cada tonalidade carrega consigo o peso de uma dinastia, uma crença espiritual ou uma promessa de destino.

O vermelho, conhecido como "Hong", é sem dúvida a cor mais emblemática e poderosa da China, simbolizando o fogo, a sorte, a vitalidade e a celebração. Historicamente, o vermelho era a cor da vida e da proteção, utilizada em talismãs para afastar espíritos malignos. Hoje, sua onipresença em festivais como o Ano Novo Lunar e em casamentos não é apenas tradicionalismo, mas a reafirmação de um desejo coletivo de prosperidade e felicidade. No cinema, diretores como Zhang Yimou utilizam o vermelho de forma visceral para representar paixão reprimida ou a força da tradição, como visto na obra-prima Lanternas Vermelhas. Na moda, o vermelho é a cor definitiva do luxo e do empoderamento chinês, frequentemente revisitada por designers contemporâneos que buscam fundir a estética revolucionária moderna com o simbolismo imperial antigo, criando peças que comunicam autoridade e festividade simultaneamente.

Em contraste com o poder popular do vermelho, o amarelo ocupa o topo da hierarquia cromática como a cor da terra e do centro do universo. Durante séculos, o amarelo foi uma cor exclusiva da família imperial; o uso de vestimentas amarelas por cidadãos comuns era um crime punível com a morte em certas dinastias. Ela representa a sabedoria, a iluminação e a soberania do Imperador, muitas vezes chamado de "Filho do Céu". No cinema histórico, a presença do amarelo ou do dourado sinaliza o ápice do poder e da opulência, mas também pode sugerir a solidão e o isolamento que acompanham a autoridade suprema. Na moda chinesa atual, o amarelo é frequentemente utilizado para evocar um sentimento de nobreza e herança cultural, sendo uma cor de destaque em peças que visam celebrar o orgulho nacional e a continuidade de uma civilização que se vê como o centro radiante do mundo.

O simbolismo das cores também lida com as transições da vida e os conceitos de pureza e luto, onde o branco e o preto assumem papéis fundamentais. O branco, associado ao elemento metal e ao outono, é paradoxalmente a cor do luto na China tradicional. Enquanto no Ocidente o branco remete à virgindade e ao casamento, na China ele é usado em funerais para simbolizar a ausência e a purificação da alma. O preto, por sua vez, representa a água e o norte, sendo visto historicamente como uma cor de dignidade, conhecimento e poder misterioso. As primeiras dinastias chinesas, como a Qin, favoreciam o preto como a cor imperial antes da ascensão do amarelo. Essa dualidade cromática é amplamente explorada no cinema de artes marciais (Wuxia), onde o contraste entre o preto e o branco não apenas define heróis e vilões, mas também ilustra o equilíbrio dinâmico entre o Yin e o Yang, a luz e a sombra que coexistem em todos os seres.

A cor "Qing", que engloba tanto o azul quanto o verde, representa o elemento madeira, a primavera e o nascimento da vida. É a cor da natureza, da harmonia e da longevidade. No design e na arquitetura tradicional, o azul-esverdeado é utilizado para trazer calma e equilíbrio aos espaços, uma filosofia que se traduz na moda contemporânea através de uma tendência crescente de "estilo chinês moderno" (New Chinese Style), que prioriza tecidos naturais e tons orgânicos. No cinema, essa paleta é frequentemente usada para evocar nostalgia, melancolia ou a conexão mística com as paisagens ancestrais. Ao dominar o significado das cores, o espectador ou o consumidor de moda deixa de ver apenas uma superfície colorida e passa a testemunhar uma narrativa milenar de poder, natureza e espiritualidade que continua a vibrar no coração da Ásia moderna.

O cinema chinês contemporâneo, especialmente o movimento da Quinta Geração de cineastas, elevou a psicologia das cores a um patamar de narrativa visual onde o roteiro muitas vezes se torna secundário diante da força cromática das imagens. Diretores como Zhang Yimou e Chen Kaige transformaram a tela em uma tela de pintura viva, utilizando a saturação e o contraste para comunicar estados emocionais e tensões políticas que o diálogo, por vezes limitado pela censura ou pela tradição, não poderia expressar. Nessa cinematografia, a cor não é apenas um filtro de beleza, mas uma ferramenta de estrutura narrativa. Cada tonalidade é escolhida para ressoar com o subconsciente do espectador, evocando memórias culturais e arquétipos filosóficos. Quando uma cena é banhada por um vermelho profundo, o público chinês não vê apenas uma cor primária; ele sente o calor do sangue, o perigo da violência e o fervor das revoluções passadas, criando uma experiência imersiva que transcende a barreira da linguagem verbal.

Um exemplo magistral dessa aplicação está no filme Herói (2002), onde a cor serve como o principal guia para a percepção da verdade. A trama é dividida em blocos cromáticos distintos — vermelho, azul, branco e verde — cada um representando uma versão diferente da mesma história contada por personagens distintos. No segmento vermelho, a cor simboliza o ciúme, a fúria e a paixão cega que distorce os fatos. No segmento azul, a atmosfera muda para a melancolia, o sacrifício e a busca pela paz lógica. Já o branco é utilizado para representar a verdade pura, nua e desprovida de adornos emocionais. Essa técnica permite que o diretor manipule a psicologia do espectador, preparando-o emocionalmente para a revelação de cada perspectiva antes mesmo que o primeiro ator fale uma linha de texto. A cor aqui funciona como um narrador onisciente que estabelece o tom ético e emocional de cada ato.

