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Cultura moda

O Renascimento da Vanguarda: O que Esperar da Berlin Fashion Week 2026

JULIE HOLIDAY
ERIC MONJARDIM
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Neonyt Show ©MBFW Berlin
 

A Berlin Fashion Week que se inicia em 30 de janeiro de 2026 não é apenas mais um
a data no calendário internacional; é o marco zero de uma nova era. Após anos tentando competir com o gigantismo comercial de Paris ou a tradição de Milão, Berlim finalmente abraçou sua verdadeira essência: a de ser o laboratório experimental da Europa. O encerramento definitivo de grandes feiras comerciais como a Premium e a Seek no final de 2025 forçou uma reestruturação profunda. O que vemos agora é uma semana de moda focada no "storytelling" e na curadoria, deixando de lado o volume de vendas em massa para priorizar a relevância cultural.

O cenário para esta edição AW26 (Autumn/Winter 26) reflete essa mudança. Esperamos uma ocupação descentralizada da cidade. Berlim nunca foi uma capital de um único local de desfiles; seu charme reside na capacidade de transformar bunkers da Segunda Guerra, antigas garagens de bondes e galerias de arte brutalistas em passarelas vibrantes. O formato INTERVENTION, curado pela Reference Studios, e o NEWEST, da agência Nowadays, continuam sendo os pilares que garantem que designers independentes tenham infraestrutura de nível global sem perder a identidade subversiva.

Para esta temporada de inverno, a expectativa gira em torno de como os designers traduzirão o pessimismo geopolítico e a crise climática em vestuário. Historicamente, Berlim usa a moda como protesto. O que esperar, então, é uma estética que flerta com o "survivalism" (sobrevivencialismo) — roupas funcionais, tecidos técnicos e uma paleta de cores que remete ao asfalto e ao céu cinzento da capital alemã em fevereiro. Nomes como Haderlump e SF1OG são os favoritos para ditar esse ritmo, unindo o artesanal ao distópico.

A ausência das feiras de massa abriu espaço para o Der Berliner Salon, a exposição coletiva que serve como o coração intelectual da semana. Sob a curadoria de Christiane Arp, o salão deve destacar a simbiose entre arte e moda. Em 2026, a "germanidade" na moda não é mais sobre eficiência e minimalismo rígido, mas sobre uma nova sensibilidade emocional e uma busca por raízes, em um mundo cada vez mais digitalizado. Julie Holiday observa que Berlim está, finalmente, confortável em sua própria pele: menos comercial, mais visceral.

Se as temporadas passadas (SS26) exploraram a vulnerabilidade e a leveza, a edição de inverno de 2026 promete um retorno ao peso — tanto literal quanto metafórico. Analisando o line-up confirmado, vemos uma clara divisão que deve dominar as conversas de rua: o Ultra-Avant-Garde contra o Novo Romantismo Berlinense.

No campo da vanguarda, o destaque absoluto vai para marcas como Ritual Unions e Marc Cain. Enquanto o primeiro desafia as convenções do "bridal wear" e da alta-costura com estruturas que parecem esculturas ósseas, o segundo traz a solidez de uma marca estabelecida que tem se reinventado para atrair a Geração Z. A tendência que emerge aqui é o uso extensivo de couro (frequentemente vegano ou reciclado) e silhuetas que protegem o corpo. Espere ver muitas camadas excessivas, ombros exagerados e uma reinterpretação do "Ugly Sneaker", que em Berlim ganha contornos de calçado utilitário para terrenos hostis.

Por outro lado, o "Novo Romantismo" será liderado por nomes como Horror Vacui e Kilian Kerner. Kerner, conhecido por suas apresentações cinematográficas, deve trazer para esta edição AW26 uma coleção que explora o contraste entre o glamour clássico e a crueza urbana. O uso de transparências em pleno inverno berlinense não é um erro, mas uma declaração de resistência estética. A paleta de cores, embora dominada pelo preto e cinza, deve ser pontuada por "pops" de cores ácidas — verde neon, laranja queimado e o onipresente azul elétrico — que servem como lembretes de vitalidade no inverno rigoroso.

Lou de Bètoly ©MBFW
Outro ponto focal será a moda masculina. Após o sucesso da estreia de David Koma no menswear na temporada anterior, Berlim se consolidou como um polo para a moda masculina que desafia binários. Esperamos ver uma alfaiataria desconstruída, onde o terno tradicional é substituído por conjuntos de lã fervida e detalhes em metal. A fluidez de gênero não é mais uma "tendência" em Berlim; é o padrão. Julie Holiday destaca que a BFW 2026 será o palco onde o masculino se permite ser decorativo, enquanto o feminino assume uma armadura de poder.


Berlim se posicionou como a capital da moda sustentável, e em 2026 essa exigência subiu de nível. Inspirada pelos rigorosos padrões de Copenhague, a BFW agora exige que todas as marcas participantes cumpram requisitos mínimos de responsabilidade ambiental e social. Não se trata mais apenas de usar algodão orgânico; trata-se de circularidade total.

O evento 202030 Summit será o epicentro dessa discussão durante os quatro dias de evento. O que podemos esperar são inovações que fundem biotecnologia e têxteis. Marcas como Buzigahill, que faz o caminho inverso da moda global (pegando resíduos têxteis do Norte Global enviados para a África e transformando-os em alta moda em Uganda para serem vendidos de volta na Europa), são o exemplo perfeito do que Berlim celebra agora: ativismo através do design.

Nesta edição de janeiro/fevereiro, veremos uma ênfase especial no "upcycling" de luxo. Designers como Maria Chany têm mostrado que materiais recuperados — de airbags descartados a mangueiras de borracha — podem criar silhuetas futuristas que nada lembram o aspecto "hippie" associado à sustentabilidade antiga. A estética é limpa, geométrica e brutalista.

Além disso, a iniciativa Studio2Retail ganhará força. A ideia é levar a sustentabilidade para o consumidor final, abrindo as portas dos ateliês e lojas conceituais em distritos como Mitte e Neukölln. Isso democratiza a Fashion Week, permitindo que o público veja o processo de produção por trás das peças. Para Julie Holiday, o grande trunfo de Berlim em 2026 é provar que a ética não precisa sacrificar a estética; pelo contrário, as limitações impostas pela sustentabilidade estão gerando a moda mais criativa da década.

A última parte desta cobertura foca no impacto da Berlin Fashion Week na própria cidade. Entre 30 de janeiro e 2 de fevereiro, Berlim deixa de ser apenas a sede do governo alemão para se tornar uma vitrine global de estilo de rua. O "street style" de Berlim em 2026 é uma mistura única de peças de arquivo, moda técnica de alta performance e elementos da cultura clubber que nunca abandonou a cidade.

Lena Hoschek ©Getty Images
A ausência das grandes feiras transformou os "showrooms" em eventos sociais. Espere por festas exclusivas em clubes lendários como o Berghain ou o Tresor, onde a linha entre o desfile e a pista de dança desaparece. A moda de Berlim é indissociável de sua vida noturna, e marcas como Ottolinger e GmbH personificam essa conexão, criando roupas que são feitas tanto para a passarela quanto para o "dancefloor".

O uso da tecnologia também será um diferencial nesta edição. Com o avanço da realidade aumentada, esperamos ver instalações digitais espalhadas pela cidade, onde o público pode "vestir" virtualmente as coleções apresentadas. A BFW 2026 está se tornando um evento "phygital" (físico + digital), garantindo que, mesmo com as temperaturas abaixo de zero, a energia da moda se espalhe pelas redes sociais e pelo metaverso.

Em conclusão, a Berlin Fashion Week AW26 sob o olhar de Julie Holiday é um manifesto de resiliência. Em um momento de incerteza global, Berlim oferece uma visão de futuro onde a moda é lenta, consciente e profundamente conectada com a identidade urbana. Não se trata de seguir tendências, mas de definir novos comportamentos. Se você quer saber para onde a cultura jovem está caminhando, não olhe para as vitrines de luxo de Paris; olhe para as ruas geladas de Berlim neste fim de janeiro.

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