A utilização do verde no cinema chinês também carrega uma carga psicológica complexa, distanciando-se da ideia ocidental de simples "esperança". Nas obras de diretores como Wong Kar-wai (embora radicado em Hong Kong, profundamente influenciado pela estética continental), o verde é frequentemente saturado e sombrio, evocando uma sensação de estagnação, nostalgia doentia ou amores não correspondidos. Em cenários urbanos claustrofóbicos, o verde neon ou o papel de parede desbotado sugerem uma decomposição emocional e a solidão da vida moderna. Em contraste, no cinema de época, o verde das florestas de bambu representa a agilidade, a renovação espiritual e a harmonia com o Tao. Essa dualidade mostra como a cor pode ser usada para criticar a desumanização das metrópoles ou para celebrar a resiliência do espírito humano, dependendo da saturação e do contexto histórico da obra.

Além disso, a paleta de cores no cinema é usada para marcar a passagem do tempo e a perda da inocência. É comum vermos filmes que começam com cores vibrantes e quentes, representando a infância ou tempos de prosperidade, para gradualmente transitarem para tons frios, cinzas e dessaturados à medida que os personagens enfrentam a realidade política ou a tragédia pessoal. O uso do cinza e do sépia em filmes que retratam a Revolução Cultural, por exemplo, não serve apenas para dar um ar de "antiguidade", mas para simbolizar o sufocamento da individualidade e a uniformidade imposta. A ausência de cor torna-se, assim, tão significativa quanto a sua presença, servindo como um comentário visual sobre a liberdade de expressão e a vitalidade de uma nação em diferentes períodos de sua história.

Por fim, a iluminação e a gradação de cor (color grading) no cinema chinês moderno buscam frequentemente emular a estética da pintura em seda ou da caligrafia, onde o espaço negativo é tão importante quanto o objeto preenchido. O preto profundo não é apenas escuridão, mas uma representação da vacuidade criativa e do mistério do universo. Ao utilizar essas sombras em conjunto com cores primárias potentes, o cinema chinês cria um dinamismo visual que mantém o espectador em um estado de vigilância estética. Essa psicologia das cores garante que o cinema não seja apenas uma forma de entretenimento, mas uma lição de semiótica visual, onde cada quadro convida o público a decifrar as camadas de significado que compõem a rica tapeçaria da identidade chinesa.

O vermelho, por sua vez, foi ressignificado na moda de alta costura para além dos casamentos tradicionais. Na moda contemporânea chinesa, o vermelho é utilizado em cortes arquitetônicos e tecidos tecnológicos para simbolizar uma feminilidade poderosa e independente, rompendo com a imagem de submissão do passado. A aplicação da cor "Hong" em peças de ready-to-wear busca conectar a juventude urbana com suas raízes, transformando o que antes era visto como "antigo" em um símbolo de sofisticação moderna. O contraste do vermelho com o preto profundo, uma combinação clássica das dinastias antigas, é frequentemente utilizado para evocar uma elegância austera e atemporal, provando que a paleta de cores ancestral possui uma versatilidade que se adapta perfeitamente ao minimalismo e à funcionalidade exigidos pela moda do século vinte e um.

Já o ressurgimento do Hanfu entre a Geração Z chinesa trouxe de volta o uso das cores pastéis e dos tons de azul-esverdeado (Qing) para as ruas das grandes metrópoles. Jovens utilizam túnicas e saias em tons de verde-menta, azul-celeste e lavanda, cores que historicamente representavam a erudição, a juventude e a conexão com a natureza. Esse movimento não é apenas uma tendência passageira, mas uma forma de "cosplay de identidade", onde a cor serve para sinalizar a filiação a um sistema de valores que prioriza a harmonia e a delicadeza estética. A escolha cromática no Hanfu moderno é meticulosa, buscando replicar as tinturas naturais extraídas de plantas e minerais, o que confere às roupas uma organicidade que contrasta com as cores artificiais da fast-fashion globalizada, promovendo uma moda mais consciente e conectada com o meio ambiente.

Por fim, a integração do branco e do cinza na moda conceitual chinesa explora a estética da caligrafia e da pintura "Shan Shui" (montanha e água). Designers experimentam com gradações de cinza e brancos translúcidos para criar camadas que sugerem profundidade e mistério, imitando a névoa das paisagens clássicas chinesas. Nestas coleções, a ausência de cores vibrantes convida ao silêncio e à introspecção, refletindo uma filosofia de luxo discreto onde a qualidade do material e a fluidez do movimento são as verdadeiras estrelas. Ao dominar a aplicação dessas cores, a moda chinesa consegue realizar algo raro: ser profundamente local em seus significados e, ao mesmo tempo, universalmente desejável em sua beleza, consolidando o simbolismo cromático como a alma da nova identidade visual da Ásia.

SOBRE O SITE

O Post Literal é um portal de cultura e entretenimento focado na interseção entre literatura, cinema e cultura pop. Fundado e editado pelo escritor Vítor Zindacta, o site se propõe a investigar as artes não apenas como lazer, mas como reflexos do tempo atual. A plataforma oferece críticas, resenhas, análises aprofundadas e entrevistas, cobrindo desde clássicos literários e lançamentos do mercado editorial nacional até fenômenos do universo geek e cinematográfico.

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